quarta-feira, 30 de maio de 2018

Este Douro, Património Mundial da UNESCO… é só para inglês ver?


Uma boa parte desta paisagem, que a UNESCO tem classificada como Património Mundial, e que gera muitos milhões de lucros com o turismo, foi fustigada nos últimos dias por violentas trovoadas de chuva e granizo que destruíram vinhas, provocaram derrocadas de muros e movimentos de terras, sofrendo em especial os concelhos de Sabrosa e de Alijó, nos seus territórios mais próximos do rio Douro.

Nas suas vinhas, os agricultores deparam-se com as folhas esfarrapadas, galhos quebrados e bagos no chão, muros caídos e deslizamentos de terras. Ficaram feridas as vinhas, mas feridas maiores ficaram no ânimo dos agricultores, que vão agora ter de correr ceca e meca para tentarem assegurar os meios possíveis de subsistência.

É que, às vezes, tem-se a sensação de que o Douro é só esta paisagem, protegida pela UNESCO, que deslumbra os olhares para lisonja e delícia de quem o visita, esquecendo-se que, por detrás de cada cepa e de cada pedra, há rostos de gente que ainda sofre para sobreviver.

(ap)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Começa hoje o IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro



Decorre no Pavilhão do Conhecimento do Parque das Nações, em Lisboa. Serão três dias para reafirmar a identidade da Pátria Transmontana. Onde ser transmontano, mais do que um mero registo de naturalidade, é uma devota e orgulhosa vocação.

Não estarei lá fisicamente, com muita pena. Especialmente na apresentação, hoje, às 19h, da «Antologia de Autores Transmontanos, Durienses e da Beira Transmontana», coordenada pelo escritor e académico Armando Palavras, que teve a gentileza de me incluir com 5 poemas.

(ap)

terça-feira, 22 de maio de 2018

De novo os ridículos “olharapos” da Expo…


Iniciam-se hoje as celebrações dos 20 anos da abertura da Expo 98. E, ao que consta, prometem voltar com aqueles ridículos “olharapos”, inventados por “cérebros” ignorantes que me fizeram lembrar os miúdos da escola primária a divertirem-se com os desenhinhos de monstros que a imaginação inocente produz.

Se fosse gente culta saberia que o olharapo é uma criatura da mitologia popular portuguesa, um gigante que se caracteriza por ter um só olho na testa. Daí o nome. O lendário tradicional refere-os nas regiões do norte de Portugal e da Galiza (em Vinhais é o “olhapim” e diz o povo “na terra do olhapim, quem tem dois olhos é rei”). Bastaria terem lido o mestre Leite de Vasconcelos ou o Abade de Baçal. Ou até a wikipedia.

(ap)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Foge cão, que te fazem barão!



Vai chegar-se a um ponto em que já ninguém aceita ir para Diretor-Geral das Artes. Todos os anos, quando se trata de distribuir os subsídios pelas companhias de teatro e outros organismos ligados à arte, esta Direção-Geral fica logo debaixo de fogo, pois ninguém pode agradar a todos. Nem Jesus Cristo o conseguiu.

E para não variar, leio hoje a notícia que já esperava: a Diretora-Geral das Artes, Paula Varanda, acaba de ser demitida pelo Ministro da Cultura.

Recorde-se que, há pouco mais de um ano, fora também demitido o anterior Diretor-Geral, Carlos Moura Carvalho, ficando aquele lugar vazio pois a Sub-Diretora-Geral, Joana Fins da Silva, pedira ela própria a exoneração pouco antes.

Em grande vespeiro se está a transformar esta Direção-Geral!

Mas há que perguntar também: qual a eficácia, afinal, dos concursos públicos para Dirigentes Superiores liderados pela CReSAP? Alguém levará ainda a sério essa tal CReSAP? Se isto assim continua, quem é que, num dia destes, aceita ser dirigente de alguma coisa em Portugal?

Como dizia o povo antigo: Foge cão, que te fazem barão! Mas para onde se me fazem visconde?

(ap)

domingo, 22 de abril de 2018

Valia milhões, mas a Pátria só lhe pagou 15 tostões




Decorre(u) por estes dias a evocação do centenário da célebre Batalha de La Lys, onde um jovem soldado transmontano, esguio e pequeno de corpo, deu mostras de uma heroicidade que o mundo inteiro reconheceu e louvou. A sua Pátria, porém, tarda em fazer-lhe justiça. De nome Aníbal Milhais, o seu apelido e o feito que praticou levaram à criação da alcunha “Soldado Milhões”, que o viria a acompanhar a vida toda.


