segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Apresentação do documentário “O Tardo"
Foi na Biblioteca Municipal de Oliveira de Azeméis, este fim de semana.
O Tardo ou outros “tardos” que preenchem o maravilhoso popular (trasgos, trasnos, nubeiros, maruxinhos, olharapos, lobisomens…) continuam ativos nas lendas do povo. Sejam reais ou imaginários, o certo é que incorporam uma cultura oral que alimentou durante muitas gerações as estratégias educativas clarificadoras de conceitos de bem e mal, lealdade e perversidade, mas sobretudo ideias profundas de religiosidade cristã. Parabéns ao realizador Sérgio Martins.
domingo, 25 de setembro de 2016
Praxes & Pragas
Nunca
praxei, nem fui praxado, mas jamais ousei assumir uma opinião radical contra as
praxes das academias. Enquanto celebrações que marcam momentos especiais,
momentos de mudança de status no meio
social (e a entrada de um jovem no ensino superior não é propriamente um
momento banal…), as praxes recuperam a simbólica dos rituais de passagem,
inclusivos e identitários, que sempre aconteceram
em todas as sociedades, tenham esse ou o nome que tiverem.
Este é,
de resto, um entendimento que foi permitindo, ao longo dos anos, alguma
permissividade da sociedade perante os rituais de praxe das academias, inclusive
perante os exageros neles cometidos. Uma permissividade abonançada pela evocação
das remotas celebrações de passagem que aos mais velhos ia permitindo consignar
também o espaço das suas lembranças: “no meu tempo é que era” “também já passei
por isso”. Mas os tempos mudaram, e mudaram também no respeito pelos valores
originais e simbólicos das tradições. E o que se vê, em muitas praxes, à margem
das orientações das próprias associações académicas, é a presença de grupos sem
formação social nem moral, mentes decrépitas em
corpos taludos que não conseguem libertar-se dos traços psicopáticos que
arrastam na vida, e que procuram, sob a cobertura de uma pretensa tradição académica,
saborear algum frenesim à custa da ingenuidade dos mais inocentes e incautos –
o(a)s caloiro(a)s. Chamar tradição a isto é um equívoco. A tradição assenta em valores
culturais, éticos e morais preservados por um grupo ou comunidade. Anuir a
praxes humilhantes é a sociedade a regredir vários séculos. Basta lembrar que,
já em 1727, D. João V determinou por decreto: «(…) mando que todo e qualquer
estudante que por obra ou palavra ofender a outro com o pretexto de novato,
ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos».
Quando assim é, as praxes são, de facto, uma praga. Teve razão o
Ministro. Mas não se tome a nuvem por Juno. Há academias onde a cultura da
cidadania continua sendo o grande pilar da integração dos novos estudantes. Assinalo
a academia da UTAD, onde por sugestão do reitor, também ele ex-dirigente
académico, é implementado entre os novos estudantes um pacote atrativo de
iniciativas com um sentido solidário,
inclusivo, inovador e empreendedor, propiciando o convívio, o interconhecimento
e o envolvimento com a comunidade. Deste jeito, as praxes, se assim quisermos
continuar a chamar-lhes, recuperam o que mais importa: o sentido original de um
processo civilizado de pedagogia urbana.
(AP)
in Jornal de Notícias, 24-9-2016
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sábado, 17 de setembro de 2016
Sem os jovens, mata-se o futuro
Talvez por ser longo, desesperadamente
longo, o período em que o país se viu dominado pelo calvário mediático dos
incêndios, notícias houve que, podendo trazer alguma aragem de optimismo, quase
se diluíram na vaga deprimente desta já quase assumida fatalidade que é o destino
trágico de um país em chamas. Assim foi com Andreia, aluna de mestrado da UTAD.
Condoeu-se de uma menina de 14 anos, sua familiar, portadora de doença
neuromuscular degenerativa, sem qualquer tipo de mobilidade, incapaz de
comunicar, e, com os saberes do seu curso (Eng.ª de Reabilitação), desenvolveu
um sistema automático de reconhecimento das expressões faciais que lhe permite
interagir com um computador e daí comunicar com o mundo. A universidade reconheceu
o carácter inovador deste protótipo, pois, havendo já softwares que reconhecem expressões
faciais de pessoas ditas normais, nenhum funciona em situações desta natureza,
podendo ser adaptado, caso a caso, conforme as especificidades de cada um.
