sábado, 24 de agosto de 2019

Negócio de ricos… angústia de pobres


Aquele inquietante “admirável mundo novo” que Huxley profetizou há mais de meio século parece agora cumprir-se nos augúrios de uma sociedade tecnológica que descobriu um novo “eldorado” em Trás-os-Montes: o lítio. Conhecido como “ouro branco” ou “petróleo do futuro”, este mineral raro usado na produção de baterias, que ganhou particular importância com a crescente massificação das viaturas elétricas, presenteou as terras do Barroso (Boticas e Montalegre) com uma das suas maiores reservas mundiais.

Contudo, a circunstância de as explorações serem a céu aberto, e daí a inevitabilidade das consequências ambientais num território classificado pela UNESCO como Património Agrícola Mundial do Sistema Agro-Silvo-Pastoril, está a provocar apreensão nos ambientalistas e angústia nas populações. A Quercus apresentou já denúncia formal à UNESCO questionando se as explorações de lítio porão ou não em causa a manutenção da classificação. Por sua vez, entre as populações, ganhando veemência a divisa “o lítio ou a vida”, cresce a ameaça da poluição do ar, da água dos poços e rios, dos solos, das hortas, lameiros e pastos, com emissões de partículas finas, que tornarão a vida insuportável, ou até impossível.

Entretanto, distante deste conflito, mas expectante, a indústria automóvel prepara-se para acrescentar fabulosos lucros com tão cobiçado recurso mineral.

De lamentar é que o elo mais fraco seja sempre o interior e as suas populações. Há um ano atrás, por pressões de ambientalistas e autarcas, foi travada a exploração petrolífera a 46,5 km da costa vicent
ina no Algarve. E porquê? Melhores argumentos?

A resposta é sempre igual: aqui é interior… lá é litoral!

(AP)
in Jornal de Notícias, 23-9-2019

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Esopo e as pulgas


Falando de fábulas. Têm sempre um propósito moralista, mas, por vezes, pouco ou nada recomendável. E pior ainda, quando o seu epílogo de teor moral procura enfatizar aquilo que uma boa alegoria deveria dispensar, já que o esforço de explicar o óbvio é, em si mesmo, uma categorização imbecilizadora de quem lê ou ouve. Daí que quase pouco as recomende, especialmente quando desanexadas de um sentido crítico da duvidosa moral que veiculam.

É o caso de uma conhecida fábula de Esopo, que, querendo defender a recondução no cargo de um determinado líder político, vem narrar a alegoria da raposa e do ouriço. Conta que, estando uma velha raposa atormentada pelas pulgas que se lhe entranhavam no couro, prontificou-se o ouriço a ir catá-las. Ao que a raposa respondeu que não. Que as deixasse estar. «Estas estão cheias e já pouco mais poderão sugar – justificou. – Se as vieres catar, outras virão, famintas, ocupar o seu lugar.».

Mesmo não me sendo simpáticas as fábulas moralistas, e muito menos quando procuram sustentar moralidades perversas, não me inibo de invocá-las, enquanto metáforas de realidades morrinhentas, como é o caso de regimes políticos que procuram perpetuar-se, com as mesmas cadeiras, os mesmos rostos, o mesmo discurso.

Na webesfera tropeça-se com frequência numa outra metáfora, atribuída a Eça de Queirós (erradamente, julgo), que compara os políticos às fraldas nos bebés, havendo que mudá-las amiúde para evitar que empestem. Um sentido próximo do provérbio transmontano: “Criados e bois… um ano ou dois”.

Ocorrem-me estas achegas quando reparo nas listas anunciadas para as próximas eleições e continuo a ver os rostos que já via há 20 e 30 anos…

(AP)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-8-2019

sábado, 27 de julho de 2019

Em que águas navega Magalhães?



Há uns anos atrás, uma pedagoga brasileira, de visita a diversas escolas em Portugal, estranhou ver os alunos, principescamente, munidos de um computador com o nome “Magalhães” e desconhecerem em absoluto que nome era esse. Estava-se em pleno governo de Sócrates, tempo de abastança, com um milhão de “Magalhães” a serem distribuídos pelas escolas, ao abrigo do programa “e-escolinha”, contudo a grande maioria dos alunos que usava tal equipamento nem sequer o associava ao Navegador e muito menos sabia da existência desse grande português, senhor dos Oceanos, que foi pioneiro na história do mundo.

Tal paradoxo foi o leit-motiv para que, por sua sugestão e minha coautoria, nascesse o livro infantojuvenil “Magalhães nos olhos de um menino”, lançado pela Plátano Editora, em 2011, e logo adotado pelo PNL. Uma obra escrita a duas mãos, página cá página lá, a fluir nas redes sociais, ligando os dois lados do Atlântico, na pegada da “aldeia global” que Magalhães começou a construir.

Passaram oito anos e este ano comemora-se o V Centenário da Circum-Navegação. Entre os objetivos parecia claro o propósito de alcançar com a chama das comemorações as crianças e jovens das escolas da rede magalhânica, procurando aí divulgar e consagrar a figura do Navegador.