As forças aliadas, onde tinham lugar as tropas portuguesas, haviam sido fortemente destroçadas, com muitos milhares de mortos. E no momento em que várias dezenas de militares, muitos deles feridos, batiam em retirada perante a perseguição do exército inimigo, o jovem Aníbal ficou (negligentemente ou não) sozinho para trás e viu-se perdido, escondido numa trincheira, tendo com ele apenas uma metralhadora Lotz e uma grande quantidade de munições.

Com uma só saída, entre deixar-se abater, entregar-se ao inimigo ou enfrentá-lo, optou pela última, conseguindo “varrer” uma coluna inteira de alemães que iam em motocicletas na perseguição dos aliados. Após tal ato, prudente ou não, caiu-lhe em cima uma outra coluna de alemães que vinha em socorro dos companheiros atacados pela metralhadora entrincheirada. Estes, que em princípio contavam que na trincheira se encontrasse uma quantidade vasta de soldados adversários, ficaram estupefactos quando de lá lhes saiu um único homem, um pequeno e esguio “Rambo”, com uma só metralhadora, agora recarregada de munições, a lutar perdidamente pela própria vida. A surpresa daqueles e o arrojo deste (assente na convicção de que nada tinha já a perder) foram determinantes para o resultado da façanha. Muitos alemães tombaram na sua frente e os outros fugiram.

O Milhões viria a ser depois socorrido nos seus ferimentos por um médico escocês que relatou a odisseia aos seus superiores, e, a partir daí, a lenda correu mundo. Na memória oral transmontana andou uma quadra popular que dizia: “Lá vem o grande Milhões / Só por milagre está vivo / Pois matou mais alemães / Do que os buracos dum crivo”.

Acabada a Guerra, o Soldado Milhões voltou à sua pobreza, à sensaboria da terra natal, onde viria a ter de sustentar, no árduo labor do campo, um outro “exército” – esse formado pelos seus oito filhos. Uma neta do herói contou entretanto a um jornal que o avô apenas recebeu da Pátria, após a Guerra, uma tença de 15 tostões.

(ap)

domingo, 1 de abril de 2018

«Dia 1 de abril, vai o parvo aonde não deve ir»


Por estas bandas também se diz: «dia 1 de abril, vai o burro aonde não deve ir». Burro ou parvo… para o caso tanto faz. O rifão tem origem num antigo ritual de iniciação dos rapazes, de que muitos transmontanos ainda se lembram, e que é conhecido como a “caça das alpabardas” ou “alcaparras”.

No nordeste transmontano é o “biobardo”, e obriga-se o incauto a estar com um saco aberto de noite à espera do “biobardo” e a recitar:

«Biobardo, vem-te ao fardo, que eu parvo por ti aguardo”.

Alguns desgraçados passavam lá a noite inteira do 1 de abril.

(ap)

terça-feira, 27 de março de 2018

Parabéns aos que lutam pelo Teatro no interior!



Hoje, Dia Mundial do Teatro, trago aqui uma palavra de estímulo e conforto aos que lutam pelo Teatro no interior do país. Verdadeiros heróis da cultura! Assim é a companhia de Teatro Filandorra, sedeada em Vila Real mas de olhos voltados para a região, para o país, para o mundo.
Há mais de 30 anos com um percurso louvável, a formar públicos no interior, contra ventos e marés, leva o teatro às escolas, jardins de infância, lares de idosos, terreiros das aldeias, igrejas e mosteiros, cine-teatros. Chama as crianças e os jovens para o mundo mágico dos livros, põe as populações dos meios rurais a interagir com obras e autores emblemáticos como Raul Brandão, Tcheckov, Lorca, Molière, Torga, Garrett, Gil Vicente, Goldoni, Brecht, José Luís Peixoto, Saramago, Shakespeare.
E também o meu reconhecimento muito especial pela forma respeitosa e inovadora com que tem trabalhado alguns dos meus livros.