Pela mesma altura, duas jovens da mesma
universidade (Helena e Susana), alunas de Psicologia, criaram um projeto
inovador (“Dog Stress Device”), que visa prevenir tentativas de suicídio em
pessoas com história clínica de elevada ideação suicida, e que passa,
basicamente, pela aplicação de um dispositivo eletrónico na coleira de um cão
treinado, a coabitar com a pessoa em risco, o qual se assume como mediador na
monitorização do comportamento do dono. Uma equipa de psicólogos, munida de um
descodificador, poderá então agir nas situações críticas.
Apenas dois exemplos. Jovens que põem o
seu saber ao serviço do outro. Gestos generosos de quem quer melhorar a
sociedade e que sonha com uma oportunidade para o fazer. Sonho, afinal, de
tantos jovens portugueses bem formados que, em troca, recebem o quê? Desemprego,
estágios atrás de estágios, precaridade sobre precaridade. São jovens cheios de
energia, bem preparados, inovadores, que se veem enxotados das oportunidades de
trabalho efetivo como se de uma praga se tratasse. Não admira, pois, que o seu
desejo seja procurarem o futuro longe do seu país, como o demonstra o recente
estudo da rede Universia ao deixar claro que 78% dos alunos planeia emigrar.
Grande paradoxo este! O país pobre gasta o
que tem (e o que não tem) na formação universitária destes jovens, e, no fim,
são os países ricos que ficam com o proveito!
AP
in Jornal de Notícias, 17-9-2016
sábado, 3 de setembro de 2016
A geração dos professores avós
Está prestes a arrancar mais um ano
letivo. Que professores irão os alunos encontrar quando regressarem à escola?
Sabe-se, pelas estatísticas recentes do Ministério da Educação, que, num
universo de 130 mil professores, apenas 500 têm menos de 30 anos. O grosso da
classe docente está, por isso, a chegar à idade “sénior”, a idade dos avós. Não
se pode dizer que tal seja absolutamente negativo. Ser depositário e
transmissor de saberes experienciados e acumulados, de métodos testados no
tempo, de memórias e valores intergeracionais, tem um valor incalculável que as
sociedades modernas, infelizmente, não souberam ainda potenciar. Mas fazer
depender de uma classe “sénior”, cansada e gasta, a sobrevivência de um sistema
em permanente e vertiginosa mutação é um contrassenso.
As
crianças e jovens estão hoje dominados pelas novas tecnologias. Regressam de
férias com uma energia ritmada e “educada” pelos passatempos mais estranhos e
complexos que a imaginação suporta: são os pokémons mais os pikachus, os
universos star wars, o super-mário ou os super-ninjas, são as lutas de zombies,
os ninjago, dragon balls, monster high, power rangers… (o que sei eu, afinal?).
E chegados à escola, que motivação encontram?
O
sistema necessita de professores mais jovens. Impõe-se dar oportunidade aos que
acabam de sair das universidades, e que, na sua formação ou nos estágios, já
convivem com esta nova realidade. Não serão, por isso, surpreendidos pelos
novos “saberes” dos alunos. São professores com energia, com dinamismo, com
competência e com tempo, que, harmonizados com o caudal de sabedoria e
experiência pedagógica dos professores “seniores”, contribuirão, certamente,
para que os alunos não vejam no ambiente escolar uma “seca”.
A experiência dos anos é uma
mais-valia, claro que é. Mas será que equipas pedagógicas quase integralmente
formadas por professores de idade, a sonhar com a aposentação, conseguem dar a
resposta adequada a turmas cada vez mais numerosas, com alunos cada vez mais
irreverentes e indisciplinados e profundamente dependentes das novas
tecnologias?
Dentro de uma década quase metade da
classe estará à beira da idade da reforma, mas nem então se perspetiva a
necessária renovação, uma vez que os novos professores recrutados são quase tão
velhos quanto os que já integram os quadros. E o reverso da medalha são os
milhares de jovens docentes que ano após ano terminam os seus cursos e ficam no
desemprego, obrigados a procurar outros caminhos.
(AP)
in Jornal de Notícias, 3-9-2016
domingo, 21 de agosto de 2016
Fala para que eu te veja!
O
Instituto Camões, entidade que muito luta para divulgar a língua e cultura
portuguesas no Mundo, teve e gentileza de me convidar, recentemente, para uma
conferência em Andorra, dirigida a lusodescendentes. Território de forte
emigração, a ideia era reforçar os laços dos jovens com a sua cultura de
origem. Mas o que mais me tocou ali foi perceber os esforços inabaláveis de
famílias portuguesas para protegerem a língua materna junto dos filhos,
reivindicando, das entidades anfitriãs, o ensino do português para eles nas
escolas locais.
