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sábado, 13 de maio de 2017

A Cimeira Ibérica que aí vem


Vila Real foi a cidade escolhida para a Cimeira Ibérica agendada para os próximos dias 29 e 30. Conhecidos os fracassos das anteriores (em especial da última, em Baiona, entre Rajoy e Passos Coelho, que durou apenas três horas e não deu em nada…), é já grande o frenesim em torno desta, que promete, no mínimo, um certo esplendor mediático para Vila Real colocando-a no mapa das grandes decisões transnacionais.

Sobre a mesa, estarão seguramente temas de que já se vai falando, inscritos num chamado Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça (POCTEP). Será assim inevitável retomar o plano de mobilidade transfronteiriça com a projetada conexão ferroviária de TGV Sines-Lisboa-Badajoz-Madrid, e (quem sabe?) dar ouvidos a lóbis nortenhos que reclamam a reconversão da Linha do Douro como solução estratégica para o tráfego internacional de ligação à restante Península e à Europa além-Pirenéus. Mas estão aí também temas candentes como os projetos energéticos comuns, as emergências transfronteiriças com enfoque nos incêndios (hoje as leis proíbem que bombeiros de um país acudam a uma emergência no país vizinho se esta ocorrer a mais de dez quilómetros…), o mercado único ibérico para o turismo, a harmonização das titulações académicas…, e só por milagre é que não cairá na mesa a incontornável questão da central nuclear de Almaraz, agora que os dois governos parecem entender-se, ainda que perante a revolta persistente dos ambientalistas.


Está bem de ver que não faltarão na mesa muitos assuntos que sempre desuniram os países (e que sustentam a velha parémia: “De Espanha nem bom vento…”), mas que hoje a vontade dos homens converte em estratégias de união. Talvez por isso em cima da mesa desta cimeira, que por sinal até se realiza em terras nortenhas, não irá estar um vislumbre sequer daquilo que mais une, desde sempre, os dois povos: a cultura ancestral comum Galiza-Norte de Portugal. E era por aí que tudo deveria começar. A Euro-Região Galiza-Norte de Portugal, que procura afirmar-se numa lógica europeia nova, jamais chegará a bom porto se não tiver como âncora uma consciência de comunidade transfronteiriça sustentada no património cultural imaterial comum. Mas neste capítulo os dois governos estão claramente de costas voltadas. Apesar dos esforços que etnógrafos portugueses e galegos representados pela ONG “Ponte nas Ondas” travam há anos, Lisboa e Madrid ainda não conseguiram sequer entender-se numa coisa bem simples: a apresentação da tão almejada candidatura comum do Património Imaterial Galego-Português a Património Mundial da UNESCO. E bem podia ser agora.

Alexandre Parafita
(In JORNAL DE NOTÍCIAS, 13-05-2017)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Barro Preto de Bisalhães é Património Mundial da UNESCO!

 
O Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunido em Addis Abeba, na Etiópia, aprovou hoje a candidatura do Processo de Confeção da Louça Preta de Bisalhães como Património Mundial, no âmbito dos bens patrimoniais a necessitar de “salvaguarda urgente” pela sua particular vulnerabilidade. Apenas cinco famílias de oleiros mantêm viva esta atividade!
 
Uma decisão muito justa. Trata-se de um património único no mundo. A louça preta, produzida numa pequena aldeia do concelho de Vila Real, singulariza-se pelos processos e técnicas ancestrais usados na sua confeção e cozedura, mantendo-os desde os finais do séc. XIX; processos e técnicas que passaram de geração em geração até aos dias de hoje, resistindo sempre às contrariedades e caprichos da modernidade. O homem, a mulher e os filhos repartem as tarefas. O homem trabalha na roda e enforma a louça, a mulher e os filhos preparam o barro, abastecem de água, vão à carqueja e decoram a louça. Numa grande harmonia familiar, produzem a chamada “louça churra” (peças mais grosseiras, pouco decoradas e mais utilitárias) e a “louça fina” (bonitas peças de carácter mais decorativo).

Parabéns a todos quantos participaram nesta candidatura.
 
(AP)
 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Um São João disputado por cristãos e mouros…


O São João de Sobrado, no concelho de Valongo, que se festeja amanhã (dia 24) é único em Portugal e único no mundo. Trata-se de uma celebração enraizada na mito-história nacional, que transporta no tempo uma representação singular e simbólica das lutas entre mouros e cristãos. A simbologia dessas lutas está bem presente na ritualização que opõe, em uma guerra lúdica, os mouriscos e os bugios (cristãos) na disputa da imagem de um São João milagreiro, que uns e outros reclamam numa estranha ambição pelos seus poderes mágicos e curativos. O envolvimento popular, ao longo dos tempos, na preservação e dinamização destes rituais, e toda a riqueza lúdico-cultural que potencia, justificam bem a candidatura a Património Cultural Imaterial da UNESCO, que, esperamos, continue a ganhar entusiasmo e adeptos (AP)

domingo, 28 de dezembro de 2014

“Património Imaterial do Douro”, vol.3: o lado mais oculto e misterioso do Douro



No âmbito do III Fórum do Património Imaterial do Douro, no Museu do Douro, foi feito o lançamento da obra “Património Imaterial do Douro”, Vol.3, da autoria de Alexandre Parafita, dedicado às narrações orais dos concelhos de Sabrosa e Vila Real.