(ap)

sexta-feira, 23 de março de 2018

A propósito do “engaço”




O que sempre me irritou em Passos Coelho, que se afirmava transmontano, foi o fazer-me estar sempre a lembrar aquela criada de Carrazeda de Ansiães que, no espaço de poucos meses em que foi servir para a cidade, logo esqueceu o “engaço” (“e eu sei lá o que isso é!”, dizia ela quando lho perguntaram os vizinhos que carregavam um carro de estrume).

Na verdade, não o vi, enquanto primeiro-ministro, chamar para a sua equipa governativa qualquer transmontano e, desse jeito, dar um sinal de que iria fazer algo pela região, pelo interior sempre tão esquecido. Um dos seus secretários de estado não teve pejo sequer em dizer que o IP4 entre Vila Real e Bragança iria ter de pagar portagens (!).

Vejo agora o seu sucessor, que não é transmontano (nem do interior, que eu saiba), a dar um sinal diferente, rodeando-se, não de um 1, mas de 2 transmontanos, nos cargos mais importantes do seu partido: José Silvano, vila-realense, secretário-geral do PSD; e Adão Silva, macedense, vice-presidente do seu Grupo Parlamentar. O primeiro, meu companheiro do liceu, e ambos meus amigos de muitos anos, mas, sobretudo, grandes defensores da nossa região, grandes combatentes pelo interior contra a desertificação. Desejo a ambos os maiores sucessos nessa missão.

(ap)

quinta-feira, 15 de março de 2018

Padre Linda

(foto: Notícias de Vila Real)

É com muita alegria que acabo de ler que o Padre Linda é o novo Bispo do Porto! 

Um bom amigo, meu colega no velho Liceu de Vila Real, onde ambos lecionámos nos anos 80. Era também reitor do Seminário, muito jovem ainda. Notável pensador, autor de “Quero acordar a aurora!”, com reflexões profundas sobre as questões da fé, da política, da cultura e da família na contemporaneidade. Tive alunos seminaristas, adolescentes, que me diziam que queriam ser padres porque queriam ser como o Padre Linda. Tal o fascínio que exercia sobre os jovens!

O Vaticano dificilmente podia ter escolhido melhor para a Dioceso do Porto. Digo eu. Que tenha muito sucesso!

(ap)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Aí estão os rankings… que valem coisa nenhuma


De novo estão aí os rankings das escolas. Para encher páginas de jornais e espaços televisivos. E nada mais. Porque, em boa verdade, está-se a falar daquilo que toda a gente já sabe. Está-se a explorar o óbvio. E explorar o óbvio mais não é que uma forma ridícula de legitimar a imbecilidade.

Conheço bem, e por dentro, as duas realidades. E se na avaliação para os rankings não é levada em conta a realidade das dezenas e dezenas de escolas públicas deste país sobrecarregadas de problemas (alunos que transportam para lá toda a espécie de dramas, alguns mal nutridos, outros violentos, a polícia a ser chamada a todo o momento, famílias a viver na miséria, desestruturadas, pais desempregados ou a sobreviver com o rendimento mínimo, outros nas cadeias, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores, negócios de droga nas imediações, recreios que mais parecem presídios, outros transformados em infernos de selvajaria, uma classe docente de idade avançada…), então as regras do jogo estão viciadas.

Se ao menos estes rankings servissem para mudar alguma coisa no que toca às escolas públicas, vá que não vá. Mas, infelizmente, não servem para nada.



sábado, 13 de janeiro de 2018

Avós que contam histórias


Uma nova descoberta para o turismo. O projeto Viv@vó, que nasceu no IPB, mais propriamente na Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela, foi apresentado ao país na RTP-1, na quinta-feira, com reposição hoje (sábado).

As avós (Maria da Graça Afonso, de Agrochão, Vinhais, e Maria Lucinda Rosa, de Vila Verde da Raia, Chaves) vão dar corpo à experiência-piloto. Abrem as portas do seu lar e da sua aldeia, apresentando-a aos turistas, que experimentarão sabores da gastronomia e doçaria local, enquanto ouvem histórias antigas, lendas da aldeia, cancioneiros e romanceiros.

Uma experiência, única em Portugal, que promete.


A arte de deslumbrar as novas gerações…


Estas quatro jovens (Marta, Sónia, Cristiana e Susana), alunas da licenciatura em Ciências da Comunicação da UTAD, e (quem sabe?) futuras jornalistas, apresentaram hoje, orgulhosamente, um interessante trabalho académico de final de semestre, sobre a história de vida de Barroso da Fonte, decano do jornalismo em Portugal.