E esta não
é uma luta isolada. Dias depois, as conversações entre os presidentes Marcelo e
Hollande, na visita deste a Portugal, privilegiavam um sentido idêntico:
integrar o ensino da língua portuguesa no sistema curricular do ensino francês,
satisfazendo os anseios e reivindicações dos emigrantes. Entretanto, na
Alemanha, já se avançou mais. Muitas escolas do ensino Básico oficial têm
turmas bilingues, com professores de português inseridos na escola pública e aí
colocados através de concursos do Estado português. Um Estado que hoje possui
um total de 815 professores em 23 países para garantir que a chama da
língua-pátria se mantenha viçosa, também entre os nossos emigrantes. Mas mais
que louvar o Estado por esse esforço, há que louvar as famílias quando mostram
esmerar-se para que os seus filhos, portugueses também, não deixem de honrar a
sua língua, usando-a como veículo privilegiado de comunicação.
Infelizmente,
nem sempre esse esmero é claro. Fui há dias a uma dessas romarias de aldeia,
onde gosto de saborear o aroma da tradição, seja no rigor e colorido das
procissões, seja na expressão singular das gentes, na música, na poeira dos
caminhos, nos negócios de gado, nas barracas de comes e bebes... E, de repente,
já mal sabia em que país estava. As vozes e diálogos que imperavam,
contrariando o próprio espírito etnográfico da festa, eram já uma amálgama
densa de loquacidades francófonas.
São
portugueses. Amam a pátria, bem o sabemos. Mas ver famílias portuguesas (e no
seu próprio país!) eximindo-se do uso da língua materna é um paradoxo. Como
podem reivindicar dos estados (o nosso e o anfitrião) o ensino do português
para os filhos, se no seio da família não usam a língua que exigem ser ensinada
nas escolas?
E não
esquecer nunca que o português não é uma língua qualquer: é a quinta língua
mais falada no Mundo!
AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS
(21.8.2016)
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
A noite só escurece para quem não sabe sonhar
Mário
Trindade, atleta de Vila Real, é o modelo do verdadeiro campeão, para quem os
sonhos se encarregam de garantir o fulgor de uma primavera renascida,
resistentemente luminosa. Atleta premiado, medalhado, recordista, em Portugal e
no estrangeiro, sempre soube sublimar as fraquezas e torná-las o motor das suas
forças, do seu talento. Conheço-o desde miúdo, vi-o treinar nas pistas da UTAD
e sempre apreciei a grande energia que dele irradia, para além de um talento
invulgar.
Foi,
por isso, com um ah de espanto que tanto ele como todos os que o conhecem viram
o seu nome retirado da lista de convocados para os Jogos Paraolímpicos Rio
2016. Ele, que havia conseguido alcançar os mínimos para a competição
paraolímpica, e tudo investiu nesse sonho, dinheiro, horas e horas, dias,
semanas, meses de treino. A pista passou a ser a sua segunda casa, fizesse sol,
frio ou chuva. Falta de vaga foi a justificação dada para a recusa. Mas que
raio de justificação! Gente fria, insensível, incapaz, foi certamente quem
assim decidiu. Resta a certeza de que não serão esses burocratas da capital que
lhe travarão o sonho de ser campeão. Esse continua ativo e continuará a
guiá-lo.
(AP)
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terça-feira, 19 de julho de 2016
Acompanha o pastor transmontano desde o neolítico
O Cão de Gado
Transmontano faz parte da história viva das terras “para cá do Marão” há mais
de 10 mil anos. Estudos da UTAD situam a sua origem no neolítico. Como
referência ancestral das memórias dos povos que ocuparam este território,
enquanto protetor contra a ameaça dos lobos e de outras feras, é também um
ícone ativo do património imaterial transmontano.
Apesar da sua
grande corpulência, tem um comportamento dócil e reservado. Sempre muito calmo
e de olhar sereno, é cauteloso sem ser agressivo, mas também um dos animais
mais corajosos na defesa do dono e dos seus bens. Tem uma função a cumprir e
cumpre-a com coragem, responsabilidade e lealdade. Um exemplo para muitos
humanos. (ap)
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Também há campeões assim
Para muita miudagem que atravessou os anos 60 e 70, ele era uma espécie de
“Cristiano Ronaldo” dos dias de hoje. A diferença maior estava apenas nos
milhões e cifrões que os distanciam. Porque o seu nome, Fraguito, também
bailava nos gritos da miudagem, em especial nos recreios da escola, onde
disputávamos as “caricas” com o seu rosto e festejávamos os golos que vinham a
preto e branco nos ecrãs da TV. Era um prodígio com a bola nos pés. Voava como
um gavião sobre o relvado. Foi duas vezes campeão nacional pelo Sporting.
