terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A RTP igual a si própria: hoje, como há 50 anos…


Por incrível que pareça, a obsessão da RTP em mostrar um lado triste, arruinado e solitário de Trás-os-Montes, acontece hoje como há 50 anos. Nada mudou para a RTP. Evoluiu na tecnologia (hoje as imagens já não são a preto e branco) mas não evoluiu na mentalidade, que o mesmo é dizer: na capacidade de descobrir uma região evolutiva viva.

Quando há 25 anos fui estudar para Coimbra, os meus colegas estranharam não me verem com uma grande samarra ou uma capa de burel pelas costas. Era a imagem que ainda tinham desta terra e de quem por cá vive. A imagem que a RTP difundia.

Está visto que não gostei do genérico do último Prós e Contras. Saiba a RTP que o homem que morde o cão, que tão obsessivamente teima em exibir, já não está no primitivismo das suas imagens de arquivo ou nas que cirurgicamente procura. Para a próxima, venha de olhos abertos. Talvez encontre, finalmente, um território onde vale a pena viver, trabalhar e investir.

AP

sábado, 28 de janeiro de 2017

Comandar um rato… com um sorriso!


Não era suposto trazer aqui de novo o inquietante “Admirável Mundo Novo” de Huxley com o cenário sombrio de profecias que traçou para esta sociedade incapaz de se proteger das tecnologias que ela própria criou. Muitas das suas profecias estão aí, bem o sabemos, ainda que metaforizadas algumas, outras como ameaça latente. Clonagem, manipulação genética, pessoas programadas em laboratório, surpreendidas por um rumo que nem sequer idealizaram, como se a tecnologia não fosse feita para o homem, mas o homem feito para a tecnologia, são alguns dos vaticínios desse “admirável mundo”. Um quadro preocupante, já percetível numa geração de “nativos digitais”, dominados por tecnologias que avassalam sem defesa, crianças e jovens moldados pelo uso de tablets e smartphones; mas também nos paradoxos de uma sociedade moderna, em que os anseios de privacidade por vezes obsessiva das famílias esbarram com os prazeres da visibilidade nas redes sociais, expondo viagens íntimas, fotos e nome dos filhos, e cada vez menos adotam atitudes críticas em relação às tecnologias que as escravizam. Como diz Huxley numa entrevista de 1958, a propósito dos ditadores do futuro: “Para se preservar o poder indefinidamente, só basta obter o consentimento dos governados”.

Mas não voltaria, como disse, a esse “admirável mundo” se não tivesse lido, há dias, uma admirável reportagem do JN, rubricada por Sandra Borges, com a história de uma jovem, ex-aluna da UTAD, que aplicou os saberes do seu curso (Eng.ª da Reabilitação) para ajudar a sua prima de 15 anos, portadora de doença neuromuscular degenerativa, agarrada a uma cama e incapaz de se exprimir, a poder comunicar com um computador e assim comunicar com o mundo. Andreia Matos, durante o seu curso, criou um software de reconhecimento de expressões faciais, projetado para a sua familiar, mas adaptável caso a caso conforme o grau de deficiência. A pequena Bárbara (“princesa Babá” como a tratam) pode agora com um ligeiro sorriso comandar um rato, interagir com a terapeuta, completar trabalhos escolares ou controlar a personagem de um jogo.

Será que Aldous Huxley, quando há 86 anos atrás inquietou a humanidade com o seu “Admirável Mundo Novo”, futurando uma sociedade escravizada pela tecnologia, teria sequer admitido nas frinchas das suas profecias um espaço libertador para uma “princesa Babá” que iria ver, deste jeito, um pouco mais aliviadas as agruras do seu mundo? 

Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 18-1-2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Bem-vindo ao Douro!


O abutre-preto, a maior ave de rapina da Europa, regressou ao Douro, após mais de 40 anos de ausência. Foi visto no Parque Natural do Douro Internacional onde nidificou, havendo também registo de um novo membro da família. Por isso veio para ficar.


