terça-feira, 25 de julho de 2017

A incúria e pequenez de quem governa!


Quanto vejo Portugal a arder impunemente, como se de uma fatalidade se tratasse, fico banzado com tanta incúria, ou, mais que incúria, pequenez, de quem governa este pobre país.

Qualquer moço de escola, com dois dedos de testa, sabe bem que bastariam várias equipas especializadas munidas de drones, a lançarem-nos, estrategicamente, nos territórios mais vulneráveis ao fogo, e no espaço de minutos seria identificada e sua origem, bem como o próprio incendiário, e logo uma equipa avançada de bombeiros, servida ou não de meios aéreos, acabaria com o fogo, num abrir e fechar de olhos, onde quer que ele estivesse a deflagar.


Que minúsculas são as cabeças de quem decide!


terça-feira, 11 de julho de 2017

Salvar as sementes


Tem sido grande a polémica em torno dos interesses que se movem, à escala global, pelo controlo das sementes. Há multinacionais a deterem patentes que restringem o uso da semente própria pelos agricultores. E se é certo que os protestos mais recentes levaram o Parlamento Europeu a travar a aplicação de uma lei que, pura e simplesmente, ilegalizava a troca e comercialização das sementes tradicionais pelos agricultores, também é certo que a luta não está ganha: com as patentes e outros direitos de “propriedade intelectual” nas suas mãos, as poderosas corporações podem, em qualquer momento, alegar uma “concorrência desleal” pelo uso e troca das sementes tradicionais dos agricultores e impedi-los assim de prosseguirem uma prática milenar no cultivo dos seus campos. Empenhadas em padronizar o paladar à escala global para melhor venderem os seus produtos, estão-se “nas tintas” para as realidades culturais que os seus interesses afrontam. Nos últimos 100 anos, desapareceram mais de 90% de variedades de sementes da Terra, o que empobreceu a diversidade da alimentação humana, cada vez mais refém de variedades manipuladas visando maior rendimento. Entretanto, o país rural português possui cerca de duas mil variedades de sementes. Há que zelar pela sua salvaguarda. As sementes são parte do património cultural, histórico e alimentar de um povo. A parábola bíblica alegoriza-as como arquétipo da vida: se plantarmos hoje a boa semente, amanhã colheremos saúde, amor, abundância e paz.

Mas esta parábola conduz-nos também, de novo, às grandes ameaças que pairam sobre a sobrevivência da nossa floresta autóctone. Dada a grande extensão de áreas consumidas pelos incêndios, muitas espécies autóctones estão a desaparecer. E, para que num futuro plano de reflorestação se possam recuperar as espécies perdidas, lá voltamos à questão das sementes. O mostajeiro, por exemplo, uma espécie outrora muito usada para madeira e artesanato e cujo fruto as populações aproveitavam para uma excelente compota, está hoje limitado a duas únicas árvores conhecidas em Portugal, diz-nos um especialista da UTAD. Por isso, há que recuperar e proteger num banco de sementes as espécies que estão em risco efetivo. Sem a biodiversidade ativa, estará em causa a qualidade de vida nos territórios, sendo que a qualidade das sementes é um dos importantes aspetos a ter em conta em qualquer programa de arborização. E daí que proteger os recursos genéticos e promover a arborização de espécies autóctones, seja também uma forma de proteger o futuro.

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 11-7-2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Em louvor do engenheiro florestal


Ano após ano, a notícia impõe-se como uma fatalidade: a floresta é um tema incontornável, sempre e somente, pelo seu lado trágico. E como em todas as tragédias, acompanhando o período de nojo do seu impacto, segue-se o inevitável período de reflexão, ao ritmo dos momentos de emoção que sempre albergam o subterfúgio das fragilidades da condição humana…, uma reflexão, por isso, com prazos limitados de validade.

No ano transato, assim foi, perante um verão já de si catastrófico para a floresta. O governo lançou o debate, desafiando investigadores e instituições. Os investigadores da UTAD, conhecendo o terreno como poucos, lançaram então o alerta: “a floresta portuguesa precisa de uma revolução que ponha termo à inércia das entidades responsáveis pela gestão e ordenamento do espaço florestal, mas com medidas alicerçadas num conhecimento técnico-científico”.

Logo, há que mandar para o terreno engenheiros florestais. O país precisa deles. Paradoxalmente, os cursos de engenheiros florestais estão a desaparecer no ensino superior, resistindo apenas numa ou duas instituições comprometidas com uma missão estratégica de revitalização das regiões do interior. Os seus jovens engenheiros estão dotados de uma formação avançada que lhes permite intervir nos projetos de ordenamento e povoamento florestal, na proteção da floresta contra os incêndios, na aplicação do conceito de sustentabilidade na prática florestal. São profissionais que sabem bem como cresce a floresta e como reage perante condições normais e condições adversas. Sabem como ninguém onde, quando, porquê, como e o quê deve nela ser plantado.