Marcou golos decisivos para as vitórias. Foi seis vezes internacional pela
Seleção Nacional. Numa delas, há 41 anos, fez parte desse naipe de heróis de
Portugal que alcançou a famosa vitória contra a França, humilhando-a em pleno
estádio de Colombes, em Paris. Honrou por isso as cores de Portugal. Honrou a
Pátria.
AP
quinta-feira, 23 de junho de 2016
Um São João disputado por cristãos e mouros…
O São João de Sobrado, no concelho de Valongo,
que se festeja amanhã (dia 24) é único em Portugal e único no mundo. Trata-se
de uma celebração enraizada na mito-história nacional, que transporta no tempo
uma representação singular e simbólica das lutas entre mouros e cristãos. A
simbologia dessas lutas está bem presente na ritualização que opõe, em uma
guerra lúdica, os mouriscos e os bugios (cristãos) na disputa da imagem de um
São João milagreiro, que uns e outros reclamam numa estranha ambição pelos seus
poderes mágicos e curativos. O envolvimento popular, ao longo dos tempos, na
preservação e dinamização destes rituais, e toda a riqueza lúdico-cultural que
potencia, justificam bem a candidatura a Património Cultural Imaterial da
UNESCO, que, esperamos, continue a ganhar entusiasmo e adeptos (AP)
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segunda-feira, 20 de junho de 2016
Em alerta bruxas e feiticeiros!
(foto de Jorge Trabulo Marques)
Vem aí o Solstício de Verão. O início é esta noite às 22h34.
O sol vai impor-se como deus doador da luz. Os raios solares ganharão força
suprema e aterrorizam os poderes das trevas. Um frenesim para bruxas e
feiticeiros desde tempos imemoriais. Alguns insinuam encarnar o poder mágico
dos deuses pagãos. Coisa séria será, tanto que as práticas pagãs foram sendo
absorvidas pelos festejos cristãos do S. João. Muitas culturas europeias creem
nos poderes mágicos e curativos das águas e das plantas neste ciclo festivo.
Desde a antiguidade, os casamentos acontecem neste tempo para garantir a
fertilidade, sob uma luminosa inspiração dos ritos de fertilidade que
acompanhavam os casamentos sagrados das divindades, tal como os celtas
festejavam as colheitas e a fertilidade dos campos. Ofereciam-se comidas,
bebidas e animais aos deuses, dançava-se à volta de fogueiras para espantar os
espíritos malignos.
AP
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quarta-feira, 8 de junho de 2016
«O Diabo veste uma capa que com um lado tapa e com o outro destapa»
Este provérbio, usado
pelas gentes transmontanas, assenta bem com aquela meia dúzia de autarcas
egoístas (e quem os protege) que, no intuito de garantirem parte de leão dos
fundos comunitários para os seus territórios (litoral urbano) trataram de afastar
quem os podia embaraçar: o Prof. Emílio Gomes (presidente da CCDR-N) que vinha
providenciando uma justa distribuição dos fundos pelos 109 municípios do norte.
Uma ousadia que lhe valeu ser exonerado pelo Ministro da tutela, que assim
mostra bem o lado em que está. E a capa que veste.
Tratando-se de fundos que visam a coesão territorial (ora comprem um dicionário e vejam o que significa a palavra “coesão”…), seria expectável que se destinem a assegurar um desenvolvimento regional equilibrado do norte do país. De contrário, os meios urbanos do litoral engordam... e o interior continua a esvaziar e a empobrecer. E todos bem sabemos que não é esse o espírito que a União Europeia quer implementar ao financiar o programa Portugal 2020.
Comporta-se esta meia dúzia de autarcas e quem os protege como aquele cantor ridículo e decadente que apareceu nos ecrãs a defender a construção de uma muralha que separe Trás-os-Montes do resto do país.
AP
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domingo, 5 de junho de 2016
O resto do território… é paisagem!
(Prof. Emídio Gomes)
Não fixei o nome da
pessoa que soltou este rasgo de erudição, mas vi que era o Presidente da
Alfândega do Porto. Dizia-o ontem (4-6-2016) com todas as letras no JN: «É nas
cidades que se desenvolve a vida, não é no resto do território” (!!!!)
