quarta-feira, 24 de abril de 2019

A violência de género no interior rural


Reza uma lenda transmontana que a Virgem apareceu a uma camponesa na ramagem de um pereiro, em Sta Comba de Rossas, a confortá-la por todos os dias apanhar uma grande sova do marido, aconselhando-a a ter paciência pois teria a “justa” compensação no Céu. Mais tarde ele morreu, ela professou e, após morrer… ficou santa.

Assim diz a lenda. E as lendas são isso mesmo. Uma espécie de foral que as civilizações antigas legam aos vindouros, com seus modelos de vida, virtude, crenças religiosas, instituindo prémios de resignação, vulgarmente inspirados nas compensações obtidas pelos mártires da Igreja tornados santos após a morte. No caso de Rossas, o modelo é claramente o da resignação perante a violência conjugal, como espelho do exemplo de resignação desses mártires, recompensados após a morte. Um modelo que resiste nas mentalidades mais tradicionais, onde o conforto da oração ainda é refúgio para sublimar as agruras, incluindo a da violência conjugal, que hoje a sociedade combate e criminaliza, muito por força dos media e da vigilância de organismos e instituições que nos soam familiares pelas suas siglas (APAV, AMCV, UMAR…).

Mas será que esta vigilância está, igualmente, ativa no interior rural, onde há cenários dissimulados de violência de género? Uma estudante da UTAD, no seu mestrado em Serviço Social, sobre a eficácia das redes de apoio às vítimas de violência conjugal, concluiu que as estruturas de atendimento especializado estão apenas nos centros urbanos e no litoral, condição que é entrave às mulheres dos meios rurais e no interior do país, pois sentem-se abandonadas e isoladas, e por isso a maior parte “sujeita-se a continuar as relações afetivas marcadas por atos violentos”. E bem se sabe como aí vingam ainda as primitivas sentenças “Quem dá o pão, dá o pau” ou “Entre marido e mulher não metas a colher”.
(ap)
in Jornal de Notícias, 24-04-2019

quarta-feira, 27 de março de 2019

Chorai, netinhos, chorai!

(foto de Antero Neto)

Hoje é a noite da “serrada da velha”. A tradição manda que aconteça, exatamente, na 4ª feira do meio da Quaresma. Hoje, portanto. “Chorai, netinhos, chorai!”… é como se entoa no ritual.

E quem é, afinal, esta “velha” (que traz consigo resquícios do culto pagão de esconjuro das trevas invernais, da esterilidade dos campos, almejando o rumo da luz esperançosa da primavera, o tempo da fecundação e procriação)?

Trata-se, na verdade, de uma figura simbólica, uma entidade mítica (tal como a do “arco da velha”, designação popular do “arco-íris”…), conotada com as agruras da fome, privações, jejuns, repreensões e penitências quaresmais. A “velha” é, pois, a Quaresma. Serrar a velha é serrar a Quaresma ao meio, em rituais protagonizados por adolescentes com atos de rebeldia contra os rigores e a censura impostos pela Quaresma. Atos de rebeldia que apenas recaem sobre as senhoras idosas quando se reconhece serem elas as guardiãs das mais respeitosas imposições dos bons costumes locais. 

Em Trás-os-Montes serra-se um “toro” à porta dessas senhoras, razão por que os respetivos versos têm o nome de “toradas”.

(ap)

domingo, 3 de março de 2019

O mito do Entrudo



As manifestações tradicionais de Carnaval, chamadas de Entrudo, mantêm a sua originalidade no nordeste transmontano, em especial com as figuras dos caretos de Podence, Ousilhão, Baçal, Varge, Vilas Boas e Salsas, que personificam seres sobrenaturais, herdeiros dos deuses diabólicos venerados na Roma antiga.