Entretanto, muitos atos públicos têm já ocorrido, com muita História e muita Ciência em torno de Magalhães. E mesmo alguma polémica a soprar do país vizinho não tem faltado. Mas, e como ficam as crianças e jovens? Estará a chegar a elas a chama heróica do grande Navegador, esse português que provou não haver um fim para o mar, e mostrou ao mundo que, quando os sonhos são infinitos, nem a lei da morte os pode travar?

in Jornal de Notícias 25-7-2019

terça-feira, 16 de julho de 2019

A lenda das “Cristas de Galo”



[Tendo a “Crista de Galo” sido apurada como pré-finalista das 7 Maravilhas Doces de Portugal, vale a pena conhecer a lenda que explica a sua origem]

«Segundo a lenda, umas freiras do antigo convento de Santa Clara, em Vila Real, andavam de candeias às avessas com um frade maldizente do convento de S. Domingos, situado mesmo ao lado, que passava o tempo a apoucar-lhes os cozinhados. Era um vaidosão impertinente – diziam –, conhecido por andar sempre emproado, de “crista levantada”.

Um dia, estavam as freiras a separar as gemas das claras para fazerem um pudim, quando, por descuido, deixaram cair um tanto de banha de amêndoa ralada sobre as gemas. O que haviam então de fazer? Desistiram do pudim e com o que ficou improvisaram um doce que mandaram ao frade, mas antes, por vingança dos seus desdéns, deram-lhe a forma de “crista de galo”. O que elas não esperavam é que o frade não só gostou, como ainda ficou à espera de mais. E assim nasceu este doce típico de Vila Real.»

(ap)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Falar de Agustina é falar de um génio!



Mas os génios também partem. E, tratando-se de Agustina, uma mulher do Douro, uma mulher do mundo, com ela parte também um pouco de nós. Partiu hoje, 3 de junho, com 96 anos.

A última grande homenagem em vida foi-lhe prestada, há meio ano, pela UTAD, que lhe atribuiu o Doutoramento Honoris Causa (foi a primeira mulher a receber tal título pela Universidade). Honro-me de ter feito parte da Comissão de Homenagem.

Eternamente grato pelo muito que aprendi nas páginas dos seus livros, hei de curvar-me sempre perante a sua memória.


(ap)

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Não mexam com a dignidade dos professores!



As cambalhotas ou a teatralidade a que alguns partidos políticos, sob a poeira pré-eleitoral, sujeitaram a reivindicação dos professores (que insistem no descongelamento integral dos seus anos de carreira), vai sendo pretexto para mais um rol de comentários e críticas, por vezes humilhantes, a que algumas vozes querem sujeitar esta classe profissional. Lemos e ouvimos, num tom geralmente provocatório, acusar os professores de serem uma classe privilegiada, que ganha muito e trabalha pouco.

São, claramente, comentários e críticas de quem nada sabe sobre a rotina e o desgaste dos professores. De quem desconhece a práxis estranguladora de um professor que concentra em si um rosário infindável de funções e tarefas, trabalhando de dia e de noite, a lecionar turmas numerosas, a elaborar planos de aula, planos de recuperação de alunos e de registos regulares de evolução, a elaborar materiais pedagógicos, projetos de turma, testes de diagnóstico, informação para encarregados de educação, relatórios de tutorias, de projetos, clubes, aulas de apoio, reuniões e elaboração das respetivas atas com encarregados de educação, conselhos de turma, de diretores de turma, de departamento, conselhos pedagógicos… e por aí adiante.

E que dizer de um professor a ter ainda de gerir a terrível realidade de alunos que levam para a escola toda a espécie de dramas, uns mal nutridos, outros violentos, a polícia a ser chamada a todo o momento, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores…?

A escola é o berço da educação. Ver os professores a terem de vir para a praça pública gritar por dignidade é vergonhoso num país que se quer civilizado.

(ap)
in Jornal de Notícias, 22-5-2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Envelhecer de mão dada com um robô…


Já não há estudos académicos que nos possam surpreender. As sociedades desenvolvidas estão, de facto, a tornar-se sociedades envelhecidas. O aumento da esperança de vida em conjugação com a queda da natalidade apresenta-nos um cenário real, irrefutável, de envelhecimento da população. Em Portugal as projeções indicam que em 2060 existirão três idosos para apenas um jovem, numa esperança média de vida de 81 anos. Metade da população terá mais de 65. Este aumento exponencial da população idosa, acompanhado pela diminuição desmesurada da população jovem ativa (seja pela baixa natalidade, seja pela crescente emigração dos jovens face à escassez de oportunidades no seu país), leva, já hoje, a questionar sobre quem no futuro prestará os cuidados necessários aos idosos. Quem os acomodará na sua velhice, tal como eles o fizeram, antes, com os seus idosos? Haverá sequer mão-de-obra especializada suficiente?

Foi certamente com o desassossego posto nesta visão prospetiva dos idosos da sociedade do futuro que o jovem Leonel Crisóstomo, estudante da UTAD, deitou mãos à obra e, com o auxílio dos seus professores, desenvolveu uma aplicação informática que permite a um robô auxiliar os idosos em algumas das suas funções essenciais. Por exemplo, na toma correta da medicação. Os testes foram aplicados com sucesso em dois lares de Vila Real. O robô usa o seu sistema de locomoção para se movimentar até ao idoso e, através de visão por computador, deteta a embalagem de um medicamento e identifica a pessoa que o deve tomar no horário correto. Eficácia total.

A Dona Adelaide, muito lúcida nos seus 89 anos, primeiro olhou-o desconfiada (um “extraterrestre” aqui ao meu serviço?!). Depois, com um leve sorriso, acariciou-o numa cumplicidade afetuosa.

in Jornal de Notícias, 8-5-2019