sábado, 24 de agosto de 2019

Negócio de ricos… angústia de pobres


Aquele inquietante “admirável mundo novo” que Huxley profetizou há mais de meio século parece agora cumprir-se nos augúrios de uma sociedade tecnológica que descobriu um novo “eldorado” em Trás-os-Montes: o lítio. Conhecido como “ouro branco” ou “petróleo do futuro”, este mineral raro usado na produção de baterias, que ganhou particular importância com a crescente massificação das viaturas elétricas, presenteou as terras do Barroso (Boticas e Montalegre) com uma das suas maiores reservas mundiais.

Contudo, a circunstância de as explorações serem a céu aberto, e daí a inevitabilidade das consequências ambientais num território classificado pela UNESCO como Património Agrícola Mundial do Sistema Agro-Silvo-Pastoril, está a provocar apreensão nos ambientalistas e angústia nas populações. A Quercus apresentou já denúncia formal à UNESCO questionando se as explorações de lítio porão ou não em causa a manutenção da classificação. Por sua vez, entre as populações, ganhando veemência a divisa “o lítio ou a vida”, cresce a ameaça da poluição do ar, da água dos poços e rios, dos solos, das hortas, lameiros e pastos, com emissões de partículas finas, que tornarão a vida insuportável, ou até impossível.

Entretanto, distante deste conflito, mas expectante, a indústria automóvel prepara-se para acrescentar fabulosos lucros com tão cobiçado recurso mineral.

De lamentar é que o elo mais fraco seja sempre o interior e as suas populações. Há um ano atrás, por pressões de ambientalistas e autarcas, foi travada a exploração petrolífera a 46,5 km da costa vicent
ina no Algarve. E porquê? Melhores argumentos?

A resposta é sempre igual: aqui é interior… lá é litoral!

(AP)
in Jornal de Notícias, 23-9-2019

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Esopo e as pulgas


Falando de fábulas. Têm sempre um propósito moralista, mas, por vezes, pouco ou nada recomendável. E pior ainda, quando o seu epílogo de teor moral procura enfatizar aquilo que uma boa alegoria deveria dispensar, já que o esforço de explicar o óbvio é, em si mesmo, uma categorização imbecilizadora de quem lê ou ouve. Daí que quase pouco as recomende, especialmente quando desanexadas de um sentido crítico da duvidosa moral que veiculam.

É o caso de uma conhecida fábula de Esopo, que, querendo defender a recondução no cargo de um determinado líder político, vem narrar a alegoria da raposa e do ouriço. Conta que, estando uma velha raposa atormentada pelas pulgas que se lhe entranhavam no couro, prontificou-se o ouriço a ir catá-las. Ao que a raposa respondeu que não. Que as deixasse estar. «Estas estão cheias e já pouco mais poderão sugar – justificou. – Se as vieres catar, outras virão, famintas, ocupar o seu lugar.».

Mesmo não me sendo simpáticas as fábulas moralistas, e muito menos quando procuram sustentar moralidades perversas, não me inibo de invocá-las, enquanto metáforas de realidades morrinhentas, como é o caso de regimes políticos que procuram perpetuar-se, com as mesmas cadeiras, os mesmos rostos, o mesmo discurso.

Na webesfera tropeça-se com frequência numa outra metáfora, atribuída a Eça de Queirós (erradamente, julgo), que compara os políticos às fraldas nos bebés, havendo que mudá-las amiúde para evitar que empestem. Um sentido próximo do provérbio transmontano: “Criados e bois… um ano ou dois”.

Ocorrem-me estas achegas quando reparo nas listas anunciadas para as próximas eleições e continuo a ver os rostos que já via há 20 e 30 anos…

(AP)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-8-2019

sábado, 27 de julho de 2019

Em que águas navega Magalhães?



Há uns anos atrás, uma pedagoga brasileira, de visita a diversas escolas em Portugal, estranhou ver os alunos, principescamente, munidos de um computador com o nome “Magalhães” e desconhecerem em absoluto que nome era esse. Estava-se em pleno governo de Sócrates, tempo de abastança, com um milhão de “Magalhães” a serem distribuídos pelas escolas, ao abrigo do programa “e-escolinha”, contudo a grande maioria dos alunos que usava tal equipamento nem sequer o associava ao Navegador e muito menos sabia da existência desse grande português, senhor dos Oceanos, que foi pioneiro na história do mundo.