Absolutamente seduzidas pelo seu percurso, qualidade profissional, verticalidade, arroubo intelectual e ilimitada jovialidade, trouxeram dele uma grande lição: nada se consegue sem trabalho, sem estudo, dedicação, disciplina, respeito pelos valores matriciais e sobretudo humildade respeitosa perante quem nos pode transmitir os saberes que acumulou numa exemplar experiência de vida.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Manifestação de “desinteresse”


Recebi nesta quadra, provenientes de pessoas e instituições portuguesas, um número considerável de mensagens natalícias em língua inglesa. Não respondi a nenhuma delas, ao invés do que geralmente faço quando recebo os habituais votos simpáticos de Boas Festas.

E não respondi porque acho reprovável que, num momento tão maternal e identitário, haja portugueses que optem por comunicar com outros portugueses em inglês. Revelam preconceito em relação à nossa Língua-Mãe, a Língua Portuguesa.

E se já me inquietava saber que há portugueses (?) que têm preconceito em afirmar o português no universo de outras línguas, muito mais me inquieta perceber que há quem tenha preconceito em usar o português quando fala com outros portugueses.

Estando, pois, a aproximar-se o Ano Novo, manifesto desde já absoluto desinteresse em receber mensagens de pessoas ou instituições portuguesas que não se expressem na nossa Língua-Mãe. A língua em que aprendemos a amar e a pensar. A língua de Florbela, de Pessoa, de Camões… O nosso Património pátrio mais precioso.

ap

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A metáfora da escola num livro de Literatura Infantil


Tive o grato prazer de apresentar, ontem à noite, o livro da escritora Assunção Anes Morais «A Abelhinha Mariana», uma história de afetos sobre a relação de uma abelhinha rebelde com a sua abelha-mestra. O Grémio Literário Vila-realense estava repleto de público. A grande maioria eram professores, como a autora. E bem se justificava que o fossem.
A história do livro, como tive ocasião de dizer, é a metáfora do próprio sistema escolar. A colmeia é a escola, as abelhinhas os alunos, a abelha-mestra o professor. Os alunos, tal como a abelhinha Mariana, às vezes travessos, cabeças do ar, são chamados à razão pelo professor que os incentiva ao trabalho diário, ao trabalho coletivo, procurando transformá-los em alunos responsáveis e cumpridores,
Afinal, tal como a abelha-mestra da história, o professor tem sempre a palavra certa, no momento certo, para ajudar os alunos a superar os fracassos e as desilusões.
Parece incrível como ainda há quem menospreze esta nobre missão dos professores!

(ap)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Geração sem memória é geração oca


Assinala-se este mês mais um ano da navegabilidade do Douro. Foi em finais de outubro de 1990, que uma embarcação turística, com 170 pessoas a bordo, subiu pela primeira vez o rio, desde o Porto até a Barca D'Alva. De então para cá, revolucionou-se o turismo de uma região e de um país. Centenas de milhares de turistas de todo o mundo, cruzeiros de luxo, milhões e milhões de euros… fluem anualmente pelas águas do Douro.

Mas será que todos os que hoje usufruem deste filão milionário saberão que a luta para tornar o Douro navegável em toda a extensão (210 quilómetros) foi dura e longa? Uma luta de David contra Golias (o Douro contra Lisboa) que começou em 1965? De início, procurava-se escoar pela via fluvial os produtos do Cachão, o ferro de Moncorvo e outras riquezas naturais, num tempo em que a instalação da indústria siderúrgica e a extração mineira (volframite, hematite, cassiterite, cromite, arsénio, manganez, antimónio, ouro, prata…), abriam horizontes novos à economia da região.

A navegabilidade impunha-se, pois, como solução. Contudo, o Douro continuava o rio de mau navegar. A memória dos naufrágios e lutos nas povoações ribeirinhas e as ermidas nas margens a recordar as tragédias dos velhinhos rabelos, continuavam a lembrar os perigos seculares do rio. A remoção de obstáculos à passagem de embarcações de grande porte, assim como a construção de eclusas nas barragens, eram investimentos necessários, aos quais Lisboa virava costas. Lisboa era a capital, o resto paisagem. A luta iria, pois, ser longa e difícil. Faltavam “guerreiros” que afrontassem o regime. Afrontou-o um velho jornalista, Rogério Reis, hoje votado ao mais injusto silêncio. Alimentou durante anos uma campanha ininterrupta em prol da navegabilidade, escreveu um livro sobre o tema, fez centenas de reportagens e editoriais, conferências e ousadas interpelações a governantes (ainda o conheci nessa luta) antes e depois do 25 de abril. A batalha foi ganha, está bem de ver. Mas já não para os grandes objetivos originais (esses perderam-se), e sim para abrir passagem aos luxuosos cruzeiros.