A fisionomia dos caretos, com suas máscaras demoníacas, impondo um misto de terror e diversão, apresenta evidentes semelhanças com as divindades das festas Lupercais romanas que eram celebradas nesta altura do ano, em honra do deus Pã, também conhecido por “Fauno Luperco”. Esta figura apresentava-se com aspeto diabolizado, cornadura de bode e corpo peludo, perseguindo as pessoas que fugiam aterrorizadas. Note-se que uma das funções dos caretos, em especial os de Podence, é também perseguir e chicotear as pessoas, incutindo-lhes medo, especialmente às raparigas. Ignotos nas suas máscaras de lata, chocalhos à cintura, fatos de franjas de cores garridas feitas de linho e lã, percorrem os cantos da aldeia, entram e saem pelas janelas das casas e alpendres, trepam aos telhados e arrastam para a rua as raparigas indefesas, sujeitando-as ao barulho das chocalhadas e ensaiando com elas rituais eróticos.

Estas e outras tradições transmontanas (os famosos “Julgamentos do Entrudo”) assumem-se assim como herança diluída dos velhos ritos romanos em honra do deus Pã, mas também do deus Saturno, o deus da agricultura. Nas celebrações a esta divindade, conhecidas como “Saturnálias”, era permitido que o poder dos senhores passasse provisoriamente para aqueles que faziam produzir os campos: os escravos. Era um tempo de inversão, prazer e exagero, em que estes passavam a ser livres, nas palavras e nas ações, podendo expor e ridicularizar publicamente os seus senhores

Entretanto, assistiu-se a uma implícita apropriação do mito por parte do cristianismo. Entrudo procede do latim “introitus”, que significa entrada. Entrada em quê? Na Quaresma. Tal justifica haver uma despedida ruidosa dos excessos e dos prazeres da carne (de onde veio a moderna designação de “Carnaval”), confirmando-se assim o apurado sentido cristão do Entrudo, ainda que o vejamos, como festa popular, inteiramente dominado por rituais pagãos.

AP
in Jornal de Notícias, 2-3-2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O mistério da morte Fernão de Magalhães



Tivemos ocasião de ouvir, em Sabrosa, dito por um dos maiores estudiosos mundiais da rota magalhânica: o historiador Juan Marchena Fernandez, catedrático de História Americana da Universidade de Sevilha.

Como pôde um capitão-navegador com a experiência de Magalhães desembarcar com um número escasso de marinheiros, expondo-se tão imprudentemente a ser morto por uma multidão de guerreiros filipinos?

Um mistério que está por desvendar. Mas o historiador avança com a teoria de que Magalhães levava a bordo um filho ilegítimo e que teria avançado imprudentemente para a morte para o salvar das mãos dos nativos.

Sempre a aprender.

(ap)

domingo, 25 de novembro de 2018

Nossa Senhora disse-lhe para ter paciência…


          
[Hoje, o Dia Internacional pela eliminação da Violência contra as Mulheres]

Um dos trabalhos etnográficos que trago em mãos levou-me, por estes dias, até à lenda de Nossa Senhora do Pereiro, em Santa Comba de Rossas, no concelho de Bragança. Já se sabe que respeito muito as lendas, não tanto pelo conteúdo (em alguns casos, preferia até nem o conhecer…), mas por achar nelas uma visão fundamentada da cosmogonia popular, e poder, por essa via, conhecer o pensamento ancestral do povo, percebendo também como, com o avançar dos tempos, esse pensamento evoluiu. Não temos, pois, que aceitar as suas verdades, basta que consigamos interpretar, ou decifrar, a sua dimensão simbólica. E assim perceber como as lendas marcam sempre um espaço residual, nebuloso e ambíguo, da realidade, acomodando-se nas frinchas e vazios de um conhecimento epistemológico mais estruturado.

Reza então essa lenda (e faço uso de uma versão que resgatei das memórias de uma idosa no lar de Santa Comba de Rossas) que a Virgem apareceu na ramagem de um pereiro (e daí o nome que tomou) a uma infeliz camponesa da aldeia, procurando confortá-la por todos os dias apanhar uma grande sova do marido. E diz também que, numa afirmação de solidariedade com o seu drama, a aconselhou a ter paciência com ele, o esposo. Mais tarde, o homem morreu, ela professou e quando também morreu… ficou santa.

