domingo, 4 de fevereiro de 2018

Aí estão os rankings… que valem coisa nenhuma


De novo estão aí os rankings das escolas. Para encher páginas de jornais e espaços televisivos. E nada mais. Porque, em boa verdade, está-se a falar daquilo que toda a gente já sabe. Está-se a explorar o óbvio. E explorar o óbvio mais não é que uma forma ridícula de legitimar a imbecilidade.

Conheço bem, e por dentro, as duas realidades. E se na avaliação para os rankings não é levada em conta a realidade das dezenas e dezenas de escolas públicas deste país sobrecarregadas de problemas (alunos que transportam para lá toda a espécie de dramas, alguns mal nutridos, outros violentos, a polícia a ser chamada a todo o momento, famílias a viver na miséria, desestruturadas, pais desempregados ou a sobreviver com o rendimento mínimo, outros nas cadeias, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores, negócios de droga nas imediações, recreios que mais parecem presídios, outros transformados em infernos de selvajaria, uma classe docente de idade avançada…), então as regras do jogo estão viciadas.

Se ao menos estes rankings servissem para mudar alguma coisa no que toca às escolas públicas, vá que não vá. Mas, infelizmente, não servem para nada.



sábado, 13 de janeiro de 2018

Avós que contam histórias


Uma nova descoberta para o turismo. O projeto Viv@vó, que nasceu no IPB, mais propriamente na Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela, foi apresentado ao país na RTP-1, na quinta-feira, com reposição hoje (sábado).

As avós (Maria da Graça Afonso, de Agrochão, Vinhais, e Maria Lucinda Rosa, de Vila Verde da Raia, Chaves) vão dar corpo à experiência-piloto. Abrem as portas do seu lar e da sua aldeia, apresentando-a aos turistas, que experimentarão sabores da gastronomia e doçaria local, enquanto ouvem histórias antigas, lendas da aldeia, cancioneiros e romanceiros.

Uma experiência, única em Portugal, que promete.


A arte de deslumbrar as novas gerações…


Estas quatro jovens (Marta, Sónia, Cristiana e Susana), alunas da licenciatura em Ciências da Comunicação da UTAD, e (quem sabe?) futuras jornalistas, apresentaram hoje, orgulhosamente, um interessante trabalho académico de final de semestre, sobre a história de vida de Barroso da Fonte, decano do jornalismo em Portugal.

Absolutamente seduzidas pelo seu percurso, qualidade profissional, verticalidade, arroubo intelectual e ilimitada jovialidade, trouxeram dele uma grande lição: nada se consegue sem trabalho, sem estudo, dedicação, disciplina, respeito pelos valores matriciais e sobretudo humildade respeitosa perante quem nos pode transmitir os saberes que acumulou numa exemplar experiência de vida.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Manifestação de “desinteresse”


Recebi nesta quadra, provenientes de pessoas e instituições portuguesas, um número considerável de mensagens natalícias em língua inglesa. Não respondi a nenhuma delas, ao invés do que geralmente faço quando recebo os habituais votos simpáticos de Boas Festas.

E não respondi porque acho reprovável que, num momento tão maternal e identitário, haja portugueses que optem por comunicar com outros portugueses em inglês. Revelam preconceito em relação à nossa Língua-Mãe, a Língua Portuguesa.

E se já me inquietava saber que há portugueses (?) que têm preconceito em afirmar o português no universo de outras línguas, muito mais me inquieta perceber que há quem tenha preconceito em usar o português quando fala com outros portugueses.

Estando, pois, a aproximar-se o Ano Novo, manifesto desde já absoluto desinteresse em receber mensagens de pessoas ou instituições portuguesas que não se expressem na nossa Língua-Mãe. A língua em que aprendemos a amar e a pensar. A língua de Florbela, de Pessoa, de Camões… O nosso Património pátrio mais precioso.

ap

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A metáfora da escola num livro de Literatura Infantil


Tive o grato prazer de apresentar, ontem à noite, o livro da escritora Assunção Anes Morais «A Abelhinha Mariana», uma história de afetos sobre a relação de uma abelhinha rebelde com a sua abelha-mestra. O Grémio Literário Vila-realense estava repleto de público. A grande maioria eram professores, como a autora. E bem se justificava que o fossem.
A história do livro, como tive ocasião de dizer, é a metáfora do próprio sistema escolar. A colmeia é a escola, as abelhinhas os alunos, a abelha-mestra o professor. Os alunos, tal como a abelhinha Mariana, às vezes travessos, cabeças do ar, são chamados à razão pelo professor que os incentiva ao trabalho diário, ao trabalho coletivo, procurando transformá-los em alunos responsáveis e cumpridores,
Afinal, tal como a abelha-mestra da história, o professor tem sempre a palavra certa, no momento certo, para ajudar os alunos a superar os fracassos e as desilusões.
Parece incrível como ainda há quem menospreze esta nobre missão dos professores!