O Douro afirma-se, assim, como um espaço único, onde a natureza convida à vida! Longe da (o)pressão e da poluição das grandes cidades, existem por aqui verdadeiros paraísos procurados pelos seres vivos do planeta mais rigorosos e criteriosos nas escolhas quando se trata de zelar pela qualidade de vida: que o digam as famílias de abutres do Egito, milhafre real, grifos, a cegonha preta, o açor, o mocho de orelhas, a águia-real, o falcão peregrino, a águia de Bonelli (águia caçadeira), o bufo-real, o andorinhão-real, entre muitas outras (ameaçadas em toda a Europa) que se passeiam livremente pelos planaltos, florestas e arribas do Douro.

(ap)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Em louvor da Imprensa Regional


Iniciei a profissão de jornalista na verdura da década de 80 do século passado. Tempos inesquecíveis. De lavrador de terras, condição que trago no ADN, tornei-me então lavrador de palavras, livre como o vento, apenas manietado pelo aprumo dos velhos “linguados”. E pelos rigores da ética, pois claro. Em Trás-os-Montes, meu berço e meu regaço, percorri todos os recantos na busca das melhores histórias. Umas vezes tristes, dramáticas; outras alegres, vitoriosas. Histórias que se impunha converter em reportagens vivas e proativas. E assim fui desbravando léguas e léguas de silêncios como quem rasga a textura densa de uma floresta virgem. Eram tempos em que o jornalismo tinha sempre o encanto da novidade, e, sobretudo, o romantismo das causas solidárias. Tempos em que levar a “carta a Garcia” era, antes que tudo, assinar um contrato com o desconhecido, com o imprevisível. Tempos em que o jornalismo em Trás-os-Montes era, ele mesmo, a novidade. A notícia.

Partilhei esses momentos com autênticos e generosos “cabouqueiros” da imprensa regional e companheiros da grande imprensa descentralizada: César Sampaio, José Pires de Moura (da Foto Márius), Orlando Inocentes, Mesquita Guimarães (mestre Guimarães), Zé Macário (pai e filho), Sílvio Teixeira, Barroso da Fonte, Bento da Cruz, Inocêncio Pereira, João Sampaio, Figueiredo Sarmento, JBCésar (o “Jim” para os amigos), João Luís Teixeira (antes de “subir” a presidente da câmara de Murça), Coronel Xico Costa (jornalista quase até aos 100), Chico Rocha, Pe. Cardoso, Armando Miro, Agostinho Chaves, Fernando Calado, César Urbino, Guedes de Almeida, Fernando Subtil, Rogério Reis, Fernandes Pinto, Jaime Ferraz Gabão na Régua, o professor Júlio Coelho em Lamego, Barros Rodrigues em Chaves, Carlos Morgado em Vila Pouca de Aguiar e tantos outros.

Eram então uma espécie de cavaleiros andantes das causas solidárias. Estavam em todas. Aliás, isso mesmo é o que está no cerne da Imprensa Regional. Os jornais são uma espécie de tribunais de papel que procuram dar voz a quem não tem voz. Quando o conturbado período que sucedeu ao 25 de Abril de 1974 for sujeito a uma análise sociológica rigorosa relativamente ao desempenho da Comunicação Social, uma análise que só a distância temporal permitirá de forma desapaixonada, poderá então avaliar-se esta “vocação genética” da Imprensa Regional e o poder inquebrantável que teve em mãos. Sendo esse um período em que a generalidade dos meios de Comunicação Social de âmbito nacional foi tomada de assalto pelo poder emergente da revolução, que passou a sustentá-la economicamente e a sujeitá-la a vínculos políticos incontornáveis, houve, de facto, uma pequena franja da imprensa em Portugal que se impôs pela sua irreverência, pelos laços vigorosos que mantinha com o povo das Regiões, com o país real, pelo que resultou vencedora a sua odisseia. Era a Imprensa Regional. E merece ser recordado como no seu seio depressa se instalou um enorme desencanto que tomou sinais de revolta em relação ao famoso regime do PREC, o qual foi liminarmente rejeitado pela grande maioria da Imprensa Regional. Assistiu-se no chamado “Verão quente” de 75, a uma poderosa campanha nos diversos pontos do país com vista a impedir a nacionalização da Rádio Renascença, uma campanha que resultou positivamente e teve, na primeira linha, a presença de uma influente, esclarecida e bem referenciada Imprensa Regional.