Esta obra, que resulta do plano de inventariação de Património Imaterial que o Museu do Douro tem vindo, desde 2007, a realizar, foi apresentada pelo conhecido jornalista da TSF Fernando Alves, que, sobre ela, proferiu um testemunho colorido e tocante que avivou ainda mais a curiosidade sobre o seu conteúdo. Os “Narradores da Memória”, colaboradores ativos deste projeto, estavam lá, pelo menos os que puderam comparecer fisicamente, e receberam o diploma que os certifica como habilitados a transmitirem às novas gerações a memória cultural das suas comunidades. Pela sua respeitável idade (a rondar os 90 anos) e lucidez das suas memórias, foram particularmente acarinhados o Sr. António Pinto da Lapa, o Sr. José Marques Soares (o último carcereiro de Sabrosa), o Capitão Carvalho (Raul Ferreira de Carvalho) e o Sr. António Henriques Figueiredo. Ao todo, são 19 os narradores agora diplomados, o que perfaz o número total de 45 desde o início do projeto.

            Dos seus testemunhos, pode agora conhecer-se o lado mais oculto e misterioso do Douro Património Mundial: o Douro das memórias, dos mitos, das lendas, das crenças e das inquietações das gentes que construíram, ao longo dos séculos, a paisagem duriense. Nesta obra, são revelados registos lendários de milagres, lugares de memória, crenças e superstições, atos de bruxaria e outros rituais diabólicos, inquietações de almas penadas, lobisomens, transfigurações do demónio, entre muitos outros.

domingo, 30 de novembro de 2014

III Fórum do Património Imaterial do Douro - 13 de dezembro, Museu do Douro


Num tempo de globalização, de consequências paradoxalmente homogeneizadoras e desintegradoras das identidades, a cultura da memória (dos lugares, dos rituais, do imaginário), assume, cada vez mais, um papel importante na compreensão do tempo e do espaço, num processo de construção e afirmação de uma identidade coletiva, inequivocamente aceite como estrutura de ancoragem para cada indivíduo. Da espiritualidade da paisagem, à emergência de uma interpretação mítica dos fenómenos naturais e culturais, a região do Douro é toda ela um imenso filão ativo de Património Cultural Imaterial.

O III Fórum do Património Imaterial do Douro, subordinado ao tema “Lugares de Memória, Rituais e Imaginário”, propõe-se ser mais um espaço de reflexão, debate e divulgação, com a participação de especialistas, e aberto ao público interessado (responsáveis de museus, bibliotecas municipais, bibliotecas escolares, professores, educadores, agentes culturais, autarquias, etc.). Dos seus objetivos faz parte também a atribuição do certificado de “Narrador da Memória” a 20 cidadãos do Douro, bem como a apresentação da obra Património Imaterial do Douro – Narrações Orais (Contos. Lendas. Mitos), Vol. 3, da autoria de Alexandre Parafita.

As inscrições são gratuitas. O programa e demais informações podem ser consultados aqui:



terça-feira, 11 de novembro de 2014

"Cante Alentejano" à sombra de uma oliveira com... 2451 anos!


Investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro dataram e certificaram, em 2013, esta grandiosa oliveira alentejana com a bonita idade de 2450 anos. É a segunda árvore conhecida mais antiga de Portugal. Ganha 437 anos à idade de Cristo e 870 à idade da Nação. Sobreviveu aos povos invasores, bárbaros ou refugiados, que ao longo dos séculos pisaram este chão: primeiro os celtas, depois iberos, lusitanos, celtiberos, cónios, romanos, visigodos, alanos, árabes, franceses. A todos resistiu. Como resistiu às inclemências dos tempos, graças às raízes fundas, poderosas, que criou. Raízes que são um baluarte de resistência que lhe permite ainda desafiar o futuro, exibindo, orgulhosamente, uma vasta, profícua e rejuvenescida ramagem, e, acima de tudo, uma imensa produção de azeitona que resulta num azeite de elevada qualidade. Uma bela lição de vida, para um país à deriva, envelhecido, que ignora e negligencia as suas raízes, e deixa secar a ramagem sem lhe dar condições de frutificar.
 
Como a imagem mostra, à sombra desta majestática oliveira entoa-se o "Cante Alentejano", que é candidato à classificação de Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. A prova de que tudo o que é antigo é nobre. Saibamos vergar-nos a esta nobreza!
 
AP

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ontem, 18-1-2014, no Museu do Douro: 1ªs Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial do Norte

(António Pinelo Tiza, Berta Nunes, António Martinho, Alexandre Parafita)

Em toda a região norte contam-se aos milhares os bens culturais a carecer de protecção e salvaguarda, e muitos são merecedores de constar na lista de Património Imaterial classificada pela UNESCO, tal como aconteceu com o Fado e a Dieta Mediterrânica. Entre os exemplos de Património Cultural Imaterial que merecem integrar a lista da UNESCO, é de destacar a Festa da Bugiada em Sobrado (Valongo), também conhecida pela dança dos Búgios e Mourisqueiros, inspirada numa luta entre cristãos e mouros pela posse de uma imagem milagrosa, cuja memória atravessou os séculos. Mas há também, com a mesma carga mítico-lendária, o Auto de Floripes, no concelho de Viana do Castelo, um verdadeiro tesouro da dramaturgia popular, representado nas ruas e recuperando memórias medievais de lutas entre cristãos e turcos. Lutando também por um lugar merecido na tribuna dos bens culturais classificados pela UNESCO como património mundial, há que reconhecer as celebrações da Semana Santa em Braga, com as tradicionais procissões da “Burrinha”, do “Ecce Homo” e do Enterro do Senhor, ocorridas durante a noite em cenários por vezes tenebrosos.
 