Ontem também foi
largamente noticiada na imprensa a exoneração do Presidente da CCDRN, Prof.
Emídio Gomes, pelo Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques. E a justificação ficou clara como água: Emídio
Gomes defendia uma distribuição equilibrada dos fundos comunitários pelos
municípios do norte, o que deixaria o norte interior razoavelmente protegido.
Mas o Ministro e lobbys que o rodeiam (autarcas do Porto, Vila Nova de Gaia,
Gondomar, Matosinhos, Paredes, Valongo e Santa Maria da Feira) achavam mal. Por
isso, correram com ele.
Ficamos agora a saber que o Ministro e a sua gente, quando
olham para o interior, é como quem diz: que se contentem com a paisagem que têm…
e deixem o resto connosco.
AP
sábado, 4 de junho de 2016
O que a autoestrada traz… a autoestrada leva
Coube-me em dezembro de 1988, enquanto
jornalista, cobrir a inauguração pelo primeiro-ministro Cavaco Silva da chamada
“via rápida do Marão” (entretanto vulgarizada com o nome de “IP4”), considerada,
ao tempo, um dos maiores rasgos da engenharia do século XX, com um impacto previsível
no desenvolvimento regional comparável ao da demarcação pombalina da Região do
Douro. E não podiam ser mais otimistas os discursos políticos de então, que
proclamavam: “Agora, é que o progresso vai chegar”. Mas não chegou. O expectável
desenvolvimento de Trás-os-Montes não aconteceu. Nos últimos 25 anos, a região perdeu
mais de quase 70 mil habitantes, em especial nos meios rurais de onde os mais
jovens partiram, deixando ficar uma população de idosos. E foi o próprio Estado
a ajudar ao descalabro. Deu com uma mão (o IP4), mas tirou com a outra: encerrou escolas, maternidades, serviços de saúde e
tribunais (aplicando no interior rural os mesmos critérios que vigoram para os
grandes centros), extinguiu ou deslocou para as grandes cidades repartições,
serviços públicos, postos e delegações de empresas públicas, imprescindíveis
que eram à dinâmica da vida no interior, enquanto impulsionadores de outras
dinâmicas: criação de empresas e de empregos. A contrariar este revés, salva-se
a UTAD e o IPB, que, no mesmo transcurso temporal, cresceram e se afirmaram nos
seus territórios, contra ventos e marés.
Quanto ao IP4, ficou a
memória trágica das centenas de vítimas mortais, e sobre o almejado progresso, fica
cada vez mais a certeza de que também não é com autoestradas que se desenvolvem
as regiões. A fluidez com que uma autoestrada traz pessoas também as leva. Os
romanos, esses, viram mais longe há dois mil anos. Construíram a sua via romana
ligando Bracara Augusta a Brigantia, seguindo depois até Asturica (Astorga),
mas fizeram-no de olhos postos nos recursos endógenos destes territórios,
explorando termas e minas de ouro e assegurando uma rota eficaz para fins
militares e comerciais. Tinham, por isso, uma estratégia de desenvolvimento. Uma
estratégia que nos dias de hoje, se existe, não se vê como capaz de atrair e
fixar pessoas, empresas, serviços, instituições, massa crítica.
Camilo demorou, entre Vila
Real e o Porto, “vinte horas de liteira”. Hoje demoraria uma, se tanto. Mas
quem pode contentar-se apenas com isso?
AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 4-6-2016
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Faria hoje 162 anos
«O Comércio do Porto”. Nas suas
páginas constrói-se a história de Portugal em três séculos. É por isso uma das
maiores referências do nosso património cultural imaterial. Nele escreveram Camilo Castelo Branco, Carolina Michaëlis, Guerra
Junqueiro, João de Deus, Rodrigues de Freitas, Pinheiro Chagas, Maria Amália
Vaz de Carvalho, Alberto Pimentel, Júlio Dantas, Henrique Lopes de Mendonça,
Afonso Lopes Vieira, António Correia de Oliveira, Augusto Gil, Fialho de
Almeida, Ramalho Ortigão e o próprio rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, entre muitos
outros escritores e jornalistas notáveis.