Rogério Reis morreu invisual, num bairro social de Vila Real sem nunca ter entrado num desses cruzeiros que hoje drenam milhões Douro acima e Douro abaixo. Será que alguma vez, ao celebrar-se mais um aniversário da navegabilidade, se lembrarão dele, evocando a sua memória? Uma geração que se habitua a apagar a memória, ainda que hoje lhe corram os milhões pelas mãos, um dia acabará oca, ou, pior ainda, seca como palhas alhas.

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 27-10-2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O triunfo do anti-herói


Ao teorizar sobre o inconsciente, há quase um século atrás, Sigmund Freud revolucionou a psicanálise conseguindo interpretar o lado mais irracional e profundo da natureza humana como esse lado oculto que afeta os comportamentos que o indivíduo geralmente recusa aceitar numa dimensão consciente. Se nos transportarmos para o tempo em que assim teorizou, fácil é perceber como já então se profetizava o triunfo de algumas das irracionalidades da primeira metade do século XX, a começar pelo nazismo. Indivíduos que conscientemente não são racistas nem xenófobos, inconscientemente são-no.

Abre-se, pois, nesta dualidade (consciente vs. inconsciente), um caminho fácil ao triunfo dos contrários. E essa exploração dos contrários (que já outros psicanalistas, como Carl Jung, avaliaram num confronto de opostos que procura sublimar a identidade do “eu” num cenário de menosprezo e humilhação do “outro”) continua sendo, ainda hoje, uma estratégia recorrente para atingir e despertar públicos habitualmente indiferentes ou apáticos, e assim confirmar a eficácia desse tal modelo hipodérmico de comunicação preceituado por Lasswell.

Esta constatação não deixa de colocar-nos também perante uma clara problematização de tudo aquilo que se inscreve nos padrões da norma, do convencional, dos valores morais consolidados, em favor de um oculto-subversivo, misterioso, marginal, grotesco até. Ou seja, a sociedade é impelida a admitir uma clara hegemonização de “mitos triviais”, supérfluos, provocadores, o que, inevitavelmente, irá impor também uma revisão do próprio conceito de “herói”.

Na verdade, o herói começa hoje a “medir-se” mais pela capacidade de contrariar o convencional (por exemplo, assumindo a ousadia de um coito em direto na tv…), do que pela capacidade de distinguir-se no quadro daquilo que é convencional. Hoje é mais estimulante assaltar o castelo do que defendê-lo. E esta constatação, se, por um lado, traduz uma rotura com valores do passado (em que os heróis eram aplaudidos pela forma como o defendiam), por outro, não deixará de implicar o risco de estarmos a construir modelos éticos duvidosos e problemáticos para as novas gerações.

Ocorre-me esta breve reflexão apenas e só por ter visto quase 70% da população avaliada em recentes sondagens, aderir positivamente aos discursos racistas e xenófobos de um conhecido candidato às próximas eleições autárquicas. 

AP
in Jornal de Notícias, de 11-9-2017


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A memória dos homens (de alguns) é curta!


Li na imprensa que o Colégio da Boavista, de Vila Real, celebrou há poucos dias o seu 90º aniversário.

Pergunto eu: será que ocorreu aos organizadores um momento de homenagem a este homem aqui na foto (António Alves Miranda, falecido em 2013)?

Foi ele quem salvou o colégio da falência nos anos 70. Reergueu-o do zero, quando todos o abandonaram em vista da falta de lucros.

É bom não esquecer que nesses anos, quando muitos homens e mulheres emigravam para equilibrarem as suas vidas, os filhos ficavam, confiadamente, aos cuidados deste Colégio como internos. Porém o dinheiro era escasso. Não chegava para alimentar tantas bocas e pagar a professores. Esteve, pois, para fechar portas, não fora o sentido cristão, altruísta e generoso do seu dedicado tesoureiro, que, receando pelo futuro de tantos adolescentes, desamparados e sem as famílias perto, assumiu ele próprio as funções de professor, contínuo e administrador… sem ganhar um tostão! Visitou um a um todos os credores, assumiu com eles compromissos pessoais, pediu todos os auxílios possíveis à comunidade local, e só assim conseguiu reerguer das ruínas a instituição.

