sábado, 21 de julho de 2018

O funeral do interior



            Na mesma altura em que o Governo, em mais uma das suas toadas esperançosas, anunciava um Conselho de Ministros Extraordinário para aprovar medidas de ordenamento e coesão territorial, escolhendo Pampilhosa da Serra como palco simbólico, para, desse jeito, reafirmar o propagandístico e ilusório emblema “todos somos interior”…, na mesma altura, dizia eu, tornava-se conhecida a decisão governamental de encerrar o Colégio Salesiano de Poiares, no distrito de Vila Real, uma instituição de referência no interior, considerada, há décadas, um dos seus pilares de formação cívica e cultural. São afetados 225 alunos, 25 funcionários e 21 professores, que asseguravam os 2º e 3º ciclos e cursos profissionais em regime de externato e internato. Era o principal motor social e económico de uma comunidade no coração do Douro Vinhateiro Património Mundial. Mais de metade dos alunos recebia apoio social escolar, pelo que, com o seu encerramento, quem perde são os mais pobres, sempre os mais pobres, deste interior já empobrecido.
            Como diria o outro: bem prega Frei Tomás! Que o mesmo é dizer: bem prega António Costa!
            O próprio bispo de Vila Real, D. Amândio Tomás, pessoa geralmente reservada e discreta, não conteve a revolta ao qualificar como “ditatorial e irresponsável” tal decisão, acusando o Estado de estar a preparar o “funeral do interior”. “Resta a submissão à decisão de não permitir outra alternativa ao que o Estado soberanamente decidir, ainda que se saiba que decide mal e, desgraçadamente, decida contra os pobres, porque são estes sempre a sofrer”, escreve o bispo na sua nota episcopal.
            Num cenário destes, com o país a ser gerido dos gabinetes de Lisboa, e a falarem do interior sempre com um hálito demagógico na boca, o que valem alertas como o do autarca de Vila Real, Rui Santos, ao lembrar que a população no litoral ultrapassa hoje os 52% enquanto no interior baixou 38%, com a agravante de que 82,4% dos jovens, com menos de 25 anos, vive também no litoral?

in Jornal de Notícias, 20-7-2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nadir humilhado


Vila Real devia orgulhar-se do privilégio de possuir um dos raros imóveis da arquitetura moderna que Nadir Afonso introduziu em Portugal na década de 60. Nadir Afonso (1920-2013), arquiteto, pintor e ensaísta, deixou em Portugal e no estrangeiro, nos vários domínios da arte e da estética, uma obra única, original e de dimensão universal.

Após um riquíssimo trajeto internacional, trabalhando com os mais influentes mestres do movimento moderno, Nadir projetou em Portugal algumas das obras mais emblemáticas que marcaram a história da arquitetura do séc. XX. E sendo transmontano, aceitou conceber também para Vila Real um singular edifício, conhecido como Panificadora PanReal, que continua a fazer parte da memória coletiva dos vila-realenses.

Vila Real devia orgulhar-se, de facto. Mas ainda que se orgulhe, debalde o faz, pois os decisores de Lisboa (sempre Lisboa!..) estão-se nas tintas para esse orgulho. Este edifício, ou o que dele resta, está hoje transformado numa autêntica…cloaca!


Situa-se nas imediações da UTAD. E foi a partir de docentes da universidade que um movimento de cidadãos, conscientes do valor simbólico do imóvel, lançou, há um ano, uma petição pública dirigida às instâncias governamentais e municipais a propor a sua classificação como imóvel de interesse público. O objetivo era travar a onda de vandalismo, bem como a sua presumida demolição a favor de uma superfície comercial, permitindo que Vila Real assegure a homenagem devida a Nadir Afonso, conservando o imóvel “como exemplo, não só, do génio de um grande artista e de um tipo de arquitetura de época, mas também como visão do espaço de trabalho de uma profissão [a panificação] que vai desaparecendo”. A própria Ordem dos Arquitetos e já antes Siza Vieira igualmente se manifestaram pela sua salvaguarda, reconhecendo-o como património com interesse arquitetónico que marca uma época.

O Ministério da Cultura, através da DGPC, acolheu a petição, e, há um ano, abriu o procedimento de classificação, para impedir – dizia –  “danos continuados do imóvel”. Porém, se a intenção era impedi-los, um ano bastou para que a destruição atingisse a vergonha que hoje se vê. Funcionou assim a lógica do facto consumado, tornando cada vez mais difícil justificar a classificação e a salvaguarda. E, na verdade, a resposta do Ministério veio, finalmente, em Diário da República arquivando o processo. Pergunta-se: ouviram quem? Os peticionários? A Ordem dos Arquitectos? Siza Vieira?