Impõe-se, por isso, tornar apetecível a missão de engenheiro florestal. Mas também tornar apetecível trabalhar nas regiões do interior. Começa a ser tempo de pedir contas, ou respostas objetivas, a uma tal Unidade de Missão para o Interior, criada pelo atual governo e da qual se esperam intervenções claras que atraiam gente e atividades para o mundo rural, quebrando a sangria de recursos para o litoral. E nunca esquecendo que a floresta em Portugal ocupa ainda uma posição ímpar no contexto europeu. Representa cerca de 2% do PIB e em Valor Acrescentado Bruto nacional aproxima-se dos 4 milhares de milhões de euros, além de envolver quase 100 mil postos de trabalho diretos e remunerar cerca de 400 mil proprietários.

Já é tempo, pois, de a floresta passar a ser notícia não como um mundo de problemas mas como um mundo de oportunidades.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 26-6-2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A propósito de uma grande polémica por causa de um livro infantil no Brasil


Do Brasil chegam-me notícias de que o Governo vai retirar das escolas 98 mil exemplares de um livro adotado pelo PNAIC (o equivalente ao PNL em Portugal), cujo título é “Enquanto o sono não vem”, perante a queixa generalizada de que uma das narrações sugere um casamento entre pai e filha, portanto uma situação de incesto. Percebi, ao passar os olhos pela narrativa, que se trata de um texto da tradição oral, embora me pareça demasiado “moldado” pelas sucessivas vozes de narradores por que passou.

De todo o modo, há no aproveitamento desta narração para o universo infantil um grande equívoco. Os contos populares (e muitos deles foram importados de Portugal…) ao abordarem temas como o incesto, pedofilia, racismo, etc., fazem-no em termos simbólicos. E se a interpretação da simbologia não chega até às crianças, há que prescindir deles na literatura infantil.

Por exemplo, o conto “Pele de Burro” de que se conhecem muitas variantes (eu próprio recolhi duas), e integrado no ciclo da “Gata Borralheira”, trata de um rei que tenta casar com a filha, ou porque prometeu à rainha moribunda só vir a desposar uma mulher mais bela que ela, ou com uma a quem servisse o seu anel, ou a quem servissem os mesmos vestidos, etc., etc. Ora, como só a filha do rei preenche tais condições, o casamento seria com ela. Porém, aqui entra uma fada que oferece à menina a “pele de burro” que a disfarça levando à sua rejeição pelo pai, mas não por um príncipe que a desposa. A simbologia da mensagem deste conto é clara: a proibição do incesto. Mesmo que as condições naturais o favoreçam (promiscuidade habitacional, ambiente miserável nas famílias…), há que combatê-lo com todas as forças. Passar da natureza à cultura, da vida animal à vida humana, é um dos mais valiosos requisitos civilizacionais.

São estas mensagens que os contos populares transmitem. Passar os seus conteúdos para a literatura infantil é um desafio sério. Quem não o pode, ou não sabe fazer… fique quieto. 

(ap)


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Um diamante a (de)lapidar



O ministro Augusto Santos Silva, com referência ao potencial das regiões fronteiriças luso-espanholas, chamou-lhe “um quase diamante por lapidar”, procurando desse jeito antever uma espécie de filão a sair da Cimeira Ibérica que se anunciava para Vila Real. E se bem sabemos como os símbolos são as pedras preciosas da linguagem sábia, há que reconhecer também no diamante a simbologia da perfeição e do invencível e imutável poder do espírito. Perfeição e espírito remetem-nos para a cultura. E em boa verdade a cultura foi o que esteve claramente ausente na Cimeira Ibérica de Vila Real. No imenso cortejo de ministros que de Portugal e Espanha marcaram presença, não vimos nem o ministro da cultura português nem o espanhol.

Os dois países firmaram, de facto, importantes acordos, seja para uma fruição turística estratégica, seja para a desembocadura dos rios de fronteira, para o reforço da cooperação científica, tecnológica e empresarial, seja em matéria de emprego e assuntos sociais, assim como na implementação das redes ferroviárias (Sines-Madrid; Aveiro – Vilar Formoso – Salamanca; e Porto – Vigo), deixando de fora a Linha do Douro, apesar dos estudos recentes que apontavam a reconversão desta via como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Tendo sido escolhida a região do Douro como palco da cimeira, muitos perguntarão: o que ganhou, afinal, a região, para além dos instantes de fama ou da miragem mediática focada no Douro navegável e na cidade de Vila Real?