Hoje, de facto, o Colégio da Boavista é uma referência no ensino em Portugal. Mas reconhecê-lo é tão importante como saber honrar a memória dos Homens (com H grande) que construíram o caminho. Aqui deixo a lembrança, porque a memória de alguns é curta! Muito curta!

(ap)


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O interior mais-que-profundo do prof. Marcelo


Ainda e só professor, mas já sob a áurea ternurenta dos afetos, Marcelo Rebelo de Sousa, numa passagem pelo nordeste transmontano, improvisou uma espécie de aula de geografia para tentar, à sua maneira, localizar Trás-os-Montes no mapa. «O país – diria então –, está dividido entre a Área Metropolitana de Lisboa e o resto. Depois, entre as outras áreas metropolitanas e o resto. Depois, entre todo o litoral e o resto. Depois, há dentro do interior o interior intermédio e o interior profundo. Dentro do interior profundo há o interior mais profundo. E é no interior mais profundo do interior profundo que encontramos Trás-os-Montes (sic)»

Para um candidato que se anunciava já com fortes probabilidades de chegar a Belém, esta singular lição de geografia mostrava-se, no mínimo, bastante auspiciosa para os anseios de uma região desfavorecida, que, vendo sucessivamente adiada a tão prometida dinâmica de discriminação positiva, pudesse ver agora vingar uma outra dinâmica, essa tal dos afetos, que o Presidente viria a implementar, procurando envolver toda a governação num olhar mais fraterno e atencioso para com o interior.

Porém, tal assim não é. Os sinais vão em sentido contrário. A Unidade de Missão para a Valorização do Interior, grande aposta do atual governo, foi um falhanço absoluto. Nada conseguiu que se visse, acabando por demitir-se a sua titular num assumido quadro de frustração e desencanto em relação às expectativas que abraçou, especialmente na implementação de medidas concretas para ajudar a travar o despovoamento do interior e o desordenamento do território. Continuamos assim a ver acentuar-se a desertificação, com este interior a ficar exclusivamente para os idosos, e a serem sugadas as novas gerações para o litoral e grandes centros, ou então sacudidas para fora do país.

E já não há mais afetos que nos valham quando vemos, como foi ultimamente divulgado e denunciado, serem chumbadas pelo governo todas as candidaturas de Trás-os-Montes à atribuição dos fundos europeus do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020) para melhorar a nossa floresta. Ou seja, os fundos europeus, previstos para corrigir o desequilíbrio territorial, estão a colocar Trás-os-Montes fora do mapa. Tamanho paradoxo este!

Trás-os-Montes, afinal, continua ainda longe, recebendo, como sempre recebeu, boas palavras em vez de ajudas. Que adianta, como diria Rentes de Carvalho, termos o Túnel do Marão se, no fim, quando o atravessamos não são luzes o que vemos, mas sombras?

in JORNAL DE NOTÍCIAS, 4-9-2017


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Para uma nova teoria do Inferno



O Inferno, por via dos catecismos e a complacência das velhas e engenhosas pedagogias, foi construído na mente de cada um de nós como esse tenebroso caldeirão cremador que nos esperará no “além”, caso os nossos passos, por cá, sigam arredios das convenções divinas. Desse jeito, numa permanente inquietação perante o mistério da morte, tudo seria visto mais ou menos assim: a alma dos que morrem arredios dessas “convenções”, terá, na melhor das hipóteses, um lugar no Purgatório (lugar transitório a que escapará após um período de purgação das suas faltas e com o contributo dos apelos e esmolas de quem por ela interceda do lado de cá…), e, na pior, terá à espera esse tal caldeirão de onde não haverá retorno. E com ele, a garantir o castigo implacável, lá estará, vigilante, o capitão das trevas, corpo peludo, cornos de chibo, rabo longo e retorcido e garras nas mãos e pés, que o povo, para evitar nomear (porque dar nome é dominar, é conferir estatuto íntimo, especial – dizem os filósofos), persiste em chamar de belbezu, chifrudo, demonho, dianho, diabelho, galhudo, rabudo, mafarrico, lusbel, lúcifer, anjo-papudo, inemigo, facanito, plascas, zarapelho, satanás, tição-negro, tardo, mefistófeles... por aí adiante.

