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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Falar de Agustina é falar de um génio!



Mas os génios também partem. E, tratando-se de Agustina, uma mulher do Douro, uma mulher do mundo, com ela parte também um pouco de nós. Partiu hoje, 3 de junho, com 96 anos.

A última grande homenagem em vida foi-lhe prestada, há meio ano, pela UTAD, que lhe atribuiu o Doutoramento Honoris Causa (foi a primeira mulher a receber tal título pela Universidade). Honro-me de ter feito parte da Comissão de Homenagem.

Eternamente grato pelo muito que aprendi nas páginas dos seus livros, hei de curvar-me sempre perante a sua memória.


(ap)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Envelhecer de mão dada com um robô…


Já não há estudos académicos que nos possam surpreender. As sociedades desenvolvidas estão, de facto, a tornar-se sociedades envelhecidas. O aumento da esperança de vida em conjugação com a queda da natalidade apresenta-nos um cenário real, irrefutável, de envelhecimento da população. Em Portugal as projeções indicam que em 2060 existirão três idosos para apenas um jovem, numa esperança média de vida de 81 anos. Metade da população terá mais de 65. Este aumento exponencial da população idosa, acompanhado pela diminuição desmesurada da população jovem ativa (seja pela baixa natalidade, seja pela crescente emigração dos jovens face à escassez de oportunidades no seu país), leva, já hoje, a questionar sobre quem no futuro prestará os cuidados necessários aos idosos. Quem os acomodará na sua velhice, tal como eles o fizeram, antes, com os seus idosos? Haverá sequer mão-de-obra especializada suficiente?

Foi certamente com o desassossego posto nesta visão prospetiva dos idosos da sociedade do futuro que o jovem Leonel Crisóstomo, estudante da UTAD, deitou mãos à obra e, com o auxílio dos seus professores, desenvolveu uma aplicação informática que permite a um robô auxiliar os idosos em algumas das suas funções essenciais. Por exemplo, na toma correta da medicação. Os testes foram aplicados com sucesso em dois lares de Vila Real. O robô usa o seu sistema de locomoção para se movimentar até ao idoso e, através de visão por computador, deteta a embalagem de um medicamento e identifica a pessoa que o deve tomar no horário correto. Eficácia total.

A Dona Adelaide, muito lúcida nos seus 89 anos, primeiro olhou-o desconfiada (um “extraterrestre” aqui ao meu serviço?!). Depois, com um leve sorriso, acariciou-o numa cumplicidade afetuosa.

in Jornal de Notícias, 8-5-2019

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

João David Pinto Correia: a mágoa de ver partir o mestre



Portugal viu partir ontem, aos 79 anos, em Lisboa, vítima de AVC, o Professor Doutor João David Pinto Correia, notável escritor, poeta, ensaísta e académico. Reconhecido aquém e além-fronteiras, com obra científica proeminente no seu ramo do saber, João David destacou-se nos estudos de Literatura Oral Tradicional, com inúmeras obras publicadas, na continuação dos grandes especialistas como Viegas Guerreiro, Leite de Vasconcelos, Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso.

Natural do Funchal, esteve ligado à história da Universidade da Madeira, de cuja Comissão Instaladora foi presidente, embora a sua carreira académica decorresse na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se aposentou como professor associado. Aí dirigiu a Revista Lusitana – 2ª série e presidiu ao Centro de Tradições Populares Portuguesas Viegas Guerreiro.

Exerceu igualmente funções docentes na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no curso de mestrado em Literatura para a Infância.

Particularmente sentido com esta perda, vejo partir, para além de um grande amigo e companheiro, um dos grandes mestres que tive na minha formação académica e científica. Foi meu coorientador de Doutoramento (com o Prof. Fernando Moreira, do DLAC-UTAD), prefaciou o meu livro “O Maravilhoso Popular” e chamou-me para o acompanhar em inúmeras conferências.

Partilho a dor imensa com a sua esposa e filhas, solidário também com a legião de amigos, admiradores e ex-alunos que sempre o acompanharam.