Assim o diz a lenda. E as lendas são assim mesmo. Uma espécie de foral que as civilizações antigas legam às gerações vindouras, com os seus modelos de vida, de virtude, crenças religiosas, instituindo prémios de resignação, vulgarmente inspirados nas compensações obtidas pelos velhos mártires da Igreja tornados santos após a morte. No caso de Rossas, o modelo é claramente o da resignação perante a violência conjugal, como espelho do exemplo desses velhos mártires da Igreja, modelos de submissão, recompensados após a morte.

Uma mensagem que os tempos claramente corrigiram. Já nem as vozes mais autorizadas da Igreja a suportam. Mulher nenhuma merece conselhos desse teor. Aos sacanas que as maltratam, cadeia com eles. Ainda que alguns acenem com os cifrões e milhões em que se movem, nenhum pecúlio deverá servir de “gratificação” a uma mulher humilhada.

(ap)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Por causa deste monte de esterco, quiseram pôr-me em tribunal!


Quando, há mais de 30 anos, a autarquia de Vila Real estava em vias de autorizar a construção deste mamarracho, eu, então um jornalista principiante, escrevi contra. Achava absurdo, com tanto espaço para construir um hotel, logo se lembrarem de o fazer naquele sítio, destruindo a paisagem urbanística do parque da cidade.

Acusavam-me então de estar contra o progresso (!) de Vila Real. E zás!, toca de ameaçar com um processo em tribunal. Naquele tempo era assim. Quando queriam travar os avanços dos jornalistas ameaçavam-nos com o tribunal.

Hoje, mais de 30 anos passados sobre esta história, correm notícias de que alguém aceitou pagar dois milhões de euros por aquilo. Cá estamos, cepticamente (mas já sem ameaças de tribunal…), para ver o que vai sair dali.

Vila Real, cidade cultural, universitária, turística, não merece suportar mais tempo este monte de esterco!
(ap)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Em português nos (des)entendemos


Com a chegada dos emigrantes em férias, é animador assistir à revitalização dos territórios rurais, com as aldeias desertas que se repovoam e rejuvenescem ainda que por escassos dias, os roteiros das romarias, as horas de matar saudades do torrão natal e de familiares e amigos. Enfim, ano após ano, um quadro inalterável, revelador de um invicto sentimento pátrio.

Há, porém, uma outra realidade, perceptível neste quadro, que se afigura preocupante: a Língua Portuguesa está sendo afastada nos atos mais primários de comunicação no seio dos nossos emigrantes. Crianças, jovens e adultos eximem-se de falar entre si o português. Nas ruas, nas romarias, nas áreas comerciais, é corrente assistir a portugueses dialogando com outros portugueses em outras línguas que não o português!

Assobiar para o lado perante esta realidade é o que de pior se pode fazer. Ela traduz, claramente, um retrocesso nos efeitos das políticas do governo português nos países de acolhimento dos nossos emigrantes no que respeita à preservação e divulgação da Língua Portuguesa. Será que deixou de ser uma prioridade estratégica? Qual a eficácia das embaixadas, Conselhos das Comunidades Portuguesas, CPLP, Fundação Oriente, Instituto Camões? Que é feito daquelas iniciativas-piloto, em algumas comunidades lusófonas, que permitiam os encontros das crianças com autores portugueses, propiciando interesse, descoberta e motivação pelos sabores da nossa língua e da nossa cultura?

Enquanto isto, têm vindo a ser anunciados acordos com universidades de vários continentes para nelas ser introduzido o estudo da Língua Portuguesa, um propósito valioso de expansão lusófona que trouxe já a surpreendente notícia de que, até na própria China, já há 37 universidades onde se ensina o português.

Ensinar o português nas universidades não é bom, é óptimo. Mas… e as crianças? Vamos esperar que cresçam e, caso queiram, optem depois por aprender a falar português nas universidades?

Toda a língua materna, mais do que um veículo de comunicação, é um sistema organizado de pensamento. Por isso, que futuro pode ter o país, a sua cultura, a sua identidade, quando o seu povo deixar de pensar (e de amar) em português?

in Jornal de Notícias, 23-8-2018