Com os seus lucros construiu
aquele monumental edifício na Avenida dos Aliados. Mas construiu também, ou
ajudou a construir, o edifício da Academia Politécnica do Porto (precursora de
várias faculdades da Universidade do Porto) e, no capítulo da solidariedade
social, lançou creches na Afurada, em Vila Nova de Gaia, Lordelo do Ouro,
Bonfim, Foz do Douro e bairros operários em Monte Pedral, Lordelo e Bonfim. Uma
realidade sem paralelo na imprensa dos nossos dias.
Trabalhei 19 anos neste jornal. Era um jornalismo de causas. E nós,
jornalistas, uma espécie de cavaleiros andantes na busca das grandes histórias
que, só mesmo lá, no local, se poderiam recolher. Lavrador de condição,
sentia-me aí um ousado lavrador de palavras, um herói de papel, “manietado”
apenas pelo aprumo dos velhos “linguados”. Enfrentei e denunciei políticos
corruptos, mentirosos e hipócritas, assim como bandidos, violadores, ladrões de
estrada. Assentei praça nos tribunais como repórter e como réu. Busquei as reportagens
nos lugares mais recônditos, viajei de avião, de comboio, de carro e até de
burro para lá chegar. Desbravei léguas de silêncios como quem rasga a textura
densa de uma floresta virgem. Porque o jornalismo é isso mesmo: a arte de
romper silêncios. Por isso tinha sempre o encanto da novidade, mas, sobretudo, o
romantismo das causas solidárias. Eram tempos em que levar a “carta a Garcia”
era, antes que tudo, assinar um contrato com o desconhecido, com o
imprevisível. Tempos inesquecíveis.
AP
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O Comércio do Porto
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Cerejas de maio… ou as leva a chuva, ou as leva o gaio
A contrariar as melhores expectativas
primaveris, cá temos de novo a chuva e o frio. Muitos se surpreendem com esta
episódica invernia, mas o povo não. Povo sábio, visionário e profeta. Gente que
já viveu muitos maios, e, por isso, sabe bem porque diz o que diz quando diz:
«Ruim é o maio que não rompe uma croça». Assim se sentencia no Barroso e
Montesinho. Mas se for no Douro: «Em maio comem-se as cerejas ao borralho».
Comem-se quando as há. Este ano, parece que não. E sabe-o bem o povo quando
diz: «Cerejas de maio, ou as leva a chuva, ou as leva o gaio». Portanto,
tratando-se de chuva, saiba-se que o maio é só um tudo-nada melhor que abril.
Daí que se diga: «Uma água de maio e três de abril valem por mil». E quanto ao
frio, também ele não é imprevisível. Por isso, diz a velha: «Em maio, nem à
porta saio». Mas melhor, melhor, é que seja pardo e chuvoso («Maio pardo e
chuvoso faz um ano rendoso»). Ainda assim, há de ser uma chuva que só molha
tolos. Diz o povo «Maio me molha, maio me enxuga». E nem as trovoadas são de
inquietar. Pelo contrário: «Maio que não dê trovoada, não dá coisa estimada». O
que vale o mesmo que dizer: «Maio sem trovões é como burro sem…» (deixo a rima
para vozes mais afoitas e inspiradas). AP
Bibliografia: PARAFITA, a; et. al. (2007). Os
Provérbios e a Cultura Popular, Porto: Gailivro.segunda-feira, 9 de maio de 2016
Todos os transmontanos… são flavienses
Foto: J.B.César
Esta cidade, Chaves, uma das mais
belas do país, cidade hospitaleira, generosa, resistente, guerreira, um pilar
de cultura único (nela foi impresso o 1º livro em língua portuguesa…), uma cidade
que faz das injustiças de que é vítima a sua grande fonte de energia, alcançou
neste fim de semana, com a subida do seu GDC à 1ª Divisão Nacional, um feito
grandioso de que todos os transmontanos se devem orgulhar.
Sabemos bem como o desporto-rei
galvaniza os povos, reforça a autoestima, gera dinâmicas de desenvolvimento… e
Chaves, pelo que foi, pelo que é, pelo que vale, merece bem isso tudo!
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Grupo Desportivo de Chaves
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Vem aí o monstro...
Nos últimos dias, uma das velhas e
emblemáticas locomotivas da Linha do Tua, que deu vida durante quase um século
a este reino maravilhoso que é o Vale do Tua, viajou para França onde irá ser
restaurada e posta a operar ao serviço do turismo de paisagem, turismo de
qualidade. Certamente levada por gente com grande visão sobre os desígnios do
futuro, alinhada com o lado mais promissor de uma Europa atenta à valorização
dos territórios, que procura riqueza no bem-estar e autoestima das suas
populações. Uma visão claramente oposta à que vigora por cá, onde se abandona a
mesma Linha do Tua com os seus 124 anos de história e memórias, em território
ainda em estado quase selvagem, dotado de um potencial cénico e turístico de
fazer inveja. E com ela, abandona-se a paisagem, os recursos endógenos, as
povoações e desrespeita-se a autoestima das gentes que ali vivem.