           Visto isto, o “quase diamante” que o ministro invoca não passou do “quase”. Agarrar o projeto cultural comum por que vêm lutando etnógrafos galegos e portugueses há anos com vista à classificação pela UNESCO do património imaterial da velha Gallaecia, poderia bem ser o “diamante” desta cimeira. Só que a cultura não entrou lá.


Quando pela Europa fora se criam eurorregiões e eurocidades assentes em bases artificiais, em estratégias que podem prescrever se os interesses que as movem se alteram, a Galiza e o Norte de Portugal partilham uma consciência de comunidade transfronteiriça assente em bases culturais profundas e isso faz a diferença. Partilham laços histórico-culturais retratados na língua, no lendário comum, na etiologia dos topónimos, no romanceiro e cancioneiro, na ritualidade dos atos festivos. Saibam (Lisboa e Madrid) que aqui há um povo que sempre ignorou os muros que os estados jacobinos e centralistas procuraram impor ao longo da história. Um povo que vive como se as fronteiras não existissem. 

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 12-6-2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O amor também é assim…


Uma família de corujas em risco foi acolhida no Hospital Veterinário da UTAD. Devidamente tratadas, curadas e nutridas, estão agora em condições de se fazerem à vida. A UTAD vai por isso devolvê-las ao seu habitat.

Pediram socorro à Universidade e obtiveram-no. Gestos bonitos estes! E não apenas simbólicos, que afinal a coruja, guarda-noturna, princesa da noite, é também o símbolo da sabedoria, do conhecimento racional. Vê o que os outros não veem, e vê em todas as direções (consegue girar em 270º o pescoço para observar tudo em redor sem o menor movimento do resto do corpo…). Na mitologia grega, a deusa Athena, deusa da sabedoria, tinha sempre consigo, como assessora, uma coruja que lhe revelava as verdades ocultas.

Parabéns a quem tão bem tratou esta família!


sexta-feira, 26 de maio de 2017

A cultura do efémero


Convidado há alguns dias por um agrupamento de escolas da região do Douro para falar com jovens sobre a literatura e os escritores durienses, fiquei estupefacto com o desconhecimento generalizado sobre os nomes e a obra dos grandes autores que desenharam em palavras e cantaram em versos a paisagem humana e física deste território, projetando-a para lá das fronteiras regionais e nacionais. Miguel Torga, João de Araújo Correia, João de Lemos, Guerra Junqueiro, Domingos Monteiro, Trindade Coelho, Guedes de Amorim, António Cabral, Luísa Dacosta, todos eles figuras emblemáticas e grandes embaixadores literários do Douro, são nomes (tirando o primeiro e o segundo nas escolas de que são patronos) completamente desconhecidos dos jovens de hoje.

Mas já não é só inquietante constatar a desvalorização da prática da leitura como instrumento de formação pessoal destes jovens; inquietante é também perceber a total indiferença em relação aos fatores culturais identitários que ligam os escritores ao território, aos espaços mágicos da paisagem enquanto fonte ativa de cultura e por isso fortemente inspiradores para os atos criativos.

Quem deveria fazer algo para afrontar esta realidade, ajudando a promover a leitura dos autores nas escolas e nas famílias, enriquecendo as bibliotecas escolares e fomentando parcerias dinâmicas com elas, patrocinando a reedição de obras fundamentais…, em vez disso, continua a ocupar-se em eventos efémeros, tertúlias de capela com os mesmos a debaterem sempre o mesmo, em formatos gastos e improdutivos. A cultura que se vê programar continua voltada para eventos de dimensão ilusória, mas que consomem rios de dinheiro, sem garantirem dinâmicas duradouras e enraizadas nas comunidades. Geralmente efémeros, deles nem sequer é possível monitorar os efeitos reais que produzem, e muito menos em termos de sustentabilidade económica. Valem pela congregação de interesses que mobilizam e pela agitação momentânea que provocam pontuada numa simulada agitação mediática, mas esgotam-se na sua própria efemeridade. São um bluff, portanto.

Enquanto isto, continuamos a ver os nossos adolescentes, gravitando nos caprichos do vento, rendidos a uma certa “poesia” vomitada nos palcos, capazes de fazer coro com um excêntrico músico da onda rap (a entoar “deixa-te de merdas” ou “gosto do teu rabo / principalmente quando ele mexe / e a minha cresce”…), mas incapazes de recitar um verso de Torga.