É certo que vivemos numa época em que a comunicação instantânea e globalizada ganha um vigor galopante, parecendo por vezes um paradoxo falar-se no ressurgimento de um regionalismo informativo. Há que ter, no entanto, a perceção de que a globalização, ao criar a consciência planetária, se, por um lado, comprime a dimensão do âmbito comunicacional ao aproximar nações e pessoas, por outro, terá de esbater a rigidez do centralismo dos estados, com a emergência da diversidade das comunidades locais e regionais. Por isso, numa sociedade massificada, caracterizada pela dimensão mundial dos acontecimentos, impõe-se a necessidade de fazer emergir uma corrente revitalizadora do peculiar, do genuíno, do local ou regional, e com ela despontar uma massa crítica, que possa ajudar a impor um dos direitos mais profundos: o direito à diferença, o direito à diversidade.


Atente-se, contudo, que o despontar desta massa crítica, permitindo a afirmação de uma vontade esclarecida que ajude as populações a optar, quando se trate de causas que a ela respeitam, só é possível com uma imprensa regional forte, culta e coerente. De pouco valerá insistir que a Região vale por ser a reserva cultural e histórica de um povo, se dentro dela não surgirem impulsos que projetem a sua personalidade específica, a sua pujança própria. Daí, pois, o contributo fundamental da Imprensa Regional.

AP

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os “herdeiros” de Fernão de Magalhães


            Aproximando-se o 5º centenário da viagem de Magalhães e o anúncio, pela Rede Mundial das Cidades Magalhânicas, da candidatura da “Rota de Magalhães” a Património Mundial, volta a eterna questão: afinal, Fernão de Magalhães é natural de onde?

Desde tempos imemoriais, a sua naturalidade foi dada como inequívoca em Sabrosa. Assim o diziam dois testamentos, um de 1504 (quando partiu para os oceanos) e outro de 1580 (de um sobrinho-neto exilado no Brasil), reforçados por um auto oficial de 1798 em que seis escrivães confirmam a sua genealogia ligada a essa vila, sendo que tais documentos identificam bens efetivamente aí localizados, como a Casa da Pereira, a quinta da Souta e o legado de missas anuais no altar do Senhor Jesus da Igreja de São Salvador do qual ainda existem vestígios na atual Igreja Matriz. A existência, na dita casa, do brasão com armas picadas refletindo o castigo que, no tempo de D. Manuel I, era corrente aplicar a quem praticasse atos considerados de traição à Pátria, assim entendida a missão do navegador ao serviço de Espanha, corroborava a mesma tese.

Entretanto, em 1921, a veracidade destes documentos foi posta em causa pelo historiador António Baião, com argumentos logo rebatidos pelo seu contemporâneo Abade de Baçal, que publicou minuciosa recolha de documentação obtida em fólios particulares em Vila Flor e depositou no museu com o seu nome em Bragança. Tais dúvidas, porém, bastaram para que outras hipóteses de naturalidade emergissem, como o caso do Porto que cita uma declaração com a expressão “Vecino de la cidade del puerto”, a qual atestaria ser daí natural, embora se saiba que outro testamento em Espanha declara do mesmo jeito: “vesino q soy desta muy noble e muy leal çibdad de Sevylha”. O que vale então, para o caso, esta palavra “vecino”? Pouco. Apenas que Magalhães aí morou.

De assinalar que as questões divergentes da naturalidade do navegador foram geradas muito depois da sua morte, ao perceber-se que haveria grande fortuna a reclamar da coroa de Espanha, por lhe ser devida uma parte dos territórios descobertos. Foi então que supostos parentes surgiram em diversas localidades do País, uns e outros logo impugnados e desacreditados nas suas pretensões pelo poder castelhano, que dessa forma assegurava a intocabilidade do seu património. Uma impertinente luta de “herdeiros” que, afinal, serviu apenas para aumentar o mistério e a polémica sobre o berço de Magalhães.

Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 10-1-2017

domingo, 25 de dezembro de 2016

O Douro (o)culto


Celebrou-se por estes dias, na justa medida da dignidade do evento, os 15 anos da classificação pela UNESCO do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial. Como é próprio das celebrações, foi uma oportunidade para refletir sobre os desafios que o selo de Património Mundial impôs no Douro e sobre novas dinâmicas que assegurem um crescimento sustentado salvaguardando a autenticidade do território. Uma oportunidade também para louvar o trabalho ciclópico de um povo que, ao longo de séculos, conseguiu moldar a própria natureza, dotando-a de uma beleza singular enquanto paisagem “evolutiva viva”.