Tal paradoxo foi o leit-motiv para que, por sua sugestão e minha coautoria, nascesse o livro infantojuvenil “Magalhães nos olhos de um menino”, lançado pela Plátano Editora, em 2011, e logo adotado pelo PNL. Uma obra escrita a duas mãos, página cá página lá, a fluir nas redes sociais, ligando os dois lados do Atlântico, na pegada da “aldeia global” que Magalhães começou a construir.

Passaram oito anos e este ano comemora-se o V Centenário da Circum-Navegação. Entre os objetivos parecia claro o propósito de alcançar com a chama das comemorações as crianças e jovens das escolas da rede magalhânica, procurando aí divulgar e consagrar a figura do Navegador.

Entretanto, muitos atos públicos têm já ocorrido, com muita História e muita Ciência em torno de Magalhães. E mesmo alguma polémica a soprar do país vizinho não tem faltado. Mas, e como ficam as crianças e jovens? Estará a chegar a elas a chama heróica do grande Navegador, esse português que provou não haver um fim para o mar, e mostrou ao mundo que, quando os sonhos são infinitos, nem a lei da morte os pode travar?

in Jornal de Notícias 25-7-2019

terça-feira, 16 de julho de 2019

A lenda das “Cristas de Galo”



[Tendo a “Crista de Galo” sido apurada como pré-finalista das 7 Maravilhas Doces de Portugal, vale a pena conhecer a lenda que explica a sua origem]

«Segundo a lenda, umas freiras do antigo convento de Santa Clara, em Vila Real, andavam de candeias às avessas com um frade maldizente do convento de S. Domingos, situado mesmo ao lado, que passava o tempo a apoucar-lhes os cozinhados. Era um vaidosão impertinente – diziam –, conhecido por andar sempre emproado, de “crista levantada”.

Um dia, estavam as freiras a separar as gemas das claras para fazerem um pudim, quando, por descuido, deixaram cair um tanto de banha de amêndoa ralada sobre as gemas. O que haviam então de fazer? Desistiram do pudim e com o que ficou improvisaram um doce que mandaram ao frade, mas antes, por vingança dos seus desdéns, deram-lhe a forma de “crista de galo”. O que elas não esperavam é que o frade não só gostou, como ainda ficou à espera de mais. E assim nasceu este doce típico de Vila Real.»

(ap)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Falar de Agustina é falar de um génio!



Mas os génios também partem. E, tratando-se de Agustina, uma mulher do Douro, uma mulher do mundo, com ela parte também um pouco de nós. Partiu hoje, 3 de junho, com 96 anos.

A última grande homenagem em vida foi-lhe prestada, há meio ano, pela UTAD, que lhe atribuiu o Doutoramento Honoris Causa (foi a primeira mulher a receber tal título pela Universidade). Honro-me de ter feito parte da Comissão de Homenagem.

Eternamente grato pelo muito que aprendi nas páginas dos seus livros, hei de curvar-me sempre perante a sua memória.


(ap)

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Não mexam com a dignidade dos professores!



As cambalhotas ou a teatralidade a que alguns partidos políticos, sob a poeira pré-eleitoral, sujeitaram a reivindicação dos professores (que insistem no descongelamento integral dos seus anos de carreira), vai sendo pretexto para mais um rol de comentários e críticas, por vezes humilhantes, a que algumas vozes querem sujeitar esta classe profissional. Lemos e ouvimos, num tom geralmente provocatório, acusar os professores de serem uma classe privilegiada, que ganha muito e trabalha pouco.

São, claramente, comentários e críticas de quem nada sabe sobre a rotina e o desgaste dos professores. De quem desconhece a práxis estranguladora de um professor que concentra em si um rosário infindável de funções e tarefas, trabalhando de dia e de noite, a lecionar turmas numerosas, a elaborar planos de aula, planos de recuperação de alunos e de registos regulares de evolução, a elaborar materiais pedagógicos, projetos de turma, testes de diagnóstico, informação para encarregados de educação, relatórios de tutorias, de projetos, clubes, aulas de apoio, reuniões e elaboração das respetivas atas com encarregados de educação, conselhos de turma, de diretores de turma, de departamento, conselhos pedagógicos… e por aí adiante.