(AP)

sábado, 28 de julho de 2018

Sem engenheiros florestais, que país queremos ter?



            Desgraçadamente, tornam-se sempre necessárias grandes tragédias para chamar a debate questões que a sociedade devia ter permanentemente na ordem do dia. Veja-se os problemas da floresta, os incêndios, o ordenamento do território. Pior que isso ainda é constatar que, passado o impacto das tragédias e o habitual período de nojo, a emoção dos afetos esmorece, dilui-se a pressão da emergência, e tudo volta a correr como se nada se passasse, com o silêncio a abrir portas (viu-se agora em Pedrógão Grande) a estranhos oportunismos.
            Mas não menos inquietante é a incapacidade, nesta aldeia global, de não colherem proveito, em outros países, as lições desafortunadamente aprendidas por nós. Assim se viu na tragédia dos incêndios da Grécia. O “local sem paredes” de Torga parece ter ficado pela emoção mediática que correu e avassalou à velocidade da luz. As grandes lições, os debates na comunidade científica, parece não terem ultrapassado essas paredes. Continuou a assistir-se aos efeitos da falta de ordenamento do território, a floresta a cavalgar para as zonas urbanas e estas para a floresta. Também a Proteção Civil podia ter corrigido falhas do passado em cenário trágico idêntico, apontadas em devido tempo por peritos portugueses, que, face à desorientação dos bombeiros, chegaram eles próprios a pegar em mangueiras.
            Mas por cá, outras desorientações nos inquietam. Soube-se por estes dias que o prazo de julho para apresentação do plano de reflorestação da Mata Nacional de Leiria destruída pelo fogo no ano passado não se cumpriu, sendo adiado para o próximo ano. Bem sabemos que para os planos de intervenção e gestão florestal são precisos engºs florestais. Mas onde estão eles, se o país está a formar menos de dez por ano? A UTAD oferece um curso de referência em Portugal e na Europa, mas as vagas de candidatos ficam, ano após ano, longe de encher. Se o Estado considera esta área de formação como estratégica, onde estão as medidas de incentivo? E bolsas de estudo para alunos mais carenciados que possam interessar-se pela Engª Florestal?
            Inquieta-nos a ideia de que, em breve, Portugal tenha de contratar engenheiros florestais no estrangeiro.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 28-7-2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nadir humilhado


Vila Real devia orgulhar-se do privilégio de possuir um dos raros imóveis da arquitetura moderna que Nadir Afonso introduziu em Portugal na década de 60. Nadir Afonso (1920-2013), arquiteto, pintor e ensaísta, deixou em Portugal e no estrangeiro, nos vários domínios da arte e da estética, uma obra única, original e de dimensão universal.

Após um riquíssimo trajeto internacional, trabalhando com os mais influentes mestres do movimento moderno, Nadir projetou em Portugal algumas das obras mais emblemáticas que marcaram a história da arquitetura do séc. XX. E sendo transmontano, aceitou conceber também para Vila Real um singular edifício, conhecido como Panificadora PanReal, que continua a fazer parte da memória coletiva dos vila-realenses.

Vila Real devia orgulhar-se, de facto. Mas ainda que se orgulhe, debalde o faz, pois os decisores de Lisboa (sempre Lisboa!..) estão-se nas tintas para esse orgulho. Este edifício, ou o que dele resta, está hoje transformado numa autêntica…cloaca!


Situa-se nas imediações da UTAD. E foi a partir de docentes da universidade que um movimento de cidadãos, conscientes do valor simbólico do imóvel, lançou, há um ano, uma petição pública dirigida às instâncias governamentais e municipais a propor a sua classificação como imóvel de interesse público. O objetivo era travar a onda de vandalismo, bem como a sua presumida demolição a favor de uma superfície comercial, permitindo que Vila Real assegure a homenagem devida a Nadir Afonso, conservando o imóvel “como exemplo, não só, do génio de um grande artista e de um tipo de arquitetura de época, mas também como visão do espaço de trabalho de uma profissão [a panificação] que vai desaparecendo”. A própria Ordem dos Arquitetos e já antes Siza Vieira igualmente se manifestaram pela sua salvaguarda, reconhecendo-o como património com interesse arquitetónico que marca uma época.