(ap)
in Jornal de Notícias de 26-5-2017
 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Rebuçados de pedra


Quando leio as propostas legislativas dos governos (do anterior e agora deste) sobre o acesso dos cidadãos às pensões de reforma, vem-me sempre à lembrança o meu avô, um velho agricultor do Douro, desses que construíram, arduamente, os socalcos que formam a paisagem vinhateira, hoje Património Mundial.
Meu avô morreu quando sachava um talhão de cebolo. Ao fim da tarde de mais um dia de luta com a terra, a mesma com quem viveu uma paixão fatal, torturada em anos infindos, sentou-se na orla do geio e ali se ficou, com a sachola ao seu lado. Ali o fui encontrar, sereno, conformado com a sua derrota nesse combate desigual, inglório, com a terra. Como quem entrega, resignado, o seu último reduto a quem o escravizou a vida inteira.
Trabalhou, por isso, até ao último dia, até ao último minuto, até ao último instante de vida. Mas sempre achei que se tratou de uma situação absolutamente excecional. Até porque este Homem era também excecional. Mas não. Cada vez mais, vejo pessoas idosas, frágeis, arrastando-se penosamente nos empregos a sonhar com o oásis de uma aposentação eternamente longínqua, o que me traz sempre à lembrança aquela madrasta terra que sugou até às entranhas os derradeiros frémitos de energia do meu avô.
E quando leio que um cidadão, atingindo 60 anos de idade, poderá aposentar-se sem penalização, mas para isso deverá ter mais de 48 anos de descontos, fico espantado com a ousadia destes engodos. Só quem vive fora da realidade pode acreditar na bondade de tais promessas. São rebuçados de pedra, que não sabem a nada. Um cidadão para beneficiar de tal medida deveria ter começado a trabalhar e a descontar aos 12 anos. Em criança, portanto. E que descontos uma criança faria então?
Quem conhece e recorda a realidade desse tempo, sobretudo dos meios rurais, sabe bem que, dos 30 ou 40 miúdos que terminavam a 4ª classe, só meia dúzia, ou menos, prosseguia os estudos. Os restantes começavam logo a trabalhar. Nenhum ficava sem ocupação, pelo menos até serem chamados para a vida militar. Havia trabalho à espera nas quintas, nos montes, nas hortas, nos pomares, no pastoreio… Produziam riqueza, criavam hábitos de trabalho, disciplina, respeito. Mas que descontos faziam tais miúdos, para que hoje, 48 anos depois, possam usufruir dessa putativa reforma?
AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 19-5-2017

sábado, 13 de maio de 2017

A Cimeira Ibérica que aí vem


Vila Real foi a cidade escolhida para a Cimeira Ibérica agendada para os próximos dias 29 e 30. Conhecidos os fracassos das anteriores (em especial da última, em Baiona, entre Rajoy e Passos Coelho, que durou apenas três horas e não deu em nada…), é já grande o frenesim em torno desta, que promete, no mínimo, um certo esplendor mediático para Vila Real colocando-a no mapa das grandes decisões transnacionais.

Sobre a mesa, estarão seguramente temas de que já se vai falando, inscritos num chamado Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça (POCTEP). Será assim inevitável retomar o plano de mobilidade transfronteiriça com a projetada conexão ferroviária de TGV Sines-Lisboa-Badajoz-Madrid, e (quem sabe?) dar ouvidos a lóbis nortenhos que reclamam a reconversão da Linha do Douro como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Mas estão aí também temas candentes como os projetos energéticos comuns, as emergências transfronteiriças com enfoque nos incêndios (hoje as leis proíbem que bombeiros de um país acudam a uma emergência no país vizinho se esta ocorrer a mais de dez quilómetros…), o mercado único ibérico para o turismo, a harmonização das titulações académicas…, e só por milagre é que não cairá na mesa a incontornável questão da central nuclear de Almaraz, agora que os dois governos parecem entender-se, ainda que perante a revolta persistente dos ambientalistas.


Está bem de ver que não faltarão na mesa muitos assuntos que sempre desuniram os países (e que sustentam a velha parémia: “De Espanha nem bom vento…”), mas que hoje a vontade dos homens converte em estratégias de união. Talvez por isso em cima da mesa desta cimeira, que por sinal até se realiza em terras nortenhas, não irá estar um vislumbre sequer daquilo que mais une, desde sempre, os dois povos: a cultura ancestral comum Galiza-Norte de Portugal. E era por aí que tudo deveria começar. A Euro-Região Galiza-Norte de Portugal, que procura afirmar-se numa lógica europeia nova, jamais chegará a bom porto se não tiver como âncora uma consciência de comunidade transfronteiriça sustentada no património cultural imaterial comum. Mas neste capítulo os dois governos estão claramente de costas voltadas. Apesar dos esforços que etnógrafos portugueses e galegos representados pela ONG “Ponte nas Ondas” travam há anos, Lisboa e Madrid ainda não conseguiram sequer entender-se numa coisa bem simples: a apresentação da tão almejada candidatura comum do Património Imaterial Galego-Português a Património Mundial da UNESCO. E bem podia ser agora.