E que dizer de um professor a ter ainda de gerir a terrível realidade de alunos que levam para a escola toda a espécie de dramas, uns mal nutridos, outros violentos, a polícia a ser chamada a todo o momento, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores…?

A escola é o berço da educação. Ver os professores a terem de vir para a praça pública gritar por dignidade é vergonhoso num país que se quer civilizado.

(ap)
in Jornal de Notícias, 22-5-2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Envelhecer de mão dada com um robô…


Já não há estudos académicos que nos possam surpreender. As sociedades desenvolvidas estão, de facto, a tornar-se sociedades envelhecidas. O aumento da esperança de vida em conjugação com a queda da natalidade apresenta-nos um cenário real, irrefutável, de envelhecimento da população. Em Portugal as projeções indicam que em 2060 existirão três idosos para apenas um jovem, numa esperança média de vida de 81 anos. Metade da população terá mais de 65. Este aumento exponencial da população idosa, acompanhado pela diminuição desmesurada da população jovem ativa (seja pela baixa natalidade, seja pela crescente emigração dos jovens face à escassez de oportunidades no seu país), leva, já hoje, a questionar sobre quem no futuro prestará os cuidados necessários aos idosos. Quem os acomodará na sua velhice, tal como eles o fizeram, antes, com os seus idosos? Haverá sequer mão-de-obra especializada suficiente?

Foi certamente com o desassossego posto nesta visão prospetiva dos idosos da sociedade do futuro que o jovem Leonel Crisóstomo, estudante da UTAD, deitou mãos à obra e, com o auxílio dos seus professores, desenvolveu uma aplicação informática que permite a um robô auxiliar os idosos em algumas das suas funções essenciais. Por exemplo, na toma correta da medicação. Os testes foram aplicados com sucesso em dois lares de Vila Real. O robô usa o seu sistema de locomoção para se movimentar até ao idoso e, através de visão por computador, deteta a embalagem de um medicamento e identifica a pessoa que o deve tomar no horário correto. Eficácia total.

A Dona Adelaide, muito lúcida nos seus 89 anos, primeiro olhou-o desconfiada (um “extraterrestre” aqui ao meu serviço?!). Depois, com um leve sorriso, acariciou-o numa cumplicidade afetuosa.

in Jornal de Notícias, 8-5-2019

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A violência de género no interior rural


Reza uma lenda transmontana que a Virgem apareceu a uma camponesa na ramagem de um pereiro, em Sta Comba de Rossas, a confortá-la por todos os dias apanhar uma grande sova do marido, aconselhando-a a ter paciência pois teria a “justa” compensação no Céu. Mais tarde ele morreu, ela professou e, após morrer… ficou santa.

Assim diz a lenda. E as lendas são isso mesmo. Uma espécie de foral que as civilizações antigas legam aos vindouros, com seus modelos de vida, virtude, crenças religiosas, instituindo prémios de resignação, vulgarmente inspirados nas compensações obtidas pelos mártires da Igreja tornados santos após a morte. No caso de Rossas, o modelo é claramente o da resignação perante a violência conjugal, como espelho do exemplo de resignação desses mártires, recompensados após a morte. Um modelo que resiste nas mentalidades mais tradicionais, onde o conforto da oração ainda é refúgio para sublimar as agruras, incluindo a da violência conjugal, que hoje a sociedade combate e criminaliza, muito por força dos media e da vigilância de organismos e instituições que nos soam familiares pelas suas siglas (APAV, AMCV, UMAR…).

Mas será que esta vigilância está, igualmente, ativa no interior rural, onde há cenários dissimulados de violência de género? Uma estudante da UTAD, no seu mestrado em Serviço Social, sobre a eficácia das redes de apoio às vítimas de violência conjugal, concluiu que as estruturas de atendimento especializado estão apenas nos centros urbanos e no litoral, condição que é entrave às mulheres dos meios rurais e no interior do país, pois sentem-se abandonadas e isoladas, e por isso a maior parte “sujeita-se a continuar as relações afetivas marcadas por atos violentos”. E bem se sabe como aí vingam ainda as primitivas sentenças “Quem dá o pão, dá o pau” ou “Entre marido e mulher não metas a colher”.
(ap)
in Jornal de Notícias, 24-04-2019

quarta-feira, 27 de março de 2019

Chorai, netinhos, chorai!

