quarta-feira, 1 de maio de 2013

A cosmovisão de um Mito: a propósito da nova nota de 5 euros


Anuncia-se para amanhã (2 de maio) a entrada em circulação de uma nova nota de 5 euros, que apresenta, em destaque, a imagem da deusa Europa, retirada da antiga mitologia grega. Podia ser esta uma boa oportunidade para refletir sobre os mitos fundacionais do velho continente e sobre o que neles está escrito para interpretação no presente. Podia ser, mas não é. Infelizmente, os mitos continuam a ser apenas matéria decorativa para algum do folclore barato que sustenta boa parte da sociedade mediática dos nossos dias.
Europa, princesa fenícia, era dotada de grande beleza, ao ponto de não lhe ter resistido Júpiter (Zeus para os gregos), o senhor absoluto de tudo, um autêntico deus de cobrição (foi pai de Vénus, Minerva, Mercúrio, Apolo, Diana, Vulcano, Hércules, Dionísio – o nosso tão apreciado Baco). Para a possuir, transformou-se na figura de um touro e raptou-a, conduzindo-a nas suas costas pelo mar até à ilha de Creta, onde passou a usá-la sempre que a volúpia dos seus instintos o impelisse a tal. Desses encontros, nasceu um sinistro rei Minos, juiz dos infernos, que subjugou e humilhou os atenienses, exigindo-lhes, todos os anos, sete mancebos e sete donzelas para satisfazer e amansar o terrível monstro predador Minotauro.


Já em tempos escrevi que os mitos são a cosmovisão do mundo. E veja-se então como a origem mitológica da Europa nos pode trazer uma centelha de luz aos acontecimentos do nosso tempo:
1 - A Europa, ainda hoje bela e apetecível, aí está como eterna amante de um “senhor absoluto de tudo” que atravessa o grande Atlântico quando os seus desejos a tal o impelem (mandou as guerras, mandou um “Plano Marshall” para vir colher depois, cuspiu para cá o “Lehman Brothers”, e, mais tarde ou mais cedo, voltará com um novo “Plano Marshall” para a seguir fazer a colheita…).
2 - Neste interim, assiste-se ao despontar de um sinistro rei Minos (agora vestido de saias) que teima em empurrar os países mais frágeis para as garras de um predador e devastador Minotauro (agora com três cabeças), que lhes vai devorando a melhor carne, com pressa de chegar aos ossos para com eles palitar os dentes.

Alexandre Parafita