segunda-feira, 20 de agosto de 2018

João David Pinto Correia: a mágoa de ver partir o mestre



Portugal viu partir ontem, aos 79 anos, em Lisboa, vítima de AVC, o Professor Doutor João David Pinto Correia, notável escritor, poeta, ensaísta e académico. Reconhecido aquém e além-fronteiras, com obra científica proeminente no seu ramo do saber, João David destacou-se nos estudos de Literatura Oral Tradicional, com inúmeras obras publicadas, na continuação dos grandes especialistas como Viegas Guerreiro, Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso.

Natural do Funchal, esteve ligado à história da Universidade da Madeira, de cuja Comissão Instaladora foi presidente, embora a sua carreira académica decorresse na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se aposentou como professor associado. Aí dirigiu a Revista Lusitana – 2ª série e presidiu ao Centro de Tradições Populares Portuguesas Viegas Guerreiro.

Exerceu igualmente funções docentes na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no curso de mestrado em Literatura para a Infância.

Particularmente sentido com esta perda, vejo partir, para além de um grande amigo e companheiro, um dos grandes mestres que tive na minha formação académica e científica. Foi meu coorientador de Doutoramento (com o Prof. Fernando Moreira, do DLAC-UTAD), prefaciou o meu livro “O Maravilhoso Popular” e chamou-me para o acompanhar em inúmeras conferências.

Partilho a dor imensa com a sua esposa e filhas, solidário também com a legião de amigos, admiradores e ex-alunos que sempre o acompanharam.

(AP)

sábado, 28 de julho de 2018

Sem engenheiros florestais, que país queremos ter?



            Desgraçadamente, tornam-se sempre necessárias grandes tragédias para chamar a debate questões que a sociedade devia ter permanentemente na ordem do dia. Veja-se os problemas da floresta, os incêndios, o ordenamento do território. Pior que isso ainda é constatar que, passado o impacto das tragédias e o habitual período de nojo, a emoção dos afetos esmorece, dilui-se a pressão da emergência, e tudo volta a correr como se nada se passasse, com o silêncio a abrir portas (viu-se agora em Pedrógão Grande) a estranhos oportunismos.
            Mas não menos inquietante é a incapacidade, nesta aldeia global, de não colherem proveito, em outros países, as lições desafortunadamente aprendidas por nós. Assim se viu na tragédia dos incêndios da Grécia. O “local sem paredes” de Torga parece ter ficado pela emoção mediática que correu e avassalou à velocidade da luz. As grandes lições, os debates na comunidade científica, parece não terem ultrapassado essas paredes. Continuou a assistir-se aos efeitos da falta de ordenamento do território, a floresta a cavalgar para as zonas urbanas e estas para a floresta. Também a Proteção Civil podia ter corrigido falhas do passado em cenário trágico idêntico, apontadas em devido tempo por peritos portugueses, que, face à desorientação dos bombeiros, chegaram eles próprios a pegar em mangueiras.
            Mas por cá, outras desorientações nos inquietam. Soube-se por estes dias que o prazo de julho para apresentação do plano de reflorestação da Mata Nacional de Leiria destruída pelo fogo no ano passado não se cumpriu, sendo adiado para o próximo ano. Bem sabemos que para os planos de intervenção e gestão florestal são precisos engºs florestais. Mas onde estão eles, se o país está a formar menos de dez por ano? A UTAD oferece um curso de referência em Portugal e na Europa, mas as vagas de candidatos ficam, ano após ano, longe de encher. Se o Estado considera esta área de formação como estratégica, onde estão as medidas de incentivo? E bolsas de estudo para alunos mais carenciados que possam interessar-se pela Engª Florestal?
            Inquieta-nos a ideia de que, em breve, Portugal tenha de contratar engenheiros florestais no estrangeiro.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 28-7-2018

sábado, 21 de julho de 2018

O funeral do interior



            Na mesma altura em que o Governo, em mais uma das suas toadas esperançosas, anunciava um Conselho de Ministros Extraordinário para aprovar medidas de ordenamento e coesão territorial, escolhendo Pampilhosa da Serra como palco simbólico, para, desse jeito, reafirmar o propagandístico e ilusório emblema “todos somos interior”…, na mesma altura, dizia eu, tornava-se conhecida a decisão governamental de encerrar o Colégio Salesiano de Poiares, no distrito de Vila Real, uma instituição de referência no interior, considerada, há décadas, um dos seus pilares de formação cívica e cultural. São afetados 225 alunos, 25 funcionários e 21 professores, que asseguravam os 2º e 3º ciclos e cursos profissionais em regime de externato e internato. Era o principal motor social e económico de uma comunidade no coração do Douro Vinhateiro Património Mundial. Mais de metade dos alunos recebia apoio social escolar, pelo que, com o seu encerramento, quem perde são os mais pobres, sempre os mais pobres, deste interior já empobrecido.
            Como diria o outro: bem prega Frei Tomás! Que o mesmo é dizer: bem prega António Costa!
            O próprio bispo de Vila Real, D. Amândio Tomás, pessoa geralmente reservada e discreta, não conteve a revolta ao qualificar como “ditatorial e irresponsável” tal decisão, acusando o Estado de estar a preparar o “funeral do interior”. “Resta a submissão à decisão de não permitir outra alternativa ao que o Estado soberanamente decidir, ainda que se saiba que decide mal e, desgraçadamente, decida contra os pobres, porque são estes sempre a sofrer”, escreve o bispo na sua nota episcopal.
            Num cenário destes, com o país a ser gerido dos gabinetes de Lisboa, e a falarem do interior sempre com um hálito demagógico na boca, o que valem alertas como o do autarca de Vila Real, Rui Santos, ao lembrar que a população no litoral ultrapassa hoje os 52% enquanto no interior baixou 38%, com a agravante de que 82,4% dos jovens, com menos de 25 anos, vive também no litoral?

in Jornal de Notícias, 20-7-2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nadir humilhado


Vila Real devia orgulhar-se do privilégio de possuir um dos raros imóveis da arquitetura moderna que Nadir Afonso introduziu em Portugal na década de 60. Nadir Afonso (1920-2013), arquiteto, pintor e ensaísta, deixou em Portugal e no estrangeiro, nos vários domínios da arte e da estética, uma obra única, original e de dimensão universal.