(foto de Antero Neto)

Hoje é a noite da “serrada da velha”. A tradição manda que aconteça, exatamente, na 4ª feira do meio da Quaresma. Hoje, portanto. “Chorai, netinhos, chorai!”… é como se entoa no ritual.

E quem é, afinal, esta “velha” (que traz consigo resquícios do culto pagão de esconjuro das trevas invernais, da esterilidade dos campos, almejando o rumo da luz esperançosa da primavera, o tempo da fecundação e procriação)?

Trata-se, na verdade, de uma figura simbólica, uma entidade mítica (tal como a do “arco da velha”, designação popular do “arco-íris”…), conotada com as agruras da fome, privações, jejuns, repreensões e penitências quaresmais. A “velha” é, pois, a Quaresma. Serrar a velha é serrar a Quaresma ao meio, em rituais protagonizados por adolescentes com atos de rebeldia contra os rigores e a censura impostos pela Quaresma. Atos de rebeldia que apenas recaem sobre as senhoras idosas quando se reconhece serem elas as guardiãs das mais respeitosas imposições dos bons costumes locais. 

Em Trás-os-Montes serra-se um “toro” à porta dessas senhoras, razão por que os respetivos versos têm o nome de “toradas”.

(ap)

domingo, 3 de março de 2019

O mito do Entrudo



As manifestações tradicionais de Carnaval, chamadas de Entrudo, mantêm a sua originalidade no nordeste transmontano, em especial com as figuras dos caretos de Podence, Ousilhão, Baçal, Varge, Vilas Boas e Salsas, que personificam seres sobrenaturais, herdeiros dos deuses diabólicos venerados na Roma antiga.

A fisionomia dos caretos, com suas máscaras demoníacas, impondo um misto de terror e diversão, apresenta evidentes semelhanças com as divindades das festas Lupercais romanas que eram celebradas nesta altura do ano, em honra do deus Pã, também conhecido por “Fauno Luperco”. Esta figura apresentava-se com aspeto diabolizado, cornadura de bode e corpo peludo, perseguindo as pessoas que fugiam aterrorizadas. Note-se que uma das funções dos caretos, em especial os de Podence, é também perseguir e chicotear as pessoas, incutindo-lhes medo, especialmente às raparigas. Ignotos nas suas máscaras de lata, chocalhos à cintura, fatos de franjas de cores garridas feitas de linho e lã, percorrem os cantos da aldeia, entram e saem pelas janelas das casas e alpendres, trepam aos telhados e arrastam para a rua as raparigas indefesas, sujeitando-as ao barulho das chocalhadas e ensaiando com elas rituais eróticos.

Estas e outras tradições transmontanas (os famosos “Julgamentos do Entrudo”) assumem-se assim como herança diluída dos velhos ritos romanos em honra do deus Pã, mas também do deus Saturno, o deus da agricultura. Nas celebrações a esta divindade, conhecidas como “Saturnálias”, era permitido que o poder dos senhores passasse provisoriamente para aqueles que faziam produzir os campos: os escravos. Era um tempo de inversão, prazer e exagero, em que estes passavam a ser livres, nas palavras e nas ações, podendo expor e ridicularizar publicamente os seus senhores

Entretanto, assistiu-se a uma implícita apropriação do mito por parte do cristianismo. Entrudo procede do latim “introitus”, que significa entrada. Entrada em quê? Na Quaresma. Tal justifica haver uma despedida ruidosa dos excessos e dos prazeres da carne (de onde veio a moderna designação de “Carnaval”), confirmando-se assim o apurado sentido cristão do Entrudo, ainda que o vejamos, como festa popular, inteiramente dominado por rituais pagãos.