Alexandre Parafita
(In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-05-2017)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Desenhar o Douro com Palavras


A convite do Agrupamento de Escolas João de Araújo Correia, na cidade da Régua, fui esta manhã falar com os alunos da Régua e também de Sabrosa sobre os grandes escritores durienses, em especial o patrono da escola anfitriã. O tema foi “Desenhar o Douro com Palavras”. Falar de João de Araújo Correia e Miguel Torga, mas também de João de Lemos, Guerra Junqueiro, Domingos Monteiro, Trindade Coelho, Guedes de Amorim, António Cabral, Luísa Dacosta e Amadeu Ferreira, para alguns destes jovens foi quase como começar do zero. Ignorados nos manuais, acabam também ignorados nas escolas. Culpa de quem?

(ap)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Narradores das memórias do Douro, bibliotecas que se vão fechando…



Muitos deles partiram já, mas ainda a tempo de me fazerem herdeiro de boa parte do seu património. Outros, e já são poucos, mantêm-se como tesouros vivos da memória coletiva do Douro. Por eles vou ao país profundo, aos centros de dia, aos lares de 3ª idade. Com eles recolho memórias e sopro acendalhas para que se faça um pouco mais de luz no entardecer das suas vidas. Mas até quando?

Há uma cultura imaterial, identitária, de valor incalculável que se está perdendo no Douro. Perde-se com o desaparecimento destes narradores. E que fazem as instituições responsáveis pela cultura? Nada.

O rio Douro continua a atrair milhões em cifrões. Mas vemo-los ir rio abaixo e nada ou quase nada fica. Em termos culturais, mesmo nada. Quando se esgotar a torneira dos fundos comunitários, cá estaremos para o confirmar. A cultura que se vê programar está voltada para os grandes eventos, de dimensão ilusória alguns, mas que consomem rios de dinheiro. São geralmente efémeros, e deles nem sequer é possível monitorar os efeitos reais que produzem, e muito menos em termos de sustentabilidade económica. Valem pela agitação que provocam, por vezes apenas alguma agitação mediática, e pela congregação de interesses que mobilizam, mas esgotam-se na sua própria efemeridade. São um bluff e pouco mais. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A metáfora dos ouriços


Perante as notícias mais otimistas que têm vindo a surgir sobre os valores inesperados e muito animadores do défice do país, que ajudam a volatilizar os fedores da troika mas também a sublimar as “dores” de um infactível e apocalítico “memorando de entendimento” a que passaram a chamar “geringonça”, dei comigo a recordar uma parábola do filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) sobre o dilema dos ouriços:

Conta-se que numa noite gelada de inverno, vários ouriços-cacheiros, vendo-se em risco de morrer de frio, colaram-se uns nos outros para combatê-lo através do reforço mútuo do calor que cada um conservava no seu minúsculo corpito. Porém, se era certo que, quanto mais unidos estavam, melhor resistiam ao frio, também o era que, desse jeito, a todo o momento se picavam com os espinhos. Assim, se por momentos, se afastavam para não se ferirem, logo após cuidavam de se unir de novo para continuarem a resistir àquele que era o perigo maior: morrer de frio. Mas faziam-no com uma certeza: não era em vão esse sacrifício. Morrer de frio seria sempre pior do que as dores das picadelas.

Não restam dúvidas de que, nesta como em outras cogitações filosóficas de Schopenhauer, é indisfarçável a sua conceção pessimista da vida, como se o prazer consistisse apenas na supressão da dor, desígnio suportado por um paradoxo incontornável: quanto mais próximos estão dois indivíduos, maior é a probabilidade de se ferirem mutuamente; mas, mantendo-se distantes, também a angústia da solidão não parará de consumi-los (e então como seria no amor, se o medo de magoarmos ou nos magoarmos nos inibisse da aproximação à pessoa amada?).

Mas esta e todas as metáforas têm ainda uma outra grande virtude: agarram-se como pastilha elástica às mais prolixas semânticas. Dão para tudo e mais alguma coisa. Assim, quanto à “geringonça”, o dilema agora é conseguir encontrar a distância ideal entre os parceiros que a sustentam. Se no caso dos ouriços, a ambição é suportarem o frio sem se picarem, no caso da “geringonça” deveria ser evitarem o mais possível que as picadelas (ou ferradelas) de cada um venham a afrontar o rumo esperançoso que o país tomou. Porque sem esperança nada se consegue. A penumbra dos dias eterniza-se e as angústias coabitam sempre com os sacrifícios.

AP
in Jornal de Notícias, 21-4-2017

sábado, 15 de abril de 2017

Mãe de todas as quê…?



