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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um diamante a (de)lapidar



O ministro Augusto Santos Silva, com referência ao potencial das regiões fronteiriças luso-espanholas, chamou-lhe “um quase diamante por lapidar”, procurando desse jeito antever uma espécie de filão a sair da Cimeira Ibérica que se anunciava para Vila Real. E se bem sabemos como os símbolos são as pedras preciosas da linguagem sábia, há que reconhecer também no diamante a simbologia da perfeição e do invencível e imutável poder do espírito. Perfeição e espírito remetem-nos para a cultura. E em boa verdade a cultura foi o que esteve claramente ausente na Cimeira Ibérica de Vila Real. No imenso cortejo de ministros que de Portugal e Espanha marcaram presença, não vimos nem o ministro da cultura português nem o espanhol.

Os dois países firmaram, de facto, importantes acordos, seja para uma fruição turística estratégica, seja para a desembocadura dos rios de fronteira, para o reforço da cooperação científica, tecnológica e empresarial, seja em matéria de emprego e assuntos sociais, assim como na implementação das redes ferroviárias (Sines-Madrid; Aveiro – Vilar Formoso – Salamanca; e Porto – Vigo), deixando de fora a Linha do Douro, apesar dos estudos recentes que apontavam a reconversão desta via como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Tendo sido escolhida a região do Douro como palco da cimeira, muitos perguntarão: o que ganhou, afinal, a região, para além dos instantes de fama ou da miragem mediática focada no Douro navegável e na cidade de Vila Real?

           Visto isto, o “quase diamante” que o ministro invoca não passou do “quase”. Agarrar o projeto cultural comum por que vêm lutando etnógrafos galegos e portugueses há anos com vista à classificação pela UNESCO do património imaterial da velha Gallaecia, poderia bem ser o “diamante” desta cimeira. Só que a cultura não entrou lá.


Quando pela Europa fora se criam eurorregiões e eurocidades assentes em bases artificiais, em estratégias que podem prescrever se os interesses que as movem se alteram, a Galiza e o Norte de Portugal partilham uma consciência de comunidade transfronteiriça assente em bases culturais profundas e isso faz a diferença. Partilham laços histórico-culturais retratados na língua, no lendário comum, na etiologia dos topónimos, no romanceiro e cancioneiro, na ritualidade dos atos festivos. Saibam (Lisboa e Madrid) que aqui há um povo que sempre ignorou os muros que os estados jacobinos e centralistas procuraram impor ao longo da história. Um povo que vive como se as fronteiras não existissem. 

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 12-6-2017

sábado, 13 de maio de 2017

A Cimeira Ibérica que aí vem


Vila Real foi a cidade escolhida para a Cimeira Ibérica agendada para os próximos dias 29 e 30. Conhecidos os fracassos das anteriores (em especial da última, em Baiona, entre Rajoy e Passos Coelho, que durou apenas três horas e não deu em nada…), é já grande o frenesim em torno desta, que promete, no mínimo, um certo esplendor mediático para Vila Real colocando-a no mapa das grandes decisões transnacionais.

Sobre a mesa, estarão seguramente temas de que já se vai falando, inscritos num chamado Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça (POCTEP). Será assim inevitável retomar o plano de mobilidade transfronteiriça com a projetada conexão ferroviária de TGV Sines-Lisboa-Badajoz-Madrid, e (quem sabe?) dar ouvidos a lóbis nortenhos que reclamam a reconversão da Linha do Douro como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Mas estão aí também temas candentes como os projetos energéticos comuns, as emergências transfronteiriças com enfoque nos incêndios (hoje as leis proíbem que bombeiros de um país acudam a uma emergência no país vizinho se esta ocorrer a mais de dez quilómetros…), o mercado único ibérico para o turismo, a harmonização das titulações académicas…, e só por milagre é que não cairá na mesa a incontornável questão da central nuclear de Almaraz, agora que os dois governos parecem entender-se, ainda que perante a revolta persistente dos ambientalistas.


Está bem de ver que não faltarão na mesa muitos assuntos que sempre desuniram os países (e que sustentam a velha parémia: “De Espanha nem bom vento…”), mas que hoje a vontade dos homens converte em estratégias de união. Talvez por isso em cima da mesa desta cimeira, que por sinal até se realiza em terras nortenhas, não irá estar um vislumbre sequer daquilo que mais une, desde sempre, os dois povos: a cultura ancestral comum Galiza-Norte de Portugal. E era por aí que tudo deveria começar. A Euro-Região Galiza-Norte de Portugal, que procura afirmar-se numa lógica europeia nova, jamais chegará a bom porto se não tiver como âncora uma consciência de comunidade transfronteiriça sustentada no património cultural imaterial comum. Mas neste capítulo os dois governos estão claramente de costas voltadas. Apesar dos esforços que etnógrafos portugueses e galegos representados pela ONG “Ponte nas Ondas” travam há anos, Lisboa e Madrid ainda não conseguiram sequer entender-se numa coisa bem simples: a apresentação da tão almejada candidatura comum do Património Imaterial Galego-Português a Património Mundial da UNESCO. E bem podia ser agora.

Alexandre Parafita
(In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-05-2017)