Outros bens profundamente identitários na região, mas que não usufruem da mesma dinâmica mediática, são os ritos solsticiais de inverno em Trás-os-Montes, onde são merecedores de atenção os caretos de Podence, os rituais de máscaras de Bragança e Vinhais, ou as festas dos rapazes de Torre de Dona Chama. Contudo, há ainda que encarar o património cultural imaterial profundo, esse sim em risco de extinção por força do desaparecimento dos seus intérpretes, “tesouros vivos” como lhes chama a UNESCO. Por exemplo, o Romanceiro transmontano, considerado o mais rico do mundo com muitos milhares de versões de romances conhecidas, mas também a mitologia dos castros e outras ruinas, o lendário das paisagens, a toponímia popular, os lugares de memória, os cancioneiros do Douro e Minho, a medicina e religiosidade popular, os saberes tecnológicos de artesãos, tanoeiros, construtores de barcos rabelos, cesteiros, moleiros. Infelizmente, quando se trata de lançar mãos de bens culturais a classificar chegam-se sempre à frente os “lóbis políticos”, na ânsia dos holofotes mediáticos, e que pouco ou nada se preocupam com os riscos que corre o património imaterial profundo, que se extingue de ano para ano com o desaparecimento dos seus intérpretes.
(Alexandre Parafita)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A lenda das “Bexigas de São Lázaro”


(foto de: Virgílio Gomes)
 
Num tempo em que a gastronomia e doçaria tradicionais merecem atenções reforçadas como bens intangíveis de Património Cultural Imaterial, e com o Natal à porta a requerer cada vez mais criatividade das doceiras e doceiros domésticos, porque não ressuscitar as já esquecidas “Bexigas de São Lázaro”?

É um doce que a tradição reconhece como originário de Vila Real. E para isso, aí está a lenda que alguns recordam ter ouvido assim: Conta-se que no tempo das epidemias, a doença das “bexigas” [designação popular dada à varíola] matou muita gente em Vila Real e arredores, mas poupou os moradores do Bairro dos Ferreiros, que eram muito devotos de São Lázaro, protetor contra o mal das “bexigas”, cuja imagem veneravam na antiga capela de Santa Margarida. Desde estão, esta capela passou a ser conhecida como capela de São Lázaro, e os devotos passaram a levar-lhe como oferendas uns doces que se apresentam com forma funda a imitar a cicatriz que a doença das “bexigas” deixa no rosto das pessoas. Os doces ganharam, por isso, o nome de “Bexigas de São Lázaro”.

E, embora tal explicação seja pouco sugestiva para o apetite, o certo é que, quem olha e quem prova estes biscoitos, dificilmente lhes resiste. Aqui fica a receita, recolhida da tradição e divulgada há poucos dias pelo gastrónomo transmontano Virgílio Gomes:
 «Necessitamos de cento e vinte e cinco gramas de açúcar, duzentos e vinte gramas de farinha, cinco centilitros de água, a raspa de um limão e um pouco de azeite. Amassa-se tudo muito bem até conseguir uma massa uniforme. Forma um rolo com esta massa e cortam-se às rodelas com três centímetros de espessura. Prepara-se um tabuleiro de ir ao forno com um pouco de azeite e colocam-se os nossos discos de massa. Depois dá-se uma dedada no meio de cada disco que simbolizará a representação da “bexiga”. Vai ao forno aquecido a cento e oitenta graus, durante cerca de vinte minutos. Seguidamente, depois de retirar do forno devem arrefecer. Põe-se ao lume um recipiente com dez colheres, de sopa, de açúcar e uma colher de sopa de água até que comece a ficar um branco espesso e agarrar as paredes do recipiente. Depois pincelam-se as “bexigas” com este preparado que seca rapidamente. Para terminar a receita é necessário ainda colocar ao lume duzentos e cinquenta gramas de açúcar com cento e noventa mililitros de água e ferve durante um minuto. De seguida mergulham-se as “bexigas” nesta calda e escorrem-se sobre uma rede»

Alexandre Parafita
 
 
 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Hoje, o Dia Nacional do Património Cultural Imaterial


Não está ainda instituído como tal, mas o dia de hoje (27 de novembro) deverá ser assumido como o Dia Nacional do Património Cultural Imaterial, conforme proposta da APSPCI, assinalando-se o aniversário da consagração do Fado como Património da Humanidade pela Unesco. Mas não basta que seja apenas uma data para evocar o Fado no seu pendor identitário do país, até porque o fado não está em crise e muito menos em perigo, e não falta quem o proteja. Deverá ser, acima de tudo, uma data para evocar o património imaterial profundo, intangível, ameaçado, desprotegido.

O Património Cultural Imaterial (PCI), que temos vindo a definir como «todo o conjunto de manifestações e expressões de natureza intangível que têm a memória oral como meio de preservação e de transmissão, engloba, por isso, não só o campo “esmigalhado” da literatura popular de tradição oral (lendas, mitos, contos populares, romanceiros, cancioneiros, quadras, autos populares, excelências, parémias, apodos, adivinhas, rimas infantis, orações, rezas, responsos, fórmulas de superstições e de mezinhas, esconjuros, pragas e maldições, agouros ou profecias, orações com escárnio, galanteios, pregões, chamamentos de animais…), como também todo o universo de saberes e vivências da cosmogonia popular, tais como os falares regionais, os ritos e as festas, os jogos, as danças, os saberes do artesanato, da culinária e medicina popular, dos trabalhos rurais e marítimos, a mitologia popular, a etiologia dos lugares de memória, etc.» (cf. Património Imaterial do Douro, 2007, p. 11).

Celebrar o PCI é, acima de tudo, celebrar a identidade cultural de um povo reconhecendo a importância que ela representa como um motor de resistência, como um fenómeno de contracorrente perante a poderosíssima energia homogeneizadora da globalização ao acelerar o declínio da ideia tradicional do estado-nação. Cada vez mais devemos ter a noção de que, sem o aconchego da identidade e da memória, sem um quadro de referências sólidas e respeitáveis, as novas gerações viverão dramaticamente desamparadas num mundo global complexo, um mundo de errâncias depressivas e angustiantes.