Jamais a palavra mãe foi tão mal usada! Mãe não é, nem podia ser, nada disto (a mãe de todas as bombas...?!). Para o diabo quem assim pensou!

Mãe é colo, coração, ternura, sentimento. Mãe é doação, amor incondicional, amor permanente, amor infinito. Mãe é sorriso, é bondade, poesia. É lua-cheia que vem esconjurar as trevas dos caminhos tortuosos. É divindade, anjo da guarda. É fogacho de luz na escuridão. Âncora de vida, é nela que a humanidade de gera e se renova.

Jamais haverá bombas onde bater um coração de mãe!



segunda-feira, 10 de abril de 2017

O mito das aparições


Rezam as crónicas que, sete anos antes da aparição em Fátima, a Virgem apareceu a uma pastorinha no lugar do Picão, Miranda do Douro, onde chegou a nascer um santuário entretanto abandonado pela primazia dada pela Igreja ao fenómeno de Fátima. Contudo o lendário português está repleto de aparições semelhantes, e com tal energia creencial que levou à construção de importantes capelas e igrejas. Apareceu a uma pastorinha entre Misquel e Parambos, em Carrazeda de Ansiães, sentada numa cadeira de pedra pedindo uma capela. Com idêntico pedido apareceu a uma pastorinha muda, que conseguiu falar, no lugar da Ortiga, junto a Fátima; a uma outra em Colares (Sª da Peninha); e também a pastorinhos em Alcobaça (Sª da Luz), em S. Vicente da Beira (Sª da Orada), em Sabrosa (Sª da Saúde), nos Açores (Sª do Pranto e Sª da Glória), em Arcos de Valdevez (Sª da Peneda), em Cercal do Alentejo (Sª da Conceição), em Rebordelo de Vinhais (Sª da Penha), em Mora (Sª das Brotas), em Polima de S. Domingos de Rana (Sª da Conceição), em Óbidos (Sª de Aboboriz), em Arruda dos Vinhos (Sª da Ajuda), em Pereiros de Vinhais (Sª dos Remédios). Mas também a um almocreve desorientado na escuridão em Paredes, Sabrosa (Sª das Candeias); a uma pobre mulher vítima de violência doméstica em Rossas de Bragança (Sª do Pereiro); a uma menina cega que passou a ver em Vouzela (Sª dos Milagres); a uma menina leprosa, curando-a, em Vila Flor (Sª da Assunção), a um moço “pouco atilado” e depois a seu pai pedindo uma capela em S. Martinho de Balugães (Sª Aparecida). Umas vezes sobre um penedo, outras sobre um castanheiro, um loureiro, uma roseira brava, uma pereira, ou montada num burro (em Rebordelo). A todos pede uma capela. Em Mogadouro pediu mais: que mudassem o nome de Sª das Dores para a atual Sª do Caminho.

São aparições mescladas em relatos lendários com um fundo comum, incluindo o da natureza dos “videntes”: geralmente crianças pobres, pastorinhos, de escassa instrução. A circunstância de se tratar de pessoas simples, cultural e socialmente, inibe à partida qualquer presunção de haverem planeado uma ação estratégica. Por isso, quanto mais a lenda acentue a sua humildade mais convincente resulta o seu testemunho. Acresce que, tratando-se de figuras do povo, é grande a probabilidade de a “notícia” fluir rapidamente no seu seio. Entretanto, há um olhar resistente, reprovador, das camadas mais elevadas da sociedade, gerando-se um confronto de classes que faz emergir as condições propícias à implementação da ideia de uma justiça cristã sempre favorável aos mais humildes, tal como a apregoa a Igreja. E ao mesmo tempo reforça-se no imaginário coletivo a dimensão mítica das narrações. 

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 10-4-2017)

segunda-feira, 20 de março de 2017

A primavera no campus da UTAD


Chegou hoje a primavera, a estação do ano que melhor realça toda a beleza do campus da UTAD. Verdadeiro “ex-libris” da Universidade, é considerado um dos maiores jardins botânicos da Europa e marca a diferença em relação a todas as universidades do país. Com cerca de mil espécies distintas, oriundas dos quatro cantos do mundo, revela-se uma autêntica montra de biodiversidade. Não é por acaso que a UTAD, implantada neste excesso de Natureza, se vem assumindo como uma Eco-Universidade, desígnio diferenciador que representa uma poderosa mais-valia para o futuro. E daí que estudar, lecionar e investigar neste ambiente, nesta Universidade, seja um desafio tão estimulante como enriquecedor.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Elas fazem brilhar a escola!



Professoras, educadoras, bibliotecárias escolares… receberam-me carinhosamente com os seus alunos nas escolas de Loulé. O seu labor e criatividade transformam a escola num verdadeiro reino de afetos. O jogo criador em torno da leitura e dos livros propicia momentos de alegria e de festa que auguram amanhãs luminosos na vida das suas crianças.