Vencida esta batalha, que colocou o Douro nas rotas mundiais, atraindo riqueza, expansão vinícola e turismo (200 mil visitantes anualmente sobem e descem o rio), há “outro” Douro que continua de fora. Na mesma medida em que uma paisagem “evolutiva viva” cresce, um Douro cultural de gente, de memória, definha. Entidades e organismos que vemos trombetear nas celebrações, alguns com responsabilidades na área da cultura, ignoram que o Alto Douro Vinhateiro não é apenas um espaço físico. É também um espaço semiotizado com a memória coletiva como suporte; um espaço de Património Imaterial que provém das raízes do povo e que está ameaçado de extinção nos 13 concelhos que compõem o território. Todo ele é caracterizado por um universo mítico-lendário associado às singularidades assombrosas da paisagem, mas também aos lugares de memória como são os vestígios de povos antigos, com os seus labores, os seus cultos pagãos, a sua religiosidade cristã (lagares cavados em rochas, gravuras rupestres, megálitos, grutas, castros, torres, capelas…), um universo de que a toponímia rural e os testemunhos da população idosa são, muitas vezes, a única fonte de informação disponível.

Este espólio faz parte de uma cultura imaterial, intangível, encerrada em arcas de memória frágeis. Os narradores da memória, “tesouros vivos” deste património, cuja proteção a UNESCO reclama dos estados, estão absolutamente desprotegidos no Douro Património Mundial. O abandono das aldeias e a retirada dos idosos para lares de terceira idade, sem, no mínimo, se acautelar um plano de salvaguarda dos seus testemunhos, através de um inventário sistematizado de Património Imaterial, é o maior flagelo civilizacional do nosso tempo. Hoje trombeteia-se a paisagem “evolutiva viva” para amanhã se prantear a paisagem “evolutiva morta”.  
 
Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 24-12-2016
 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Mistérios do Natal em Trás-os-Montes: do culto dos mortos à condenação do Diabo

(foto de Luis Borges)

O culto dos mortos está ainda presente em muitas tradições natalícias transmontanas. Algumas, especialmente em comunidades rurais do norte do distrito de Vila Real, são suportadas pela crença de que, na noite de Natal, os mortos da família regressam às casas que habitaram em vida para participarem na reunião familiar.

Na simbologia destas tradições têm lugar tanto os vivos como os mortos. Na noite de consoada, sentam-se à mesa os familiares vivos, mas o espírito de todos os familiares mortos vem também compartilhar o repasto. Por isso a mesa não é levantada até à primeira refeição do dia seguinte, porque durante a noite os espíritos estão presentes e pretendem alimentar-se. Bem se sabe que a quantidade de alimentos se manterá a mesma, contudo eles alimentaram-se da essência desses alimentos, presente na espiritualidade que é assegurada pelo rigor da tradição. Daí que, de geração em geração, a tradição mantenha sempre os mesmos rituais e o mesmo género de alimentos: as batatas, a couve tronchuda, o bacalhau, as filhoses, aletria e rabanadas. No dia seguinte, os alimentos que sobram serão aproveitados para nova refeição, conhecida por “roupa velha”.