(ap)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Geração sem memória é geração oca


Assinala-se este mês mais um ano da navegabilidade do Douro. Foi em finais de outubro de 1990, que uma embarcação turística, com 170 pessoas a bordo, subiu pela primeira vez o rio, desde o Porto até a Barca D'Alva. De então para cá, revolucionou-se o turismo de uma região e de um país. Centenas de milhares de turistas de todo o mundo, cruzeiros de luxo, milhões e milhões de euros… fluem anualmente pelas águas do Douro.

Mas será que todos os que hoje usufruem deste filão milionário saberão que a luta para tornar o Douro navegável em toda a extensão (210 quilómetros) foi dura e longa? Uma luta de David contra Golias (o Douro contra Lisboa) que começou em 1965? De início, procurava-se escoar pela via fluvial os produtos do Cachão, o ferro de Moncorvo e outras riquezas naturais, num tempo em que a instalação da indústria siderúrgica e a extração mineira (volframite, hematite, cassiterite, cromite, arsénio, manganez, antimónio, ouro, prata…), abriam horizontes novos à economia da região.

A navegabilidade impunha-se, pois, como solução. Contudo, o Douro continuava o rio de mau navegar. A memória dos naufrágios e lutos nas povoações ribeirinhas e as ermidas nas margens a recordar as tragédias dos velhinhos rabelos, continuavam a lembrar os perigos seculares do rio. A remoção de obstáculos à passagem de embarcações de grande porte, assim como a construção de eclusas nas barragens, eram investimentos necessários, aos quais Lisboa virava costas. Lisboa era a capital, o resto paisagem. A luta iria, pois, ser longa e difícil. Faltavam “guerreiros” que afrontassem o regime. Afrontou-o um velho jornalista, Rogério Reis, hoje votado ao mais injusto silêncio. Alimentou durante anos uma campanha ininterrupta em prol da navegabilidade, escreveu um livro sobre o tema, fez centenas de reportagens e editoriais, conferências e ousadas interpelações a governantes (ainda o conheci nessa luta) antes e depois do 25 de abril. A batalha foi ganha, está bem de ver. Mas já não para os grandes objetivos originais (esses perderam-se), e sim para abrir passagem aos luxuosos cruzeiros.

Rogério Reis morreu invisual, num bairro social de Vila Real sem nunca ter entrado num desses cruzeiros que hoje drenam milhões Douro acima e Douro abaixo. Será que alguma vez, ao celebrar-se mais um aniversário da navegabilidade, se lembrarão dele, evocando a sua memória? Uma geração que se habitua a apagar a memória, ainda que hoje lhe corram os milhões pelas mãos, um dia acabará oca, ou, pior ainda, seca como palhas alhas.

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 27-10-2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O triunfo do anti-herói


Ao teorizar sobre o inconsciente, há quase um século atrás, Sigmund Freud revolucionou a psicanálise conseguindo interpretar o lado mais irracional e profundo da natureza humana como esse lado oculto que afeta os comportamentos que o indivíduo geralmente recusa aceitar numa dimensão consciente. Se nos transportarmos para o tempo em que assim teorizou, fácil é perceber como já então se profetizava o triunfo de algumas das irracionalidades da primeira metade do século XX, a começar pelo nazismo. Indivíduos que conscientemente não são racistas nem xenófobos, inconscientemente são-no.

Abre-se, pois, nesta dualidade (consciente vs. inconsciente), um caminho fácil ao triunfo dos contrários. E essa exploração dos contrários (que já outros psicanalistas, como Carl Jung, avaliaram num confronto de opostos que procura sublimar a identidade do “eu” num cenário de menosprezo e humilhação do “outro”) continua sendo, ainda hoje, uma estratégia recorrente para atingir e despertar públicos habitualmente indiferentes ou apáticos, e assim confirmar a eficácia desse tal modelo hipodérmico de comunicação preceituado por Lasswell.

Esta constatação não deixa de colocar-nos também perante uma clara problematização de tudo aquilo que se inscreve nos padrões da norma, do convencional, dos valores morais consolidados, em favor de um oculto-subversivo, misterioso, marginal, grotesco até. Ou seja, a sociedade é impelida a admitir uma clara hegemonização de “mitos triviais”, supérfluos, provocadores, o que, inevitavelmente, irá impor também uma revisão do próprio conceito de “herói”.

Na verdade, o herói começa hoje a “medir-se” mais pela capacidade de contrariar o convencional (por exemplo, assumindo a ousadia de um coito em direto na tv…), do que pela capacidade de distinguir-se no quadro daquilo que é convencional. Hoje é mais estimulante assaltar o castelo do que defendê-lo. E esta constatação, se, por um lado, traduz uma rotura com valores do passado (em que os heróis eram aplaudidos pela forma como o defendiam), por outro, não deixará de implicar o risco de estarmos a construir modelos éticos duvidosos e problemáticos para as novas gerações.

Ocorre-me esta breve reflexão apenas e só por ter visto quase 70% da população avaliada em recentes sondagens, aderir positivamente aos discursos racistas e xenófobos de um conhecido candidato às próximas eleições autárquicas. 

AP
in Jornal de Notícias, de 11-9-2017