Alexandre Parafita
 

sábado, 16 de novembro de 2013

As pronúncias do vento em Trás-os-Montes

 
 (Foto de J.B.César)
 
As zonas mais a nordeste de Trás-os-Montes entraram agora num longo período agreste, frio, ventoso, os tais “nove meses de inverno” que sucedem aos “três de inferno”. E ai de quem não tenha uma boa lareira à mão de semear! (“a fome e o frio metem um homem em casa do inimigo”), sendo certo que o povo, esse, está sempre prevenido: “Ande o frio por onde andar, antes do natal cá vem parar”.
 
E quanto aos ventos? Nada melhor que conhecer-lhes as linguagens. E o povo bem as conhece: “Com o vento de feição não há má navegação”, tal como, se a aurora está ruiva, ou traz vento ou traz chuva” e quando o vento vem do mar na noite de S. João, lá se vai verão. E outras verdades imbatíveis: Com o vento se limpa o trigo, e os vícios com castigo ou amigos de ocasião são como o bom tempo, mudam com o vento”.
 
A própria direção dos ventos é objeto de sugestivas cautelas e interpretações, pois bem se sabe que o vento tanto junta a palha como a espalha” e “lugar ventoso, lugar sem repouso”. E se ele vem de todos os lados? Então é pior: “Vento de todo o lado é mandado p’lo diabo”.
 
Por isso, o povo transmontano distingue os ventos, conforme a sua intensidade e predominância: Vento de Noroeste, Vento de Norte, Vento de Nordeste, Vento de Nascente e Vento de Sudoeste.
 
O Vento de Noroeste é também conhecido como “Vento de Lomba”, em atenção ao nome da serra de onde provém. Embora não seja o pior de todos, o povo qualifica-o assim: “Vento de Lomba, frio na tromba”.
 
O Vento de Norte é conhecido por “Vento Galego”. Quando ele predomina, costuma o povo dizer: “Parece que pariu a galega”. É pior que o anterior (“Vento norte, três dias forte”) e é também este que sustenta o famoso provérbio “De Espanha, nem bom vento nem bom casamento”.
 
O Vento de Nordeste é chamado “Vento Cieiro” por ser muito frio e seco. Vem dos lados de Vinhais, em especial da Serra de Montesinho, que em Janeiro se cobre quase sempre de neve. Diz o povo: “Vento de Janeiro, vento cieiro”. As pessoas quando se expõem demasiado a esse vento ficam com cieiro nos lábios e nas mãos, daí o nome que lhe dão. É mais frio que o Vento de Noroeste, o tal de Lomba, e por isso também há quem diga: “Vento de Lomba, frio na tromba, mas se é de Vinhais ainda é mais”.
 
Por sua vez, o Vento de Nascente, conhecido igualmente por “Vento de Bragança”, não é menos ruim que os anteriores (“Vento de leste não traz nada que preste”). Queima os renovos por onde passa. Diz o povo: “De Bragança vêm os travessios”.
 
Quanto ao Vento de Sudoeste, também conhecido por “Vento de Vilartão”, dada a localização geográfica desta aldeia, já não é tão gélido como os outros, mas é mais húmido (“Água de vento traz meio sustento”). Por isso se diz: “Vento de Vilartão, água na mão”, e noutras paragens “Vento suão cria palha e grão”.
 
Tanta coisa se pode aprender com este povo. É preciso apenas subir uns degraus para ficar ao seu nível.
 
(Bibliografia: PARAFITA, A.; et al. – Os Provérbios e a Cultura Popular, V.N.Gaia, Gailivro, 2007)
 
Alexandre Parafita 


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Do cerejo ao castanho bem me amanho…

 
De novo os provérbios, essas fórmulas mágicas que tanta sabedoria acumulada transmitem. Saberes do povo, saberes marcantes do dia a dia rural, da economia e organização domésticas. Agora, que o outono vai crescendo, crescem as preocupações com o equilíbrio e a sobrevivência dos lares, os gastos caseiros, o sustento e rendimento dos animais.

Diz o povo, “com a vinha no outono, engorda a cabra, o boi e o dono”, que o mesmo é dizer: “Do cerejo ao castanho bem me amanho; do castanho ao cerejo é que me vejo”. Quando se dependia de colheitas próprias, e não havia o fluxo de bens de consumo dos dias de hoje, entrava-se agora num tempo de pesadelo, sobretudo quando os tempos vinham trocados. Já poucos o recordam, por isso os provérbios vão sendo cada vez mais peças arqueológicas. E para entendê-los, tantas vezes só recuperando os contextos. Esses contextos de angustiosa inquietação que os meios rurais tão bem conhecem.

“Quem não tem carro nem bois, ou antes ou depois”. Aqui se identifica uma situação objetiva da vivência e organização rural: aquele que não possuir nem carros nem bois (os bois para puxar o carro mas também para lavrar as terras), estará sempre dependente dos outros. Apenas poderá usar tais equipamentos quando aos vizinhos não fizerem falta. Terá de ajustar o seu ritmo de trabalho aos eventuais “vazios” da rotina dos vizinhos, arriscando-se a não conseguir nunca realizar as tarefas em tempo útil. Por isso, deverá tudo fazer para arranjar os seus próprios apetrechos, tornar-se autónomo, e não permanecer na dependência dos outros. ~

São estas as lições que nos chegam do povo antigo, mas que assentam como uma luva em toda a dimensão dos tempos que correm.

(Bibliografia: PARAFITA, A.; et al. – Os Provérbios e a Cultura Popular, V.N. Gaia, Gailivro, 2007)
Alexandre Parafita
 

sábado, 2 de novembro de 2013

Se és alma do outro mundo, diz ao que vens!