Na consoada há, por isso, sempre uma evocação dos antepassados. Nas aldeias do Barroso, antes de iniciarem o repasto, é hábito algumas famílias rezarem por cada um dos familiares falecidos, como que a convidar o seu espírito para a refeição. Há memória de famílias que punham uma cadeira vazia à mesa. Nessa cadeira vazia imagina-se o corpo da pessoa cujo espírito estaria ali representado. E as conversas entre todos decorrem como se ele ali estivesse a participar, apontando-se frequentemente para o lugar vazio.
Noutras comunidades transmontanas, também o Diabo tem o seu lugar na tradição do Natal, sendo personificado numa figura sinistra designada por “Velho Chocalheiro, que sai às ruas no dia 26 de dezembro e também no dia 1 de janeiro. O mais conhecido é o “Chocalheiro de Bemposta”. Representa a figura do demónio que, por castigo, após o Natal, anda pelas ruas com os seus chocalhos a balançar no traseiro, pedindo esmola para Nossa Senhora e o Menino Jesus.
Esta tradição apoia-se numa lenda segundo a qual o demónio tentou seduzir Nossa Senhora quando estava “de esperanças”, a aguardar o nascimento do Menino, e, por castigo, foi condenado a pedir esmola para ela e para seu filho. Com os ruidosos chocalhos, para melhor se fazer anunciar à passagem, e apresentando-se numa figura tauromórfica, com duas laranjas espetadas nas pontas dos chifres e uma barbicha de bode, sai para as ruas no dia 26 de dezembro (a pedir para Nossa Senhora) e no dia 1 de janeiro (a pedir para o Menino Jesus). O produto das esmolas é depois leiloado a favor de Nossa Senhora das Neves, que representa a mãe ofendida.

Alexandre Parafita
 Diário de Trás-os-Montes

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Presidente e a Cornucópia

Filandorra

Quando, há dias, o Teatro da Cornucópia, de Lisboa, anunciou que iria encerrar devido aos cortes nos subsídios públicos, o Presidente MRS apareceu de surpresa, “obrigou” o Ministro da tutela a ir com ele e reclamou para a companhia uma “solução de exceção”.

Um gesto bonito, pois claro!

Ficamos agora à espera que faça o mesmo com a Companhia de Teatro Filandorra, aqui de Vila Real, que todos os anos, quando chega a altura da distribuição dos subsídios públicos, anuncia o encerramento, ao ver-se miseravelmente contemplada pelos poderes de Lisboa.

Afinal, se o Prof. Marcelo é o presidente de todos os portugueses, também tem de ser o presidente de todas as companhias de teatro. E não apenas de uma.
 
 

sábado, 17 de dezembro de 2016

O que valem os rankings? Para mim…quase nada

 
Conheço bem, e por dentro, as duas realidades. Se na avaliação para os tais rankings não é levada em conta a realidade das dezenas de escolas públicas deste país sobrecarregadas de problemas (alunos que transportam para lá toda a espécie de dramas, alguns mal nutridos, outros violentos, famílias a viver na miséria, desestruturadas, pais desempregados ou a sobreviver com o rendimento mínimo, outros nas cadeias, alunos que agridem a torto e a direito, mães que entram pela escola dentro e esbofeteiam professores, negócios de droga nas imediações, uma classe docente de idade avançada…), então as regras do jogo estão viciadas. Por isso, tal avaliação vale o que vale. Para mim, pouco ou quase nada.
 
 
 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Hoje é o dia de dar o pito…


Irresistível este doce típico de Vila Real. Mas, ainda mais, é a tradição que o acompanha: hoje, dia de Santa Luzia, a rapariga dá o pito ao seu rapaz, ficando este comprometido a oferecer-lhe a “gancha” no S. Brás (em fevereiro).

Não menos curiosa é a lenda dos pitos de Santa Luzia, ligada ao extinto convento de Santa Clara, em Vila Real e que dá conta de uma freira muito gulosa, que, estando incumbida de tratar de doentes enfermos dos olhos, utilizava para tal os “pachos” de papas de linhaça. Um dia para disfarçar a gula, lembrou-se de passar a usar os tais “pachos” disfarçando neles os bolos recheados com doce de calondro. A abadessa, porque via mal, nunca percebeu. E ela continuou a consolar-se com eles.

Hoje consola-se quem tiver uma namorada generosa…

Esta e outras lendas de Vila Real:

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Boas razões para continuar a apostar na promoção da leitura

[Fernando Pinto do Amaral, ao centro]