A memória de Nadir Afonso não merecia esta humilhação.

in Jornal de Notícias, de 7-7-2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um serão com as histórias da avó


Histórias do contrabando na fronteira, contos de bruxas e feiticeiras, lendas de mouras encantadas… vão preencher amanhã (15 de junho), em Vila Verde da Raia, no concelho de Chaves, “Um serão com as histórias da avó”. Trata-se do projeto “Viv@vó”, dinamizado pela Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo (ESACT) de Mirandela, um projeto que procura descobrir, no seio do povo, novas propostas para o turismo.

Em janeiro, aconteceu em casa da avó de Agrochão, Vinhais (Graça Afonso, na foto). Desta vez, a anfitriã é a avó Maria Lucinda Rosa, a contadora de histórias que vai receber os seus convidados com um jantar à base de milhos com carne de porco. E a reforçar a sobremesa… lá estarão as histórias: a verdadeira ciência do povo. Uma experiência única em Portugal.

Eu próprio, também convidado, não faltarei. Se não for pelos milhos…., há de ser pelas histórias.

(ap)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ensinar crianças e caçar?! Mas em que século estamos?



Hoje no jornal i. Que notícia fantástica! Depois, cá estou eu (e outros como eu) para chamá-las à razão. Ou (re)educá-las. Comigo saberão que a Natureza e os seres que nela habitam são um bem em risco. Saberão que matar todo o ser que vive, e fazê-lo por capricho, para saciar o apetite de aventura e desporto, já não é mais um ato de cultura, mas sim de selvageria. Saberão que, tal como o homem, os animais também sentem prazer, felicidade, dor, saudade e sofrimento.

E se alguma vez encontrar uma das crianças deste acampamento, hei de desafiá-la, quando pensar em matar um animal indefeso, a olhá-lo no fundo dos seus olhos antes de o abater, e, por um momento, imaginar-se a trocar de posição com ele.

(ap)

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Este Douro, Património Mundial da UNESCO… é só para inglês ver?


Uma boa parte desta paisagem, que a UNESCO tem classificada como Património Mundial, e que gera muitos milhões de lucros com o turismo, foi fustigada nos últimos dias por violentas trovoadas de chuva e granizo que destruíram vinhas, provocaram derrocadas de muros e movimentos de terras, sofrendo em especial os concelhos de Sabrosa e de Alijó, nos seus territórios mais próximos do rio Douro.

Nas suas vinhas, os agricultores deparam-se com as folhas esfarrapadas, galhos quebrados e bagos no chão, muros caídos e deslizamentos de terras. Ficaram feridas as vinhas, mas feridas maiores ficaram no ânimo dos agricultores, que vão agora ter de correr ceca e meca para tentarem assegurar os meios possíveis de subsistência.

É que, às vezes, tem-se a sensação de que o Douro é só esta paisagem, protegida pela UNESCO, que deslumbra os olhares para lisonja e delícia de quem o visita, esquecendo-se que, por detrás de cada cepa e de cada pedra, há rostos de gente que ainda sofre para sobreviver.

(ap)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Começa hoje o IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro



Decorre no Pavilhão do Conhecimento do Parque das Nações, em Lisboa. Serão três dias para reafirmar a identidade da Pátria Transmontana. Onde ser transmontano, mais do que um mero registo de naturalidade, é uma devota e orgulhosa vocação.

Não estarei lá fisicamente, com muita pena. Especialmente na apresentação, hoje, às 19h, da «Antologia de Autores Transmontanos, Durienses e da Beira Transmontana», coordenada pelo escritor e académico Armando Palavras, que teve a gentileza de me incluir com 5 poemas.

(ap)

terça-feira, 22 de maio de 2018

De novo os ridículos “olharapos” da Expo…


Iniciam-se hoje as celebrações dos 20 anos da abertura da Expo 98. E, ao que consta, prometem voltar com aqueles ridículos “olharapos”, inventados por “cérebros” ignorantes que me fizeram lembrar os miúdos da escola primária a divertirem-se com os desenhinhos de monstros que a imaginação inocente produz.

Se fosse gente culta saberia que o olharapo é uma criatura da mitologia popular portuguesa, um gigante que se caracteriza por ter um só olho na testa. Daí o nome. O lendário tradicional refere-os nas regiões do norte de Portugal e da Galiza (em Vinhais é o “olhapim” e diz o povo “na terra do olhapim, quem tem dois olhos é rei”). Bastaria terem lido o mestre Leite de Vasconcelos ou o Abade de Baçal. Ou até a wikipedia.

(ap)