Muitas tradições se vão perdendo em Trás-os-Montes! É o caso daquela que é conhecida como a festa do “pau das almas”. Os rapazes na manhã do feriado de 1 de novembro (dia de todos os santos), iam ao monte cortar e apanhar um carro de lenha, que à tarde era leiloada no adro da igreja, sendo a receita aplicada no dia seguinte (dia de fiéis e defuntos) na celebração de missas e ofícios em memória das almas do Purgatório. Mantém-se ainda o “pão das almas” e o “pão do defunto”. O primeiro é uma esmola distribuída, no dia dos fiéis e defuntos, aos pobres que se concentram à porta do cemitério a rezar pelas almas do Purgatório. O segundo é uma última refeição que o falecido “oferece” às pessoas que se incorporaram no seu funeral, em jeito de agradecimento pelas preces de cada um, que “o ajudarão a tornar mais leves as suas penas no Além”.
Em muitas aldeias persiste a crença nas “procissões das almas”, um desfile macabro, que sai à meia-noite do adro da igreja e percorre, de cruzeiro em cruzeiro, as ruas e caminhos da povoação. Esta procissão anuncia a morte próxima de um vizinho. Crê-se também que as almas surgem aos vivos, sob formas diversas (gritos, suspiros, gemidos, redemoinhos, animais…), em apelo pelo cumprimento de preces e promessas não cumpridas. E que os vivos, perante tal visão, devem fazer o sinal da cruz e dizer: “Se és alma do outro mundo, diz ao que vens; se és o demónio, vai bater a outra porta”, ou então: “Se és alma do outro mundo, diz ao que vens; se não és, vai para o raio que te parta!”

(Fonte: PARAFITA, A. – O Maravilhoso Popular, Lisboa, Plátano Editora, 2000)

Alexandre Parafita

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Duas albardas?!

[O povo com a sua visão pragmática da política…]
 
 

«Nessas grandes quintas do Doiro, havia antigamente os criados, alguns deis até iam daqui, e que faziam o trabalho do dia a dia, e havia os feitores que só lá estavam pra dar as ordens, a mando dos patrões. Acontece que alguns desses feitores eram ruins, e faziam a vida negra aos criados. Por isso, numa ocasião andava no seu trabalho um criado muito preocupado, a rogar pragas e a lamentar a sua sorte, pois estava pra vir um novo feitor, e ele com medo que inda fosse pior qu’ó anterior.

– Estemos mal. Vamos ter um novo feitor, manda-nos fazer isto, òspois aquilo, òspois isto, òspois aquilo, vai ser o bonito...!

Ao pé dele, a ouvi-lo, estava o burro, e, de tanto o ouvir, estava também ele já preocupado. Até que lhe prècurou:

– Olha lá, será que o feitor que está pra vir me vai pôr duas albardas?

– Não, duas albardas não!

– Então quero lá saber! Ele que venha, que a mim tanto se me dá!»
 
 
___________________ 
Mais um conto popular, recolhido ontem (7-8-2013) em Ermelo, Mondim de Basto. Recoletor: Alexandre Parafita. Narrador: Agostinho Barreira (o tio Agostinho das Cabras), 79 anos (na foto).

quarta-feira, 26 de junho de 2013

São estes rostos, são estas vozes…



É urgente que o povo fale nos seminários, nos workshops! São estes rostos, são estas vozes, que mantêm vivo o património cultural imaterial profundo! É urgente reconhecer como válida a universidade que frequentaram: as aulas que tiveram de Economia Aplicada nas tornageiras e vezeiras, nos maninhos, partilhas de água, nas roldas dos moinhos; as aulas de Lógica e Retórica nos fiandeiros, na hermenêutica das celebrações rituais; as aulas de Semiótica das Linguagens na sinfonia dos campos e dos bosques; as aulas de Epistemologia das Ciências Experimentais nas rotinas eco-telúricas do minguante ao crescente; ou as de Metafísica e Filosofia da Estética na efemeridade comovedora do pôr-do-sol, no belo-horrível das tempestades, dos ritos de morte, na espiritualidade das crenças, ou no silêncio diáfano da solidão das montanhas.
 
 Agradeço às senhoras Maria Elisete Ferreira (de Sendim, Tabuaço), Maria Lurdes Ala (de Vilas Boas, Vila Flor) e Maria Alice Silva (de Dadim, Chaves) as suas belas lições de cultura imaterial que continuam a ecoar-me na mente.
 
A arte de saber ouvir é a antecâmara do conhecimento.
A.P

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Colóquio Internacional de Cultura Popular


Vai realizar-se no Auditório Municipal de Boticas, de 6 a 8 de Junho próximo, o Colóquio Internacional de Cultura Popular, organizado pela Câmara Municipal. Alexandre Parafita, convidado pela organização, apresentará no dia 8 (sábado), pelas 10h, a palestra:

Património Imaterial e Cultura Popular: Textos e Contextos

quinta-feira, 28 de março de 2013

Rituais da Semana Santa: aldeias e vilas transmontanas voltam ao passado medieval

"Sete passos" (foto do Jornal Nordeste)

1 – Um pouco por toda a região transmontana, as tradições da Semana Santa apresentam-se preenchidas com rituais cristãos e pagãos, que representam, em muitos cenários, um claro regresso a ambientes medievais. Às vias-sacras, endoenças, autos da paixão e procissão dos “sete passos”, juntam-se as queimas do judas, o enterro do bacalhau, a corrida dos rapazes aos sinos, entre outras.
2 – As tradições dos ovos e coelhos da Páscoa, bem enquadradas no espírito consumista dos nossos dias, nada têm a ver com as raízes nacionais. São importadas de outras culturas, com reminiscências pagãs, associadas ao culto da fertilidade, sem origens definidas, que tanto podem vir da Europa Oriental como da China. Em Portugal, sobretudo em Trás-os-Montes, a tradição gastronómica incide sobre a confecção dos folares. São particularmente famosos os de Vinhais e de Valpaços. Após o prolongado jejum da quaresma, os folares da Páscoa aparecem recheados das melhores carnes que, ao longo de semanas, estiveram escondidas e arredadas das mesas dos camponeses.
  