Nenhuma criança nasce leitora, bem o sabemos. Aprende a sê-lo ao ritmo da vida, seja nas leituras dos bancos da escola, seja nas de “outras escolas” que a esperam também. E nem sempre as leituras das “outras escolas” harmonizam com a missão delicada de ajudar a crescer harmoniosamente com os livros. Daí o nobre papel dos professores e dos bibliotecários escolares que vamos encontrando no nosso percurso. Bem hajam. 



domingo, 12 de março de 2017

Vento de leste… não traz nada que preste


Cresci a ouvir grandes lições dos velhos sábios transmontanos. Filósofos pragmáticos, esgrimem metáforas com a mestria dos sábios gregos. Dão aulas de Economia Aplicada nas tornageiras e vezeiras, nos maninhos, partilhas de água, nas roldas dos moinhos; dão workshops de Lógica e Retórica nos fiandeiros, na hermenêutica das celebrações rituais; avaliam Semiótica das Linguagens na sinfonia dos campos e dos bosques; investigam sobre Epistemologia das Ciências Experimentais nas rotinas ecotelúricas do minguante ao crescente; e sobre Metafísica e Filosofia da Estética na efemeridade comovedora do pôr do sol, no belo-horrível das tempestades, dos ritos de morte, na espiritualidade das crenças, ou no silêncio diáfano da solidão das montanhas.

Mas onde melhor reconheço a sabedoria etnopragmática deste povo ainda é na meteorologia, especialmente na linguagem dos ventos: “com o vento de feição, não há má navegação”. E previne-se, sobretudo dos ventos que sopram de Espanha – travessios, gélidos e secos, trazem cieiros e gripes. Prefere os do lado oposto, ventos húmidos e menos frios. Por isso, diz “água de vento traz meio sustento” e também “vento de Vilartão, água na mão” ou “vento suão cria palha e grão”. Mas pior que o vento espanhol, ainda é o que sopra de todos os lados: “vento de todo o lado é mandado p’lo Diabo”. Quanto aos de Espanha, o povo não tem dúvidas. Atravessam a serra de Lomba, e por isso: “vento de Lomba, frio na tromba”. Queimam os renovos por onde passam, trazem miséria à lavoura. Daí que se diga “vento de leste não traz nada que preste”, o que vale como a exaurida parémia: “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”.

São sentenças carregadas de sabedoria popular, mas que, ciclicamente, são chamadas para outras semânticas alegóricas, nada simpáticas a um desejável clima de boa vizinhança transnacional. Assim foi nos anos 80, perante a ameaça da central nuclear espanhola de Sayago, perto de Miranda do Douro, ou do terrível cemitério de resíduos radioativos de Aldeadávida, em frente a Freixo de Espada à Cinta. Acompanhei, enquanto jornalista, estas e outras batalhas, para travar os planos ameaçadores de Espanha. “Com a Espanha tão grande – dizia-me um popular, – porquê os despejos à nossa porta?”. Ainda assim, batalhas ganhas. Só que agora o fantasma do nuclear parece voltar, com a lixeira de Almaraz, que representa uma séria ameaça para toda a bacia do Tejo. Ameaça a um país que, há muito, disse não ao nuclear. É, pois, hora de dizer: porra, já basta!

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 11-3-2017

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Morte leva-os… o Diabo seleciona-os!


Findo o Entrudo, acabaram as tréguas do pecado. Amanhã é Quarta-Feira de Cinzas. As cinzas é o que sobra das “queimas” no entrudo. Queimou-se, pois, o que resta dos dias de pecado. Na ótica cristã, inicia-se agora a caminhada para um tempo novo, o tempo primaveril, sempre mais esperançoso que o inverno que fica para trás. Mas para o alcançar, há que suportar um tempo de purgação, penitência, de rigores incontornáveis: a Quaresma.

Por isso, amanhã saem a Morte e os Diabos à procura dos incautos. Os Diabos, sempre mais frenéticos, pois andam sequiosos de almas pecadoras. Ou seja, a Morte leva-os e o Diabo seleciona-os!

Assim se cumpre a tradição transmontana, única em Portugal. Em Vinhais, saem à rua a Morte e os Diabos (a lógica da tradição manda que seja na 4ª feira, mas, pelo que vejo no cartaz, outras “lógicas” empurram-nos para sábado…).

Por sua vez, em Bragança estas duas tenebrosas criaturas saem acompanhadas de uma outra: a Censura. A Morte, na imagem de um esqueleto com a sua gadanha. O Diabo com os cornículos e o tridente. A Censura com enormes tesouras à cintura. Interessante a simbologia desta última: reflete o equilíbrio, a repreensão pelos atos levianos; ou seja, um derradeiro esforço para que, perante a inevitabilidade da morte, o diabo não venha de garras afiadas arrastar mais uma alma para o seu reino infernal.