Divulgado nos últimos dias, o relatório do Programa Internacional de Avaliação de Alunos vem provar que os alunos portugueses estão acima da média da OCDE no que respeita aos índices de leitura. Uma boa notícia! Lembre-se que, há 15 anos, relatório idêntico apresentava Portugal em antepenúltimo lugar.
Que explicações há para tal evolução? Adianto algumas: a implementação da Rede de Bibliotecas Escolares e com ela a energia e a criatividade dos professores bibliotecários, num combate persistente à iliteracia dos jovens. Encontro-os um pouco por todo o país, nas escolas que têm a gentileza de me convidar, sempre incansáveis, dinâmicos, imaginativos, operando por vezes verdadeiros milagres na promoção da leitura junto dos mais novos.
E porque não há coincidências, é merecedor também de reconhecimento o Plano Nacional de Leitura (PNL), lançado há 10 anos, impulsionador e inspirador de uma nova dinâmica em torno do livro e da leitura nos mais jovens. Os meus parabéns, pois, ao comissário do PNL, o meu colega e amigo Fernando Pinto do Amaral.
(AP)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Barro Preto de Bisalhães é Património Mundial da UNESCO!

 
O Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunido em Addis Abeba, na Etiópia, aprovou hoje a candidatura do Processo de Confeção da Louça Preta de Bisalhães como Património Mundial, no âmbito dos bens patrimoniais a necessitar de “salvaguarda urgente” pela sua particular vulnerabilidade. Apenas cinco famílias de oleiros mantêm viva esta atividade!
 
Uma decisão muito justa. Trata-se de um património único no mundo. A louça preta, produzida numa pequena aldeia do concelho de Vila Real, singulariza-se pelos processos e técnicas ancestrais usados na sua confeção e cozedura, mantendo-os desde os finais do séc. XIX; processos e técnicas que passaram de geração em geração até aos dias de hoje, resistindo sempre às contrariedades e caprichos da modernidade. O homem, a mulher e os filhos repartem as tarefas. O homem trabalha na roda e enforma a louça, a mulher e os filhos preparam o barro, abastecem de água, vão à carqueja e decoram a louça. Numa grande harmonia familiar, produzem a chamada “louça churra” (peças mais grosseiras, pouco decoradas e mais utilitárias) e a “louça fina” (bonitas peças de carácter mais decorativo).

Parabéns a todos quantos participaram nesta candidatura.
 
(AP)
 

sábado, 26 de novembro de 2016

O mafarrico

(JN,26-11-2016)

Diz o povo sábio que o diabo espreita nas frinchas. E para que apareça… basta falar-lhe na cabeça. Daí que, para que o maldito fique longe, o povo evite nomeá-lo, esconjurando-o com outros nomes: belbezu, cão-tinhoso, canhoto, chifrudo, calças, demonho, diacho, diasco, dianho, diabelho, galhudo, rabudo, mafarrico, lusbel, lúcifer, anjo-papudo, coisa-ruim, aquilo, inemigo, pecado, facanito, malasartes, plascas, zarapelho, satanás, tição-negro, tardo, porco-sujo, onzeneiro, mefistófeles, tentador… por aí adiante.
 
Mas, sobre ele, sabe-se ainda: que não é tão velho como dizem (“Quando o diabo nasceu já cá ingatinhava eu”); é criterioso nas mulheres que põe ao seu serviço (“O que o diabo não fizer, fá-lo a mulher”, mas também “Mulher de cabeça leve ao diabo serve”, ou então “Mulher de pelo na venta só o diabo a aguenta”); tem alguns trejeitos de beleza (“Não é tão feio como o pintam”); é criterioso nos segredos (“Segredo de três, o diabo o fez”, ou então “Quem revela um segredo guardado tem conversas com o diabo”); desleixa-se no vestir (“Veste uma capa que com um lado tapa e com o outro destapa”); deixa marcas (“A quem o diabo alguma vez tomou, sempre algum jeito lhe deixou”); é zelador de vícios (“Quem não fuma, nem joga, nem bebe vinho, leva-o o diabo por outro caminho”); tem profissão (“É tendeiro e arma tendas sem dinheiro”); colabora com prestamistas e banqueiros (“Ao onzeneiro guarda o diabo o mealheiro”); vigia os namoros (“A quem namora pelo fato leva o diabo o contrato”); é cobardolas e foge das crianças (“Com a canalha nem o diabo quis nada”, ou então “Sempre o diabo usou de cautelas à beira de garotos e capelas”); é vigilante noturno (“Quem à noite anda desperto tem o diabo perto”); não gosta de nabos nem cabaças (“Caldo de nabo escalda o diabo, e se for de cabaça é da mesma raça”); tem moradas conhecidas (“Na arca do avarento mora o diabo dentro”, mas mora também “nos feitos de quem traz a cruz nos peitos”). E há quem o saiba ainda nas pias de água benta para vigiar as beatas, ou no fundo das canecas do vinho para vigiar os bêbados (por isso bebem com os olhos fechados…), não esquecendo as encruzilhadas e as eiras onde preside à assembleia das bruxas.
 