3 – Quanto aos autos da paixão, as endoenças, as vias-sacras ou a procissão dos “sete passos”, traduzem cenários de luto, de reflexão dolorida, expressos dos tons roxos e negros das celebrações. Algumas aldeias ainda conservam as 14 cruzes, ou cruzeiros, que representam as 14 estações que a via-sacra cumpre simbolizando o calvário de Cristo a caminho da crucificação.
4 - A tradição dos “sete passos” mantém-se em Freixo de Espada à Cinta como caso único no país. Embora seja mais intensa na Sexta-Feira Santa, trata-se de um ritual de raízes medievais que tem lugar em todas as sete sextas-feiras quaresmais. Num cenário bem ao jeito de um filme de terror, em plena escuridão, dois homens encapuçados de negro, ao soarem as badaladas da meia-noite, lançam ruidosamente sobre as lajes de granito do átrio da igreja correntes de ferro que prendem nas pernas e arrastam pelas calçadas das ruas produzindo barulhos estridentes e assustadores. O ritual prossegue com a saída de uma “velhinha” vergada sob um negro manto e capuz, transportando numa mão uma lamparina de azeite e na outra um cajado em que se apoia, bem como uma bota de vinho com a qual vai dando de beber aos populares que se ajoelham à sua passagem e devotamente o solicitem, pois a vinho é o símbolo do sangue de Cristo derramado. O cenário é ainda acompanhado por grupos de cantadores que junto aos cruzeiros entoam melodias angustiosas, próprias de ambientes lúgubres medievais.
 
5 – Por sua vez, mais comuns em Trás-os-Montes, os autos da paixão, enquanto representações de teatro popular, que narram os últimos dias de Cristo, desde a traição até à morte e deposição na cruz, envolvem cerca de quarenta figuras humanas recrutadas no seio do povo, muitas delas pessoas idosas e iletradas, pelo que conservam na memória, durante décadas e décadas, os dizeres das personagens que encarnam. Alguns dos seus papéis eram, outrora, desempenhados com tal emoção e realismo, que, no ato de agredir ou chicotear, as vítimas chegavam a sair em braços e ensanguentadas de verdade das respectivas cenas, havendo ainda casos em que os atores ganhavam, pela vida fora, as alcunhas dos papéis que representavam, como por exemplo, Cristo, Judas, Caifaz, Pilatos, Fariseu ou Diabo.
6 – No concelho de Vinhais, a vida dos camponeses muda radicalmente a partir de Quinta-Feira Santa. Na aldeia de Espinhoso, ao meio dia toca o sino e as pessoas param por completo de trabalhar mal ouvem soar a primeira badalada. Com exceção dos mínimos afazeres domésticos, ninguém trabalha na aldeia até sábado à mesma hora. Durante este período, há um homem que corre o povo tocando matracas, em substituição dos sinos, para chamar as pessoas à via-sacra. Finalmente, ao meio-dia de sábado voltam a tocar os sinos e a aldeia regressa à vida normal. De assinalar também que, nesse período de tempo, as pessoas mais idosas não se penteiam (porque podem “arrepelar Nosso Senhor”), não cozem pão porque dizem que aparece sangue na massa ou nas broas (é o “sangue de Nosso Senhor”), não lavam a roupa porque dizem que aparecem manchas de sangue nos panos (as “chagas de Nosso Senhor”).

7 – Em Vinhais está também muito viva a tradição das endoenças, um ritual carregado de emoção, especialmente quando narra a procura desesperada de Cristo por Nossa Senhora, ora seguindo pelas ruas o seu rasto de sangue, ora perguntando a uns e outros se alguém o viu.
 
8 – No Sábado de Aleluia, à meia-noite, havia outrora a tradição de os rapazes correrem a tocar os sinos das igrejas, que quebravam o silêncio quaresmal. Até então, os toques dos sinos eram proibidos, sendo substituídos por pungentes matracas de madeira e arame, que emitiam sons ritmados, com as quais um mensageiro percorria as ruas apelando ao recolhimento, à reflexão e à oração. A retomada do toque dos sinos à meia-noite de sábado era disputada pelos rapazes, na crença de que o primeiro que tocasse o sino seria recompensado na descoberta dos ninhos das melhores aves, especialmente a perdiz, o que, noutros tempos, era algo muito cobiçado.
 
9 – Em Montalegre, mantém-se viva a Queima de Judas, no Sábado de Aleluia. A Câmara Municipal organiza um concurso para melhor mobilizar a população. Mas esta tradição é igualmente ativa noutros pontos do país: Palmela, Azeitão, Vila Nova de Cerveira, Matosinhos, Santa Comba Dão, Tondela, Viana do Castelo, Vila do Conde, Maia, Travassô, Milheirós de Poiares, Ponte do Lima, entre outros. Nela se representa o julgamento de Judas Iscariotes, por ter traído Cristo por trinta dinheiros. O povo, armado de tochas, aguilhadas e outros meios, aguarda os momentos da acusação e defesa, a leitura da sentença e, por fim, participa no castigo fatal investindo sobre um sinistro boneco que se incendeia ou explode. Este castigo simboliza a expiação dos pecados do mundo e o fogo tem um carácter simbólico de purificação.
10 – As queimas do Judas, assim como o Enterro do Bacalhau, representam impulsos eufóricos de catarse e libertação perante os constrangimentos quaresmais. Em Vila Real, a tradição do “Enterro do Bacalhau” é um ritual que responde a outros “enterros”, de sentido inverso, outrora frequentes na região transmontana (enterro do galo na quarta feira de cinzas, enterro do Entrudo…). A tradição do enterro do bacalhau é hoje especialmente praticada na localidade de Constantim, nos subúrbios de Vila Real. Noutros tempos, era toda a cidade a vibrar com o ritual. Um bacalhau enorme feito de cartão seguia escoltado por militares e era julgado perante carrascos, juízes e advogados, tendo, como testemunhas de defesa, os marçanos das mercearias e, de acusação, os empregados dos talhos. O castigo a incidir sobre o bacalhau simboliza a libertação dos constrangimentos da Quaresma, que não permitia o consumo de carne. A partir do Sábado da Aleluia, dia da celebração, já o povo deixa de estar limitado ao consumo de peixe e festeja assim o regresso da carne.
 