AP
in Jornal de Notícias, 2-3-2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O mistério da morte Fernão de Magalhães



Tivemos ocasião de ouvir, em Sabrosa, dito por um dos maiores estudiosos mundiais da rota magalhânica: o historiador Juan Marchena Fernandez, catedrático de História Americana da Universidade de Sevilha.

Como pôde um capitão-navegador com a experiência de Magalhães desembarcar com um número escasso de marinheiros, expondo-se tão imprudentemente a ser morto por uma multidão de guerreiros filipinos?

Um mistério que está por desvendar. Mas o historiador avança com a teoria de que Magalhães levava a bordo um filho ilegítimo e que teria avançado imprudentemente para a morte para o salvar das mãos dos nativos.

Sempre a aprender.

(ap)

domingo, 25 de novembro de 2018

Nossa Senhora disse-lhe para ter paciência…


          
[Hoje, o Dia Internacional pela eliminação da Violência contra as Mulheres]

Um dos trabalhos etnográficos que trago em mãos levou-me, por estes dias, até à lenda de Nossa Senhora do Pereiro, em Santa Comba de Rossas, no concelho de Bragança. Já se sabe que respeito muito as lendas, não tanto pelo conteúdo (em alguns casos, preferia até nem o conhecer…), mas por achar nelas uma visão fundamentada da cosmogonia popular, e poder, por essa via, conhecer o pensamento ancestral do povo, percebendo também como, com o avançar dos tempos, esse pensamento evoluiu. Não temos, pois, que aceitar as suas verdades, basta que consigamos interpretar, ou decifrar, a sua dimensão simbólica. E assim perceber como as lendas marcam sempre um espaço residual, nebuloso e ambíguo, da realidade, acomodando-se nas frinchas e vazios de um conhecimento epistemológico mais estruturado.

Reza então essa lenda (e faço uso de uma versão que resgatei das memórias de uma idosa no lar de Santa Comba de Rossas) que a Virgem apareceu na ramagem de um pereiro (e daí o nome que tomou) a uma infeliz camponesa da aldeia, procurando confortá-la por todos os dias apanhar uma grande sova do marido. E diz também que, numa afirmação de solidariedade com o seu drama, a aconselhou a ter paciência com ele, o esposo. Mais tarde, o homem morreu, ela professou e quando também morreu… ficou santa.

Assim o diz a lenda. E as lendas são assim mesmo. Uma espécie de foral que as civilizações antigas legam às gerações vindouras, com os seus modelos de vida, de virtude, crenças religiosas, instituindo prémios de resignação, vulgarmente inspirados nas compensações obtidas pelos velhos mártires da Igreja tornados santos após a morte. No caso de Rossas, o modelo é claramente o da resignação perante a violência conjugal, como espelho do exemplo desses velhos mártires da Igreja, modelos de submissão, recompensados após a morte.

Uma mensagem que os tempos claramente corrigiram. Já nem as vozes mais autorizadas da Igreja a suportam. Mulher nenhuma merece conselhos desse teor. Aos sacanas que as maltratam, cadeia com eles. Ainda que alguns acenem com os cifrões e milhões em que se movem, nenhum pecúlio deverá servir de “gratificação” a uma mulher humilhada.

(ap)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Por causa deste monte de esterco, quiseram pôr-me em tribunal!


Quando, há mais de 30 anos, a autarquia de Vila Real estava em vias de autorizar a construção deste mamarracho, eu, então um jornalista principiante, escrevi contra. Achava absurdo, com tanto espaço para construir um hotel, logo se lembrarem de o fazer naquele sítio, destruindo a paisagem urbanística do parque da cidade.

Acusavam-me então de estar contra o progresso (!) de Vila Real. E zás!, toca de ameaçar com um processo em tribunal. Naquele tempo era assim. Quando queriam travar os avanços dos jornalistas ameaçavam-nos com o tribunal.

Hoje, mais de 30 anos passados sobre esta história, correm notícias de que alguém aceitou pagar dois milhões de euros por aquilo. Cá estamos, cepticamente (mas já sem ameaças de tribunal…), para ver o que vai sair dali.