Muito sabe, pois, este povo sobre os hábitos do mafarrico. O que não sabia é que teve bilhete comprado para vir até cá defecar no tempo das castanhas. Isto, a crer numa sinistra profecia de Passos Coelho, que, pelos vistos, não se está cumprindo. Ainda assim, é bom estar atento: afinal há sempre uma capa, que num lado tapa e no outro destapa.
 
Alexandre Parafita
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 26-11-2016

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

É única no mundo! E está a um passo de ser Património Mundial pela UNESCO

(foto de: Manuel Correia)

No início da próxima semana se saberá. O Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunido em Addis Abeba, na Etiópia, a partir de 2ª feira, tem nas mãos o processo de candidatura da Louça Preta de Bisalhães. Os trunfos são muitos. É única no mundo. Produzida numa pequena aldeia do concelho de Vila Real, singulariza-se pelos processos e técnicas ancestrais usados na sua confeção e cozedura, mantendo-os desde os finais do séc. XIX; processos e técnicas que passaram de geração em geração até aos dias de hoje, resistindo sempre às contrariedades e caprichos da modernidade. O homem, a mulher e os filhos repartem as tarefas. O homem trabalha na roda e enforma a louça, a mulher e os filhos preparam o barro, abastecem de água, vão à carqueja e decoram a louça. Numa grande harmonia familiar, produzem a chamada “louça churra” (peças mais grosseiras, pouco decoradas e mais utilitárias) e a “louça fina” (bonitas peças de carácter mais decorativo). Daqui saúdo todos quantos se empenham na salvaguarda deste património.

(ap)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O culto dos mortos e as “procissões dos ossos”

(Forca de Freixiel, Vila Flor, do livro Património Imaterial do Douro, vol.3)

O culto dos mortos [que o cristianismo cosagra em todo o mundo no dia de hoje] traz consigo uma grande energia simbólica. Muitas tradições do dia de Fiéis e Defuntos perderam-se já, como sucedeu com as antigas “Procissões dos Ossos”. Os criminosos, sentenciados a morrer nas forcas, ali ficavam a apodrecer e ninguém recolhia os seus corpos. Sem amigos e, tantas vezes, rejeitados pela família, aqueles míseros esqueletos aguardavam dias, semanas e meses por uma oração ou por um gesto de compaixão que não havia. Era então neste dia que os irmãos das Misericórdias se deslocavam às forcas, em procissão, cobertos de negros balandraus, e recolhiam os ossos em esquifes, transportando-os para os seus locais sagrados de enterramento, num cerimonial de apelo profundo à compaixão divina para com a alma daqueles infelizes, que sempre terminava com uma missa. Desta forma, enquanto a justiça dos homens eliminava da sociedade os criminosos, a Igreja e em especial as Misericórdias acolhiam-nos sem discriminação, num gesto clemente e misericordioso, procurando conferir-lhes alguma dignidade na morte. Sabe-se também que, mesmo quando não havia ossos a recolher, a procissão se realizava à mesma, num tempo em que os rituais tinham um sentido inabalável. (AParafita)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Vem aí a noite dos esconjuros...

 
Ainda que o calendário as aproxime, a festa da “Cabra e do Canhoto” em Cidões, Vinhais (na noite de 29 de outubro), nada tem a ver com a noite do Halloween, ou com qualquer outra americanice que o cinema inventou.
 