São sinais claros de uma decrepitude civilizacional de que dificilmente se recuperará. Sinais que não se ficam por aí, e que alcançam dimensão cruel com o avanço da famigerada Barragem do Vale do Tua, um dos crimes ambientais mais gravosos de que há memória no interior português. O monstro, como os ecologistas lhe chamam, aproxima-se a passos largos, preparando-se para engolir um dos paraísos mais belos do nordeste transmontano e um pedaço nobre do Douro Património Mundial. E mais uma vez também, as vozes revoltadas dos ecologistas e das populações intentam fazer-se ouvir, numa derradeira petição à UNESCO, como quem procura, desesperadamente, gastar os últimos cartuchos de uma guerra de David contra Golias. É que a albufeira vai estender-se ao longo de 37 kms, eliminando, em definitivo, todo o Vale do Tua, com os seus ecossistemas raros e as implicações na alteração no microclima e sobrevivência das espécies; mas agravada ainda pela passagem dos corredores de linhas de alta tensão sobre dezenas de aldeias a ligar a barragem à rede elétrica nacional, com as monstruosas torres metálicas, equivalentes a 25 andares, instaladas em pleno coração do Douro Vinhateiro.
E com tudo isto, no ar permanece a ameaça de a UNESCO poder cassar a classificação de Património Mundial. Dizem os estudos que a barragem apenas contribuirá com 0,1% do total nacional da energia consumida, correspondente a 0,5% da eletricidade. Pergunta-se: valerá a pena arriscar tanto para obter uma tão pequena fatia de eletricidade para o país?
São sinais claros de uma decrepitude civilizacional de que dificilmente se recuperará. Sinais que não se ficam por aí, e que alcançam dimensão cruel com o avanço da famigerada Barragem do Vale do Tua, um dos crimes ambientais mais gravosos de que há memória no interior português. O monstro, como os ecologistas lhe chamam, aproxima-se a passos largos, preparando-se para engolir um dos paraísos mais belos do nordeste transmontano e um pedaço nobre do Douro Património Mundial. E mais uma vez também, as vozes revoltadas dos ecologistas e das populações intentam fazer-se ouvir, numa derradeira petição à UNESCO, como quem procura, desesperadamente, gastar os últimos cartuchos de uma guerra de David contra Golias. É que a albufeira vai estender-se ao longo de 37 kms, eliminando, em definitivo, todo o Vale do Tua, com os seus ecossistemas raros e as implicações na alteração no microclima e sobrevivência das espécies; mas agravada ainda pela passagem dos corredores de linhas de alta tensão sobre dezenas de aldeias a ligar a barragem à rede elétrica nacional, com as monstruosas torres metálicas, equivalentes a 25 andares, instaladas em pleno coração do Douro Vinhateiro.
E com tudo isto, no ar permanece a ameaça de a UNESCO poder cassar a classificação de Património Mundial. Dizem os estudos que a barragem apenas contribuirá com 0,1% do total nacional da energia consumida, correspondente a 0,5% da eletricidade. Pergunta-se: valerá a pena arriscar tanto para obter uma tão pequena fatia de eletricidade para o país?
(AP)
in Jornal de Notícias
(6-5-2016)
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Um novo Grito do Ipiranga… porquê?
Após vir a uma das mais emblemáticas
universidades portuguesas receber um surpreendente título doutoral, Lula da
Silva, que se orgulhava de nunca ter lido um livro, não hesitou em,
publicamente, fazer desabar sobre os portugueses as culpas dos atuais atrasos
na educação no Brasil, por não terem, segundo os seus argumentos, criado
universidades no território colonizado. Uma desculpa esfarrapada, é claro,
reveladora de uma grosseira ignorância, como, de resto, já aqui tivemos ocasião
de demonstrar.