Vila Real, cidade cultural, universitária, turística, não merece suportar mais tempo este monte de esterco!
(ap)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Em português nos (des)entendemos


Com a chegada dos emigrantes em férias, é animador assistir à revitalização dos territórios rurais, com as aldeias desertas que se repovoam e rejuvenescem ainda que por escassos dias, os roteiros das romarias, as horas de matar saudades do torrão natal e de familiares e amigos. Enfim, ano após ano, um quadro inalterável, revelador de um invicto sentimento pátrio.

Há, porém, uma outra realidade, perceptível neste quadro, que se afigura preocupante: a Língua Portuguesa está sendo afastada nos atos mais primários de comunicação no seio dos nossos emigrantes. Crianças, jovens e adultos eximem-se de falar entre si o português. Nas ruas, nas romarias, nas áreas comerciais, é corrente assistir a portugueses dialogando com outros portugueses em outras línguas que não o português!

Assobiar para o lado perante esta realidade é o que de pior se pode fazer. Ela traduz, claramente, um retrocesso nos efeitos das políticas do governo português nos países de acolhimento dos nossos emigrantes no que respeita à preservação e divulgação da Língua Portuguesa. Será que deixou de ser uma prioridade estratégica? Qual a eficácia das embaixadas, Conselhos das Comunidades Portuguesas, CPLP, Fundação Oriente, Instituto Camões? Que é feito daquelas iniciativas-piloto, em algumas comunidades lusófonas, que permitiam os encontros das crianças com autores portugueses, propiciando interesse, descoberta e motivação pelos sabores da nossa língua e da nossa cultura?

Enquanto isto, têm vindo a ser anunciados acordos com universidades de vários continentes para nelas ser introduzido o estudo da Língua Portuguesa, um propósito valioso de expansão lusófona que trouxe já a surpreendente notícia de que, até na própria China, já há 37 universidades onde se ensina o português.

Ensinar o português nas universidades não é bom, é óptimo. Mas… e as crianças? Vamos esperar que cresçam e, caso queiram, optem depois por aprender a falar português nas universidades?

Toda a língua materna, mais do que um veículo de comunicação, é um sistema organizado de pensamento. Por isso, que futuro pode ter o país, a sua cultura, a sua identidade, quando o seu povo deixar de pensar (e de amar) em português?

in Jornal de Notícias, 23-8-2018

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

João David Pinto Correia: a mágoa de ver partir o mestre



Portugal viu partir ontem, aos 79 anos, em Lisboa, vítima de AVC, o Professor Doutor João David Pinto Correia, notável escritor, poeta, ensaísta e académico. Reconhecido aquém e além-fronteiras, com obra científica proeminente no seu ramo do saber, João David destacou-se nos estudos de Literatura Oral Tradicional, com inúmeras obras publicadas, na continuação dos grandes especialistas como Viegas Guerreiro, Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso.

Natural do Funchal, esteve ligado à história da Universidade da Madeira, de cuja Comissão Instaladora foi presidente, embora a sua carreira académica decorresse na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se aposentou como professor associado. Aí dirigiu a Revista Lusitana – 2ª série e presidiu ao Centro de Tradições Populares Portuguesas Viegas Guerreiro.

Exerceu igualmente funções docentes na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no curso de mestrado em Literatura para a Infância.

Particularmente sentido com esta perda, vejo partir, para além de um grande amigo e companheiro, um dos grandes mestres que tive na minha formação académica e científica. Foi meu coorientador de Doutoramento (com o Prof. Fernando Moreira, do DLAC-UTAD), prefaciou o meu livro “O Maravilhoso Popular” e chamou-me para o acompanhar em inúmeras conferências.

Partilho a dor imensa com a sua esposa e filhas, solidário também com a legião de amigos, admiradores e ex-alunos que sempre o acompanharam.

(AP)

sábado, 28 de julho de 2018

Sem engenheiros florestais, que país queremos ter?