Após um riquíssimo trajeto internacional, trabalhando com os mais influentes mestres do movimento moderno, Nadir projetou em Portugal algumas das obras mais emblemáticas que marcaram a história da arquitetura do séc. XX. E sendo transmontano, aceitou conceber também para Vila Real um singular edifício, conhecido como Panificadora PanReal, que continua a fazer parte da memória coletiva dos vila-realenses.

Vila Real devia orgulhar-se, de facto. Mas ainda que se orgulhe, debalde o faz, pois os decisores de Lisboa (sempre Lisboa!..) estão-se nas tintas para esse orgulho. Este edifício, ou o que dele resta, está hoje transformado numa autêntica…cloaca!


Situa-se nas imediações da UTAD. E foi a partir de docentes da universidade que um movimento de cidadãos, conscientes do valor simbólico do imóvel, lançou, há um ano, uma petição pública dirigida às instâncias governamentais e municipais a propor a sua classificação como imóvel de interesse público. O objetivo era travar a onda de vandalismo, bem como a sua presumida demolição a favor de uma superfície comercial, permitindo que Vila Real assegure a homenagem devida a Nadir Afonso, conservando o imóvel “como exemplo, não só, do génio de um grande artista e de um tipo de arquitetura de época, mas também como visão do espaço de trabalho de uma profissão [a panificação] que vai desaparecendo”. A própria Ordem dos Arquitetos e já antes Siza Vieira igualmente se manifestaram pela sua salvaguarda, reconhecendo-o como património com interesse arquitetónico que marca uma época.

O Ministério da Cultura, através da DGPC, acolheu a petição, e, há um ano, abriu o procedimento de classificação, para impedir – dizia –  “danos continuados do imóvel”. Porém, se a intenção era impedi-los, um ano bastou para que a destruição atingisse a vergonha que hoje se vê. Funcionou assim a lógica do facto consumado, tornando cada vez mais difícil justificar a classificação e a salvaguarda. E, na verdade, a resposta do Ministério veio, finalmente, em Diário da República arquivando o processo. Pergunta-se: ouviram quem? Os peticionários? A Ordem dos Arquitectos? Siza Vieira?

A memória de Nadir Afonso não merecia esta humilhação.

in Jornal de Notícias, de 7-7-2018

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um serão com as histórias da avó


Histórias do contrabando na fronteira, contos de bruxas e feiticeiras, lendas de mouras encantadas… vão preencher amanhã (15 de junho), em Vila Verde da Raia, no concelho de Chaves, “Um serão com as histórias da avó”. Trata-se do projeto “Viv@vó”, dinamizado pela Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo (ESACT) de Mirandela, um projeto que procura descobrir, no seio do povo, novas propostas para o turismo.

Em janeiro, aconteceu em casa da avó de Agrochão, Vinhais (Graça Afonso, na foto). Desta vez, a anfitriã é a avó Maria Lucinda Rosa, a contadora de histórias que vai receber os seus convidados com um jantar à base de milhos com carne de porco. E a reforçar a sobremesa… lá estarão as histórias: a verdadeira ciência do povo. Uma experiência única em Portugal.

Eu próprio, também convidado, não faltarei. Se não for pelos milhos…., há de ser pelas histórias.

(ap)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ensinar crianças e caçar?! Mas em que século estamos?



Hoje no jornal i. Que notícia fantástica! Depois, cá estou eu (e outros como eu) para chamá-las à razão. Ou (re)educá-las. Comigo saberão que a Natureza e os seres que nela habitam são um bem em risco. Saberão que matar todo o ser que vive, e fazê-lo por capricho, para saciar o apetite de aventura e desporto, já não é mais um ato de cultura, mas sim de selvageria. Saberão que, tal como o homem, os animais também sentem prazer, felicidade, dor, saudade e sofrimento.

E se alguma vez encontrar uma das crianças deste acampamento, hei de desafiá-la, quando pensar em matar um animal indefeso, a olhá-lo no fundo dos seus olhos antes de o abater, e, por um momento, imaginar-se a trocar de posição com ele.

(ap)

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Este Douro, Património Mundial da UNESCO… é só para inglês ver?


Uma boa parte desta paisagem, que a UNESCO tem classificada como Património Mundial, e que gera muitos milhões de lucros com o turismo, foi fustigada nos últimos dias por violentas trovoadas de chuva e granizo que destruíram vinhas, provocaram derrocadas de muros e movimentos de terras, sofrendo em especial os concelhos de Sabrosa e de Alijó, nos seus territórios mais próximos do rio Douro.

Nas suas vinhas, os agricultores deparam-se com as folhas esfarrapadas, galhos quebrados e bagos no chão, muros caídos e deslizamentos de terras. Ficaram feridas as vinhas, mas feridas maiores ficaram no ânimo dos agricultores, que vão agora ter de correr ceca e meca para tentarem assegurar os meios possíveis de subsistência.

É que, às vezes, tem-se a sensação de que o Douro é só esta paisagem, protegida pela UNESCO, que deslumbra os olhares para lisonja e delícia de quem o visita, esquecendo-se que, por detrás de cada cepa e de cada pedra, há rostos de gente que ainda sofre para sobreviver.

(ap)