Não querendo estabelecer uma relação
direta com este rasgo desabrido do ex-presidente Lula, merece-nos, ainda assim,
grande estranheza a recente proposta do Ministério da Educação do Brasil de pôr
fim à obrigatoriedade do ensino da literatura portuguesa no país, deixando esta
de integrar a Base Nacional Curricular Comum (BNCC). Uma proposta que afastaria
das escolas brasileiras autores marcantes da lusofonia como Pêro Vaz de Caminha
(autor do texto fundador do Brasil), Camões, Gil Vicente, Padre António Vieira,
Eça, Garrett, Pessoa, entre outros, e que, para cúmulo, surge quando Portugal e
Brasil se empenham na CPLP e implementam um novo Acordo Ortográfico que exigiu
das editoras um esforço enorme na adaptação e reedição das obras dos autores
clássicos.
Mas mais estranho ainda é perceber, nos
pressupostos, equívocos que induzem a crer que o ensino estruturante e
matricial da literatura portuguesa seria uma espécie de “ruído” num novo plano
estratégico educacional brasileiro voltado para a valorização dos textos
tradicionais, da cultura popular afro-brasileira e indígena. Como se em alguma
parte do mundo esses universos ou modalidades culturais colidissem no sistema
de ensino. E como se na literatura popular brasileira, tal como em muitos dos
rituais tradicionais que a sustentam, não estivesse também o âmago de muita da
cultura tradicional portuguesa. Com a particularidade de boa parte dessa
cultura ter hoje mais força no Brasil do que em Portugal, onde muitas
manifestações já se desfiguraram ou extinguiram. É o caso, entre muitos outros,
das tradições do “Alardo”, “Cheganças”, “Congadas”, “Mouramas” “Taieiras”,
“Reisados”, “Marujadas” e “Cavalhadas”, reposições de um teatro popular com
origem medieval que continuam sendo um grande referencial lúdico e identitário
da cultura tradicional brasileira.
Alexandre Parafita
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 18-4-2016
quarta-feira, 13 de abril de 2016
O povo meteorologista
Sentenças
que ficam na memória depois de tudo o que vai esquecendo, os provérbios
condensam, por isso, saberes do povo antigo. Saberes vividos, experienciados,
testados na cosmogonia, autorizados pelo tempo. O que há então a esperar do mês
de abril? “Águas mil”, pois claro, “quantas mais puderem vir”… mas “peneiradas por um mandil”. Um mandil é o
pano grosseiro com que as mulheres transmontanas faziam os aventais. Por isso,
é bom que a chuva venha, de preferência muita e constante, mas que venha bem
doseada, de pingas mansas e finas para que penetre lentamente na terra sem destruir
os renovos.
Ou
seja, a natureza em abril faz o seu trabalho: “Por onde a água de abril passou, tudo espigou” e “a água em abril carrega o carro e o carril”
ou “abril frio e molhado, enche o celeiro
e farta o gado”.
É,
por isso, um tempo de bonança para o homem, que sempre pode ficar mais tempo em
casa, à lareira, a descansar. Daí o provérbio “em abril queima a velha o carro e o carril”. E também: “em abril, queima o velho o carro e o carril,
e a canga que ficou logo em maio a queimou” ou “em abril dorme o criado mandrião, e em maio dorme o criado e o patrão”.
Depois, é ver o resultado: “Em abril,
cada pulga dá mil”.
E
o estômago que se cuide: “Quem come
caracóis em abril, prepare a cera e o panil” (pois bem sabe este povo que
os caracóis, colhidos sob a terra enlameada, são iguaria traiçoeira).
Quanto
às geadas, nem é bom falar: “A geada de
março tira o pão do baraço e a de abril nem ao baraço o deixa ir”.
E
se estes ditames meteorológicos não se cumprirem? Então… “se não chover entre março e abril, dará o rei a filha a quem a pedir”.
Saberes
do povo. Saberes de gente sábia.
(ap)
domingo, 10 de abril de 2016
Então as bofetadas...!?
Demitido do cargo de
Ministro da Cultura por ter ameaçado com bofetadas aqueles que o criticavam,
era suposto que, agora liberto do peso da governação, portanto com as mãos
soltas, desatasse à estalada a torto e a direito, pois é imenso o exército dos
que o criticam, e que o consideram um autêntico desastre em política cultural.
Estou em crer que as mãos lhe haviam de doer de tanta bofetada dar. Mas não.
Dizem as notícias mais frescas que, após sair do governo, vai descansar para
Paris. Pois então que descanse muito por lá, e, depois do descanso, se puder,
junte-se aos nossos emigrantes a fazer (ou a aprender a fazer) alguma coisa de
jeito, já que por cá, na política ou na cultura, não se lhe reconhece jeito
nenhum. (ap)
Etiquetas:
bofetadas,
liberdade de imprensa,
Ministro da Cultura
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