11 – Por fim o Domingo de Páscoa. Nos meios rurais transmontanos mantém-se a tradição do compasso, traduzida num cortejo presidido pelo pároco que visita as casas dos fiéis dando a cruz a beijar e aspergindo com água benta os compartimentos. A carência de sacerdotes tem levado a que muitas aldeias festejem no domingo seguinte a Pascoela, que será a derradeira oportunidade de verem o compasso a entrar nas suas casas. Em Vinhais, após o compasso, há o hábito de todas as pessoas se visitarem mutuamente. É uma prova testemunhal de amizade e solidariedade. Saúdam-se, provam os folares, bebem licores e jeropiga.
Alexandre Parafita
Lisboa, Âncora Editora, 2012)
 

domingo, 10 de março de 2013

Março marçagão

  
Este fim de semana, com os temporais de tornados e trovões a eclodir por todo o lado, é bem a prova acabada de mais um março marçagão, invariavelmente traiçoeiro: “de manhã cara de cão, ao meio dia cara de rainha, à tarde cara de fuinha e à noite corta como a foicinha”. Não é em vão que o povo do Douro vai dizendo que o “março é merceeiro e tão falso com´ó fevereiro”.
Do fevereiro, a gente já sabia que é velhaco. Afinal, “matou a mãe ao soalheiro”. Em Sabrosa, conta-se que a pobre velhinha, mãe do dito, ao olhar pela janela e, vendo o sol a raiar, perguntou ao filho:
– Olha lá, ó fevereiro, hoje não mandas chuva?
– Hoje não – diz ele. – Hoje mando uma ressa de sol.
Ela então pegou na roca e no fuso e foi para o soalheiro fiar. Nisto, o safado mandou vir uma forte saraivada, e a pobre, como era velhinha, não teve tempo de fugir e morreu ali mesmo. Assim se conta em Sabrosa. Mas em Vinhais conta-se mais. Ouvi a um idoso de Espinhoso que o fevereiro fez vir uma ressa de sol e mandou a mãe ao monte nua. A seguir, mandou uma saraivada e matou-a. Por isso, diz o povo que “o fevereiro é velhaco e traiçoeiro” e que “fevereiro quente traz o diabo no ventre”. Também me contou o mesmo idoso de Espinhoso que, uma velha, já farta do fevereiro, ao chegar a 28, disse-lhe:
– Vai-te embora, maldito fevereiro, que só me deixaste um cordeiro!
E ele:
– Andá lá, anda, que ainda aí vem o meu irmão março que não te deixará nem cordeiro nem farrapo!
Como de facto. O março aí está a fazer das suas. E daí que o povo diga: “O março leva a ovelha e o farrapo e o pastor se é fraco; e o cão escapará ou não”. Mas saiba-se também que, antes de partir, ainda deixa ficar as suas ameaças. Contou-nos o nosso bom amigo e narrador de Espinhoso que, ao aproximar-se o fim do março, uma velha foi-se a ele e disse-lhe:
– Vai-te março marçagão, que ainda me deixas a minha vaca e o meu bezerrinho são!
E ele respondeu:
– Cala-te, velha, que com os três dias que ainda tenho e mais três que me empresta o meu irmão abril, ainda te faço andar com o bezerrinho ao quadril!
 
A gente ouve o povo dizer estas coisas, e só pode mesmo é vergar-se perante tanta sabedoria.

Alexandre Parafita 

Bibliografia:
Gailivro, 2007

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Tradições do Entrudo em Trás-os-Montes

[Os caretos e um facanito]

As festas do Entrudo fazem parte de um tempo excepcional e têm uma função transgressora, libertadora e, em muitas circunstâncias, iniciática. Trata-se de um tempo limitado mas intenso, em que tudo é permitido, um tempo de ruptura das proibições, um tempo de violação ritual, que se opõe aos “constrangimentos” da Quaresma que se avizinha. Em Trás-os-Montes, o que de mais genuíno perdura das tradições de Entrudo, são os desfiles diabólicos de “caretos”, “matrafonas” e “facanitos”, assim como as leituras de “testamentos” (ou “papeladas”), os “julgamentos públicos” e as “pulhas casamenteiras”.
 
O Entrudo procede do latim “introitus”, que significa entrada. Por isso, representa a entrada na Quaresma, ou seja, a despedida dos excessos e dos prazeres da carne (de onde veio a moderna designação de “Carnaval”), o que confirma bem o apurado sentido cristão da sua génese, ainda que o vejamos, como festa popular, inteiramente dominado por rituais pagãos. Esta “despedida da carne”, que se festeja um pouco por todo o mundo em múltiplas manifestações consoante a idiossincrasia e o ímpeto catártico dos povos, vemo-la em algumas aldeias transmontanas assumir um carácter muito singular, revestindo um fenómeno antropologicamente assaz valioso.