Trata-se, pois, de uma das mais resistentes celebrações transmontanas ligada à cultura celta, a marcar a aproximação do inverno. A gigantesca fogueira, onde é queimado um enorme e chifrudo “canhoto” (que simboliza o Diabo) e onde é cozida uma sinistra “cabra machorra”, velha e intragável (que simboliza a mulher infértil do dito), representa toda a energia catártica de um povo sofrido que se prepara para mais um inverno longo, frio e negro, e, simultaneamente, procura defesas contra os espíritos malignos travestidos nestas duas figuras. Na fogueira esconjuram-se, assim, as tentações maléficas, os maus-olhados, os medos e as invejas.
São estes velhos mitos que com os seus ritos continuam a dar um sentido nobre à cultura transmontana.
(ap)
 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Quando as palavras também cantam…


Bob Dylan, Prémio Nobel da Literatura. Surpresa, porquê? As boas canções para serem arte têm de respirar literatura. E só génio se irmana com ambas. O génio é o mais puro dom da natureza, e, mesmo nos atos de rebeldia com ela, só ele é que constrói a obra de arte. (ap)

sábado, 8 de outubro de 2016

As noivas da floresta



Sou ainda do tempo em que os incêndios nos montes eram coisa rara. Cresci numa aldeia transmontana, onde, mal se avistava um fogo, o sino tocava a rebate e logo ia sobre ele um formigueiro de gente, mulheres com canecos de água, homens com sacholas e vassourões improvisados de estevas e giestas… e tudo se apagava enquanto o diabo esfrega um olho. Ninguém chamava os bombeiros, julgo até que nem os haveria. Tempos irrepetíveis, é claro. A natureza tinha outra harmonia. A humanização das montanhas, o pastoreio com os rebanhos desbastando as ervagens densas, o mato roçado pelos lavradores para as camas do gado que o curtia para depois fertilizar os campos, os lareiros e fornos a lenha em todas as casas que impunham um permanente rebusco e patrulhamento dos pinhais… era outra realidade. Dela ficou quase nada. Quando muito, o martírio das memórias.

Mas os tempos mudaram, bem se vê. E realidades novas impõem estratégias novas. A floresta e os seus recursos continuam a representar uma das maiores contribuições para o PIB nacional. Abandonar a floresta ao flagelo dos incêndios é desistir do país. O melhor caminho é combater pela base o flagelo, especialmente quando começa a estar à vista que os grandes beneficiários da floresta já não são os que estão ligados à geração da riqueza que ela representa, mas os que estão ligados à destruição do seu valor – um fenómeno percetível na vastidão de interesses que vivem hoje da existência do fogo.

E combater pela base passa por dar voz à ciência e ao conhecimento. Há que ouvir as universidades que estudam a fundo este fenómeno e teimam em procurar as melhores soluções para limitar, futuramente, o flagelo. Realço as palavras recentes de Paulo Fernandes, investigador da UTAD, ao apontar como caminho, nas ações de reflorestação do território, a aposta no que chama “árvores bombeiras”, espécies florestais que não só resistem ao fogo como também contribuem para travar o avanço das chamas. E destaca várias espécies: o castanheiro, o sobreiro, mas especialmente o vidoeiro, cuja seiva os russos usam em vodka e xaropes. Onde estiver esta árvore, o fogo não passa. Por isso, há que criar zonas tampão em posições estratégicas no território florestal. Ainda é visível no Marão (entre Cotorinho e Montes) uma mancha destas árvores que sobreviveu a um famoso incêndio que devastou há anos toda a serra. A casca branca dá-lhes um ar distinto, um porte de singular beleza. Não é por acaso que o povo lhes dá o nome de “noivas da floresta”.

in Jornal de Notícias, 8-10-2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Two portuguese who conquered the world!


Ferdinand Magellan, the portuguese that conquered the first greatest achievement in world history: the journey of circumnavigation. So, it is rightfully, the pioneer of globalization. He united the world.

António Guterres, another portuguese, is now named the new UN Secretary General. Therefore, he will lead the world. It is also a central figure of globalization.

The question is: Why are the portuguese "so good out there and so bad in here?"
 

Dois portugueses que conquistaram o mundo!


Fernão de Magalhães, o português que alcançou o primeiro maior feito da história mundial: a viagem de circunavegação. É por isso, legitimamente, o pioneiro da globalização. Uniu o mundo.


António Guterres, outro português, é hoje declarado o novo Secretário-Geral da ONU. Vai por isso liderar o mundo. E é também uma figura central da globalização.

A pergunta roubo-a a João Miguel Tavares (hoje no Jornal Público): Porque são os portugueses “tão bons lá fora e tão maus cá dentro”?