            Desgraçadamente, tornam-se sempre necessárias grandes tragédias para chamar a debate questões que a sociedade devia ter permanentemente na ordem do dia. Veja-se os problemas da floresta, os incêndios, o ordenamento do território. Pior que isso ainda é constatar que, passado o impacto das tragédias e o habitual período de nojo, a emoção dos afetos esmorece, dilui-se a pressão da emergência, e tudo volta a correr como se nada se passasse, com o silêncio a abrir portas (viu-se agora em Pedrógão Grande) a estranhos oportunismos.
            Mas não menos inquietante é a incapacidade, nesta aldeia global, de não colherem proveito, em outros países, as lições desafortunadamente aprendidas por nós. Assim se viu na tragédia dos incêndios da Grécia. O “local sem paredes” de Torga parece ter ficado pela emoção mediática que correu e avassalou à velocidade da luz. As grandes lições, os debates na comunidade científica, parece não terem ultrapassado essas paredes. Continuou a assistir-se aos efeitos da falta de ordenamento do território, a floresta a cavalgar para as zonas urbanas e estas para a floresta. Também a Proteção Civil podia ter corrigido falhas do passado em cenário trágico idêntico, apontadas em devido tempo por peritos portugueses, que, face à desorientação dos bombeiros, chegaram eles próprios a pegar em mangueiras.
            Mas por cá, outras desorientações nos inquietam. Soube-se por estes dias que o prazo de julho para apresentação do plano de reflorestação da Mata Nacional de Leiria destruída pelo fogo no ano passado não se cumpriu, sendo adiado para o próximo ano. Bem sabemos que para os planos de intervenção e gestão florestal são precisos engºs florestais. Mas onde estão eles, se o país está a formar menos de dez por ano? A UTAD oferece um curso de referência em Portugal e na Europa, mas as vagas de candidatos ficam, ano após ano, longe de encher. Se o Estado considera esta área de formação como estratégica, onde estão as medidas de incentivo? E bolsas de estudo para alunos mais carenciados que possam interessar-se pela Engª Florestal?
            Inquieta-nos a ideia de que, em breve, Portugal tenha de contratar engenheiros florestais no estrangeiro.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 28-7-2018

sábado, 21 de julho de 2018

O funeral do interior



            Na mesma altura em que o Governo, em mais uma das suas toadas esperançosas, anunciava um Conselho de Ministros Extraordinário para aprovar medidas de ordenamento e coesão territorial, escolhendo Pampilhosa da Serra como palco simbólico, para, desse jeito, reafirmar o propagandístico e ilusório emblema “todos somos interior”…, na mesma altura, dizia eu, tornava-se conhecida a decisão governamental de encerrar o Colégio Salesiano de Poiares, no distrito de Vila Real, uma instituição de referência no interior, considerada, há décadas, um dos seus pilares de formação cívica e cultural. São afetados 225 alunos, 25 funcionários e 21 professores, que asseguravam os 2º e 3º ciclos e cursos profissionais em regime de externato e internato. Era o principal motor social e económico de uma comunidade no coração do Douro Vinhateiro Património Mundial. Mais de metade dos alunos recebia apoio social escolar, pelo que, com o seu encerramento, quem perde são os mais pobres, sempre os mais pobres, deste interior já empobrecido.
            Como diria o outro: bem prega Frei Tomás! Que o mesmo é dizer: bem prega António Costa!
            O próprio bispo de Vila Real, D. Amândio Tomás, pessoa geralmente reservada e discreta, não conteve a revolta ao qualificar como “ditatorial e irresponsável” tal decisão, acusando o Estado de estar a preparar o “funeral do interior”. “Resta a submissão à decisão de não permitir outra alternativa ao que o Estado soberanamente decidir, ainda que se saiba que decide mal e, desgraçadamente, decida contra os pobres, porque são estes sempre a sofrer”, escreve o bispo na sua nota episcopal.
            Num cenário destes, com o país a ser gerido dos gabinetes de Lisboa, e a falarem do interior sempre com um hálito demagógico na boca, o que valem alertas como o do autarca de Vila Real, Rui Santos, ao lembrar que a população no litoral ultrapassa hoje os 52% enquanto no interior baixou 38%, com a agravante de que 82,4% dos jovens, com menos de 25 anos, vive também no litoral?

in Jornal de Notícias, 20-7-2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nadir humilhado


Vila Real devia orgulhar-se do privilégio de possuir um dos raros imóveis da arquitetura moderna que Nadir Afonso introduziu em Portugal na década de 60. Nadir Afonso (1920-2013), arquiteto, pintor e ensaísta, deixou em Portugal e no estrangeiro, nos vários domínios da arte e da estética, uma obra única, original e de dimensão universal.