O Ministério da Cultura, através da DGPC, acolheu a petição, e, há um ano, abriu o procedimento de classificação, para impedir – dizia –  “danos continuados do imóvel”. Porém, se a intenção era impedi-los, um ano bastou para que a destruição atingisse a vergonha que hoje se vê. Funcionou assim a lógica do facto consumado, tornando cada vez mais difícil justificar a classificação e a salvaguarda. E, na verdade, a resposta do Ministério veio, finalmente, em Diário da República arquivando o processo. Pergunta-se: ouviram quem? Os peticionários? A Ordem dos Arquitectos? Siza Vieira?

A memória de Nadir Afonso não merecia esta humilhação.

in Jornal de Notícias, de 7-7-2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

A arte de deslumbrar as novas gerações…


Estas quatro jovens (Marta, Sónia, Cristiana e Susana), alunas da licenciatura em Ciências da Comunicação da UTAD, e (quem sabe?) futuras jornalistas, apresentaram hoje, orgulhosamente, um interessante trabalho académico de final de semestre, sobre a história de vida de Barroso da Fonte, decano do jornalismo em Portugal.

Absolutamente seduzidas pelo seu percurso, qualidade profissional, verticalidade, arroubo intelectual e ilimitada jovialidade, trouxeram dele uma grande lição: nada se consegue sem trabalho, sem estudo, dedicação, disciplina, respeito pelos valores matriciais e sobretudo humildade respeitosa perante quem nos pode transmitir os saberes que acumulou numa exemplar experiência de vida.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Salvar as sementes


Tem sido grande a polémica em torno dos interesses que se movem, à escala global, pelo controlo das sementes. Há multinacionais a deterem patentes que restringem o uso da semente própria pelos agricultores. E se é certo que os protestos mais recentes levaram o Parlamento Europeu a travar a aplicação de uma lei que, pura e simplesmente, ilegalizava a troca e comercialização das sementes tradicionais pelos agricultores, também é certo que a luta não está ganha: com as patentes e outros direitos de “propriedade intelectual” nas suas mãos, as poderosas corporações podem, em qualquer momento, alegar uma “concorrência desleal” pelo uso e troca das sementes tradicionais dos agricultores e impedi-los assim de prosseguirem uma prática milenar no cultivo dos seus campos. Empenhadas em padronizar o paladar à escala global para melhor venderem os seus produtos, estão-se “nas tintas” para as realidades culturais que os seus interesses afrontam. Nos últimos 100 anos, desapareceram mais de 90% de variedades de sementes da Terra, o que empobreceu a diversidade da alimentação humana, cada vez mais refém de variedades manipuladas visando maior rendimento. Entretanto, o país rural português possui cerca de duas mil variedades de sementes. Há que zelar pela sua salvaguarda. As sementes são parte do património cultural, histórico e alimentar de um povo. A parábola bíblica alegoriza-as como arquétipo da vida: se plantarmos hoje a boa semente, amanhã colheremos saúde, amor, abundância e paz.

Mas esta parábola conduz-nos também, de novo, às grandes ameaças que pairam sobre a sobrevivência da nossa floresta autóctone. Dada a grande extensão de áreas consumidas pelos incêndios, muitas espécies autóctones estão a desaparecer. E, para que num futuro plano de reflorestação se possam recuperar as espécies perdidas, lá voltamos à questão das sementes. O mostajeiro, por exemplo, uma espécie outrora muito usada para madeira e artesanato e cujo fruto as populações aproveitavam para uma excelente compota, está hoje limitado a duas únicas árvores conhecidas em Portugal, diz-nos um especialista da UTAD. Por isso, há que recuperar e proteger num banco de sementes as espécies que estão em risco efetivo. Sem a biodiversidade ativa, estará em causa a qualidade de vida nos territórios, sendo que a qualidade das sementes é um dos importantes aspetos a ter em conta em qualquer programa de arborização. E daí que proteger os recursos genéticos e promover a arborização de espécies autóctones, seja também uma forma de proteger o futuro.

AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 11-7-2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Em louvor do engenheiro florestal


Ano após ano, a notícia impõe-se como uma fatalidade: a floresta é um tema incontornável, sempre e somente, pelo seu lado trágico. E como em todas as tragédias, acompanhando o período de nojo do seu impacto, segue-se o inevitável período de reflexão, ao ritmo dos momentos de emoção que sempre albergam o subterfúgio das fragilidades da condição humana…, uma reflexão, por isso, com prazos limitados de validade.

No ano transato, assim foi, perante um verão já de si catastrófico para a floresta. O governo lançou o debate, desafiando investigadores e instituições. Os investigadores da UTAD, conhecendo o terreno como poucos, lançaram então o alerta: “a floresta portuguesa precisa de uma revolução que ponha termo à inércia das entidades responsáveis pela gestão e ordenamento do espaço florestal, mas com medidas alicerçadas num conhecimento técnico-científico”.

Logo, há que mandar para o terreno engenheiros florestais. O país precisa deles. Paradoxalmente, os cursos de engenheiros florestais estão a desaparecer no ensino superior, resistindo apenas numa ou duas instituições comprometidas com uma missão estratégica de revitalização das regiões do interior. Os seus jovens engenheiros estão dotados de uma formação avançada que lhes permite intervir nos projetos de ordenamento e povoamento florestal, na proteção da floresta contra os incêndios, na aplicação do conceito de sustentabilidade na prática florestal. São profissionais que sabem bem como cresce a floresta e como reage perante condições normais e condições adversas. Sabem como ninguém onde, quando, porquê, como e o quê deve nela ser plantado.

Impõe-se, por isso, tornar apetecível a missão de engenheiro florestal. Mas também tornar apetecível trabalhar nas regiões do interior. Começa a ser tempo de pedir contas, ou respostas objetivas, a uma tal Unidade de Missão para o Interior, criada pelo atual governo e da qual se esperam intervenções claras que atraiam gente e atividades para o mundo rural, quebrando a sangria de recursos para o litoral. E nunca esquecendo que a floresta em Portugal ocupa ainda uma posição ímpar no contexto europeu. Representa cerca de 2% do PIB e em Valor Acrescentado Bruto nacional aproxima-se dos 4 milhares de milhões de euros, além de envolver quase 100 mil postos de trabalho diretos e remunerar cerca de 400 mil proprietários.

Já é tempo, pois, de a floresta passar a ser notícia não como um mundo de problemas mas como um mundo de oportunidades.

(ap)
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 26-6-2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

A primavera no campus da UTAD


Chegou hoje a primavera, a estação do ano que melhor realça toda a beleza do campus da UTAD. Verdadeiro “ex-libris” da Universidade, é considerado um dos maiores jardins botânicos da Europa e marca a diferença em relação a todas as universidades do país. Com cerca de mil espécies distintas, oriundas dos quatro cantos do mundo, revela-se uma autêntica montra de biodiversidade. Não é por acaso que a UTAD, implantada neste excesso de Natureza, se vem assumindo como uma Eco-Universidade, desígnio diferenciador que representa uma poderosa mais-valia para o futuro. E daí que estudar, lecionar e investigar neste ambiente, nesta Universidade, seja um desafio tão estimulante como enriquecedor.
 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Comandar um rato… com um sorriso!