Nada acontece ao acaso nestas tradições. Nada é importado. Tudo tem coerência na lógica ancestral do povo cristão transmontano.

AP

sábado, 25 de fevereiro de 2017

As máscaras de ontem e de hoje


«Num tempo em que toda a máquina mediática está voltada para os carnavais das grandes urbes, espelho de uma miscenização civilizacional imposta por outros carnavais do mundo, especialmente do Brasil, quase já só podemos encontrar manifestações diferenciadoras nos rituais de entrudo dos meios rurais, que continuam a assumir uma vertente identitária profunda. No nordeste transmontano, por exemplo, continuam a ritualizar-se as expressões mais originais do entrudo em Portugal, seja pela prática dos julgamentos públicos, queimas do entrudo, leitura de testamentos, pulhas e contratos de casamento (em Santulhão, Espinhoso, Paradinha Nova, Pinela, Carrazedo…), seja pelos desfiles de matrafonas e caretos (Podence, Ousilhão, Baçal, Varge, Vilas Boas, Salsas…) que personificam seres sobrenaturais, herdeiros dos deuses diabólicos venerados na Roma antiga.
(...) »
Artigo do Jornal de Notícias de hoje, 25-2-2017

 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

As origens dos entrudos transmontanos

(foto de Luís Borges)

As manifestações mais tradicionais do Carnaval em Trás-os-Montes continuam a ser designadas por Entrudo e inserem-se nas celebrações rituais do ciclo do inverno com origens que nos levam até à Roma antiga. Nesta região é onde encontramos as marcas mais originais dessas celebrações, em especial nos ritos protagonizados pelos caretos de Podence, Ousilhão, Baçal, Varge, Vilas Boas, Salsas, entre outros. Mas também nas máscaras de Lazarim, no julgamento do entrudo de Santulhão, o julgamento do Salomão em Armamar, as queimas do entrudo de Paradinha Nova, Pinela, Carrazedo e muitas outras manifestações.

A figura dos caretos, tal como os vemos nestes rituais, personificam seres sobrenaturais, herdeiros dos deuses diabólicos venerados na antiga Roma desde o império de Júlio César. A fisionomia dos caretos transmontanos, com as suas máscaras demoníacas, impondo um misto de terror e diversão, apresenta evidentes semelhanças com as divindades das festas Lupercais romanas que eram celebradas nesta mesma altura do ano em honra do deus Pã, este também representado com aspeto diabolizado, corpo peludo e cornadura de bode, perseguindo e aterrorizando as pessoas nas ruas. Repare-se como vemos estes cenários reproduzidos nos nossos caretos, quando perseguem e chicoteiam especialmente as moças, assustando-as nas ruas com os seus chocalhos à cintura que movimentam em gestos eróticos.

Nos entrudos tradicionais, há celebrações que variam nos seus ritos e expressões conforme as localidades, isto porque representam também origens diferentes. Neste mesmo período do ano faziam-se também na antiguidade as festas ao deus Saturno, deus da Agricultura. Eram conhecidas como Saturnais Romanas, ou Saturnálias. Nelas era permitido que o poder dos senhores passasse provisoriamente para os escravos, ou seja aqueles que faziam produzir os campos. Era, pois, um tempo de inversão, prazer e exagero, em que os escravos passavam a ser livres, nas palavras e nas ações, podendo expor publicamente os seus senhores, criticando-os e pregando-lhes partidas. É o que vemos também hoje em muitos carnavais, com os poderosos, sejam eles os políticos, dirigentes desportivos e outros, a serem caricaturados nos cortejos ou no espaço público das vilas e aldeias.

Estas celebrações têm uma evidente origem pagã, contudo, com o tempo, o cristianismo apropriou-se delas. Repare-se como a palavra “entrudo” procede do latim “introitus” que significa entrada. Entrada em quê? Entrada na Quaresma, que se traduz num tempo de recolhimento, reflexão, penitência, para curar na alma os pecados que os prazeres do corpo trouxeram dos três dias de excessos anteriores. A Quarta Feira de Cinzas tem, por isso, uma simbologia enorme. Após os três dias de pecado, há que queimar o que resta. Vejam-se os julgamentos, as queimas do entrudo, dos bonecos de Paradinha e Carrazedo, o julgamento de Salomão e a queima do santo entrudo em Armamar (na vizinha Galiza há a “queima do Filipe”). Daí as cinzas. Após as cinzas, constrói-se um tempo novo, o tempo primaveril, sempre mais esperançoso do que o inverno que ficou para trás.

AP