            Mas não estavam desacompanhados os catecismos nessa audaciosa missão de expor o Inferno. A Irmã Lúcia, vidente de Fátima, garantiu tê-lo visto, e descreveu-o em retrato exaustivo como sendo um “mar de fogo”, com “os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, com forma humana (…), entre gritos e gemidos de dor e desespero”. Enfim, uma visão, mais diabo, menos diabo, já imaginada por Dante Aliglieri na Divina Comédia e bem retratada na expressão: “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança!”.

Tal como Dante nas palavras e outros nas telas, também na arte medieval os quadros do Inferno retratam a visão da terra sobre o aspeto da sua transformação nesse terrível caldeirão, deixando sempre claro como os condenados são maltratados pelos diabos, mas os diabos não são maltratados por ninguém. Assim como hoje, políticos corruptos sempre impunes e criminosos anónimos que incendeiam e destroem a Natureza desencantados com a vida (se a ela não é bela para mim, por que há de ser bela para os outros?, dirão), donos e senhores de um inframundo que manipulam à sua medida. No ar flutua uma náusea de fatalidade e uma ideia ambígua da justiça enquanto sustentáculo da esperança. E não há Inferno pior do que uma realidade que nos conduz, tal como sugerem as palavras de Dante, ao abandono de toda a esperança. 

(AP)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 25-8-2017


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A propósito das touradas


Mais uma das habituais petições, que sempre dão em nada, está a correr nos mailings e redes sociais, exigindo ao governo e demais órgãos de soberania o fim das touradas. Os argumentos são válidos e fáceis de expor: hoje em dia é inadmissível, sob o pretexto da tradição, promover espetáculos com tortura de animais para diversão do público. E subsidiá-los, enquanto atos culturais, ou permitir a transmissão televisiva em estação pública, pior ainda.

Os argumentos são válidos, bem se sabe, mas de que vai valer a petição? Hoje recorre-se, por tudo e por nada, às petições online, por serem recurso fácil, para pressionar o poder. Contudo o poder sempre pondera prós e contras e protege-se com o deixa andar habitual, pelo menos enquanto o prato da balança não se desequilibra de modo evidente.

Quanto a mim, que sempre respeitei as tradições, estou à vontade em relação a elas. Sei bem que muitas têm os dias contados. Morrerão por si. E ainda bem. Mesmo que hoje as gerações mais antigas encontrem alguma “nobreza” nas touradas, capeias, chegas, corridas picadas e garraiadas, virão novas gerações que as acharão ridículas. O que é feito das “queimas do gato”, “lutas de galos”, “enterro do galo”, “touradas de morte” e até das próprias “matanças do porco”, outrora rituais festivos imprescindíveis na rotina dos povos? Isto para não falar, em contexto diverso, das sangrentas autoflagelações de pessoas nas procissões. E tudo sempre em nome da tradição. Só que a tradição é também sinónimo de transmissão renovada do passado. O que vale por dizer que os padrões éticos e estéticos que a compõem vão evoluindo com o tempo, e quando a natureza simbólica se desajusta da sua natureza ritual e do deslumbramento estético que representam, as tradições renovam-se por si mesmas, ou extinguem-se por inúteis. E se delas ficar a memória, já não é mau.

Esperem, pois, pela geração que aí vem, a geração dos que hoje são meninos, e que nas escolas ganham laços de ternura e uma nova consciência dos direitos dos animais (justiça feita ao PNL com as suas valiosas sugestões: “Animais em família” de Lorrie Mack; Os meus animais” de Xavier Deneux; “O eco da ecologia” de Luísa Ducla Soares; “A arca de Noé” de Pedro Strecht; “Os animais não se devem vestir” de Judi Barrett; “Animais zangados” de William Wondriska; “Canção de embalar dos animais” de Madeleine Deny; “A ovelhinha preta” de Elizabeth Shaw; e muitas outras de Letria, Torrado, Zimler, Seromenho, Alice Cardoso, Isabel Barcelos, Benoit Debecker…). Veremos então se tais “tradições” se aguentam.

in JORNAL DE NOTÍCIAS, de 14-8-2017