A tradição dos “caretos”, tal como ocorre em Podence, Macedo de Cavaleiros, é bem o espelho desse fenómeno. E é de todas a mais ativa. Os rapazes, com os seus fatos de franjas de cores garridas, feitas de linho e lã nos velhos teares da aldeia, com máscaras de lata e chocalhos à cintura, percorrem num frenesim “eléctrico” todos os cantos da aldeia, entram e saem pelas janelas das casas e alpendres, trepam aos telhados, em busca das raparigas solteiras que arrastam para a rua ensaiando com elas rituais eróticos. Estas, caso não queiram entrar neste “jogo” só têm uma solução: vestem-se de “matrafonas” (mascaradas como eles) e saem também para a rua, onde estarão imunes às investidas dos moços. O cortejo completa-se com os “facanitos”, ou seja os mais pequerruchos da aldeia que, mascarados de trasgos ou mafarricos, acompanham os demais, cumprindo, também eles, o seu próprio ritual de iniciação e garantindo, ao mesmo tempo, a continuidade da tradição.

 Não menos singular é o mito/rito do Entrudo em Santulhão, Vimioso, conhecido como “julgamento do Entrudo”, onde se posicionam o “Anunciador”, o “Entrudo” acompanhado pela mulher e filhos, depois os “Advogados” de acusação e defesa e, por fim o “Juiz” exibindo o “livro das leis”. Esta alegorização do Entrudo e do seu clã familiar visa responsabilizá-los pelas desgraças do inverno, especialmente os males agrários, pelo que o ritual do julgamento representa, simultaneamente, o seu esconjuro e a purificação da comunidade, que assim entrará, com outro ânimo, num novo ciclo produtivo. Daí que, lavrada a sentença pelo juiz, os bonecos de palha, simbolizando as figuras a esconjurar, sejam queimados na praça pública perante a azáfama do povo.

Pela firmeza intemporal de algumas destas manifestações, há nelas, claramente, uma herança diluída dos velhos ritos romanos em honra do deus Saturno, o deus da agricultura. Nessas celebrações (conhecidas como “Saturnais Romanas” ou “Saturnálias”), era permitido que o poder dos senhores passasse provisoriamente para aqueles que faziam produzir os campos: os escravos. Era um tempo de inversão, prazer e exagero, em que estes passavam a ser livres, nas palavras e nas ações, podendo expor publicamente os seus senhores, criticando-os e pregando-lhes partidas.

Na região transmontano-duriense, com a mesma expressão, ou expressões similares e afins, os ritos expurgatórios que definem o Entrudo são comuns a muitas outras zonas, como sucede com os caretos de Vila Boa de Ousilhão, os Caretos aos Pares (compadres e compadres) de Lazarim, os Diabos, a Morte e a Censura em Bragança, a Morte e os Diabos de Vinhais, os Testamentos ou Papeladas em Espinhoso, as Pulhas Casamenteiras em Mogadouro, entre muitos outros.
Bibliografia:
PARAFITA, A – Antropologia daComunicação,
Lisboa, Ancora Editora, 2012

Alexandre Parafita

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Turismo de Contos e Lendas

 
[O projeto premiado queria pôr a "falar" estes penedos]
 
Em fevereiro de 2009, o Douro Alliance, encerrou o concurso Laboratório de Ideias & Projetos, destinado a premiar as ideias mais inovadoras para o Douro, declarando como vencedor, na área da Cultura, o Projeto “Roteiro dos Lugares de Memória – Turismo do Imaginário”. Trata-se de um projeto com várias páginas de ideias, sugestões, atividades, consolidação de inventários, etc, “(…) apoiado nos registos lendários, com vista à implementação de um sistema de Turismo do Imaginário capaz de valorizar uma franja do património cultural ainda pouco conhecida no Douro”. (Cf. http://www.mdb.pt/noticia/1327)
Finalmente, alguém na região do Douro resolveu avançar com aquilo que o Douro Alliance não conseguiu (ou não quis conseguir): o Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro (AECT) acaba de anunciar a criação de uma nova marca turística, designada «Turismo de Contos e de Lendas». “O objetivo é criar uma marca chapéu que ajude a potenciar um novo conceito turístico, a ser aplicado na região de fronteira, tendo como base os contos, as lendas e as narrativas dos povos desta região ibérica”. (Cf. http://www.diariodetrasosmontes.com/noticias/complecta.php3?id=20096)
O que agora se espera e deseja é que o projeto anunciado pelo AECT se concretize com sucesso, na expectativa de ver satisfeito, pelo menos, o sentido do projeto original: rigor e dignidade para o Património Cultural Imaterial e reforço da autoestima das populações.
Alexandre Parafita

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Lenda das Ganchas de S. Brás

 
                       
            Nos dias de hoje e de amanhã (3 de fevereiro) celebra-se em Vila Real a tradição popular do S. Brás, que se traduz no comércio e oferta das famosas ganchas de caramelo com a forma do báculo do santo. Manda a tradição que, nestes dias, as raparigas peçam uma destas ganchas aos rapazes em retribuição da oferta do “pito” que lhes terão feito no dia de Santa Luzia (os “pitos de Santa Luzia” são igualmente famosos como doçaria típica de Vila Real). E no percurso para a Vila Velha, onde está o altar da S. Brás, costumavam recitar:

                         Eu vou ó S. Brás,
                        De cu ó pa trás,
                        Pedir uma gancha
                        Pró meu rapaz”.

             Note-se como a expressão popular “de cu ó pa trás” não é alheia a um ritual ainda mais antigo, e hoje extinto, praticado na Vila Velha, onde as mães levavam os filhos a dar voltas à igreja de S. Dinis, às arrecuas e sem abrir a boca, para curarem ou prevenirem neles males de garganta. E tudo isto tem raízes na “Lenda de S. Brás e da espinha de peixe”, segundo a qual uma mãe, desesperada ao ver o seu filho a afogar-se por ter uma espinha de peixe atravessada na garganta, foi pedir socorro ao santo. Diz o povo que S. Brás, diante do menino, limitou-se a fazer o sinal da cruz, ficando a criança logo curada.
 

Alexandre Parafita