Após um riquíssimo trajeto internacional, trabalhando com os mais influentes mestres do movimento moderno, Nadir projetou em Portugal algumas das obras mais emblemáticas que marcaram a história da arquitetura do séc. XX. E sendo transmontano, aceitou conceber também para Vila Real um singular edifício, conhecido como Panificadora PanReal, que continua a fazer parte da memória coletiva dos vila-realenses.

Vila Real devia orgulhar-se, de facto. Mas ainda que se orgulhe, debalde o faz, pois os decisores de Lisboa (sempre Lisboa!..) estão-se nas tintas para esse orgulho. Este edifício, ou o que dele resta, está hoje transformado numa autêntica…cloaca!


Situa-se nas imediações da UTAD. E foi a partir de docentes da universidade que um movimento de cidadãos, conscientes do valor simbólico do imóvel, lançou, há um ano, uma petição pública dirigida às instâncias governamentais e municipais a propor a sua classificação como imóvel de interesse público. O objetivo era travar a onda de vandalismo, bem como a sua presumida demolição a favor de uma superfície comercial, permitindo que Vila Real assegure a homenagem devida a Nadir Afonso, conservando o imóvel “como exemplo, não só, do génio de um grande artista e de um tipo de arquitetura de época, mas também como visão do espaço de trabalho de uma profissão [a panificação] que vai desaparecendo”. A própria Ordem dos Arquitetos e já antes Siza Vieira igualmente se manifestaram pela sua salvaguarda, reconhecendo-o como património com interesse arquitetónico que marca uma época.

O Ministério da Cultura, através da DGPC, acolheu a petição, e, há um ano, abriu o procedimento de classificação, para impedir – dizia –  “danos continuados do imóvel”. Porém, se a intenção era impedi-los, um ano bastou para que a destruição atingisse a vergonha que hoje se vê. Funcionou assim a lógica do facto consumado, tornando cada vez mais difícil justificar a classificação e a salvaguarda. E, na verdade, a resposta do Ministério veio, finalmente, em Diário da República arquivando o processo. Pergunta-se: ouviram quem? Os peticionários? A Ordem dos Arquitectos? Siza Vieira?

A memória de Nadir Afonso não merecia esta humilhação.

in Jornal de Notícias, de 7-7-2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um serão com as histórias da avó


Histórias do contrabando na fronteira, contos de bruxas e feiticeiras, lendas de mouras encantadas… vão preencher amanhã (15 de junho), em Vila Verde da Raia, no concelho de Chaves, “Um serão com as histórias da avó”. Trata-se do projeto “Viv@vó”, dinamizado pela Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo (ESACT) de Mirandela, um projeto que procura descobrir, no seio do povo, novas propostas para o turismo.

Em janeiro, aconteceu em casa da avó de Agrochão, Vinhais (Graça Afonso, na foto). Desta vez, a anfitriã é a avó Maria Lucinda Rosa, a contadora de histórias que vai receber os seus convidados com um jantar à base de milhos com carne de porco. E a reforçar a sobremesa… lá estarão as histórias: a verdadeira ciência do povo. Uma experiência única em Portugal.

Eu próprio, também convidado, não faltarei. Se não for pelos milhos…., há de ser pelas histórias.

(ap)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ensinar crianças e caçar?! Mas em que século estamos?



Hoje no jornal i. Que notícia fantástica! Depois, cá estou eu (e outros como eu) para chamá-las à razão. Ou (re)educá-las. Comigo saberão que a Natureza e os seres que nela habitam são um bem em risco. Saberão que matar todo o ser que vive, e fazê-lo por capricho, para saciar o apetite de aventura e desporto, já não é mais um ato de cultura, mas sim de selvageria. Saberão que, tal como o homem, os animais também sentem prazer, felicidade, dor, saudade e sofrimento.

E se alguma vez encontrar uma das crianças deste acampamento, hei de desafiá-la, quando pensar em matar um animal indefeso, a olhá-lo no fundo dos seus olhos antes de o abater, e, por um momento, imaginar-se a trocar de posição com ele.

(ap)