Não era suposto trazer aqui de novo o inquietante “Admirável Mundo Novo” de Huxley com o cenário sombrio de profecias que traçou para esta sociedade incapaz de se proteger das tecnologias que ela própria criou. Muitas das suas profecias estão aí, bem o sabemos, ainda que metaforizadas algumas, outras como ameaça latente. Clonagem, manipulação genética, pessoas programadas em laboratório, surpreendidas por um rumo que nem sequer idealizaram, como se a tecnologia não fosse feita para o homem, mas o homem feito para a tecnologia, são alguns dos vaticínios desse “admirável mundo”. Um quadro preocupante, já percetível numa geração de “nativos digitais”, dominados por tecnologias que avassalam sem defesa, crianças e jovens moldados pelo uso de tablets e smartphones; mas também nos paradoxos de uma sociedade moderna, em que os anseios de privacidade por vezes obsessiva das famílias esbarram com os prazeres da visibilidade nas redes sociais, expondo viagens íntimas, fotos e nome dos filhos, e cada vez menos adotam atitudes críticas em relação às tecnologias que as escravizam. Como diz Huxley numa entrevista de 1958, a propósito dos ditadores do futuro: “Para se preservar o poder indefinidamente, só basta obter o consentimento dos governados”.

Mas não voltaria, como disse, a esse “admirável mundo” se não tivesse lido, há dias, uma admirável reportagem do JN, rubricada por Sandra Borges, com a história de uma jovem, ex-aluna da UTAD, que aplicou os saberes do seu curso (Eng.ª da Reabilitação) para ajudar a sua prima de 15 anos, portadora de doença neuromuscular degenerativa, agarrada a uma cama e incapaz de se exprimir, a poder comunicar com um computador e assim comunicar com o mundo. Andreia Matos, durante o seu curso, criou um software de reconhecimento de expressões faciais, projetado para a sua familiar, mas adaptável caso a caso conforme o grau de deficiência. A pequena Bárbara (“princesa Babá” como a tratam) pode agora com um ligeiro sorriso comandar um rato, interagir com a terapeuta, completar trabalhos escolares ou controlar a personagem de um jogo.

Será que Aldous Huxley, quando há 86 anos atrás inquietou a humanidade com o seu “Admirável Mundo Novo”, futurando uma sociedade escravizada pela tecnologia, teria sequer admitido nas frinchas das suas profecias um espaço libertador para uma “princesa Babá” que iria ver, deste jeito, um pouco mais aliviadas as agruras do seu mundo? 

Alexandre Parafita
in Jornal de Notícias, 18-1-2017

sábado, 8 de outubro de 2016

As noivas da floresta



Sou ainda do tempo em que os incêndios nos montes eram coisa rara. Cresci numa aldeia transmontana, onde, mal se avistava um fogo, o sino tocava a rebate e logo ia sobre ele um formigueiro de gente, mulheres com canecos de água, homens com sacholas e vassourões improvisados de estevas e giestas… e tudo se apagava enquanto o diabo esfrega um olho. Ninguém chamava os bombeiros, julgo até que nem os haveria. Tempos irrepetíveis, é claro. A natureza tinha outra harmonia. A humanização das montanhas, o pastoreio com os rebanhos desbastando as ervagens densas, o mato roçado pelos lavradores para as camas do gado que o curtia para depois fertilizar os campos, os lareiros e fornos a lenha em todas as casas que impunham um permanente rebusco e patrulhamento dos pinhais… era outra realidade. Dela ficou quase nada. Quando muito, o martírio das memórias.

Mas os tempos mudaram, bem se vê. E realidades novas impõem estratégias novas. A floresta e os seus recursos continuam a representar uma das maiores contribuições para o PIB nacional. Abandonar a floresta ao flagelo dos incêndios é desistir do país. O melhor caminho é combater pela base o flagelo, especialmente quando começa a estar à vista que os grandes beneficiários da floresta já não são os que estão ligados à geração da riqueza que ela representa, mas os que estão ligados à destruição do seu valor – um fenómeno percetível na vastidão de interesses que vivem hoje da existência do fogo.

E combater pela base passa por dar voz à ciência e ao conhecimento. Há que ouvir as universidades que estudam a fundo este fenómeno e teimam em procurar as melhores soluções para limitar, futuramente, o flagelo. Realço as palavras recentes de Paulo Fernandes, investigador da UTAD, ao apontar como caminho, nas ações de reflorestação do território, a aposta no que chama “árvores bombeiras”, espécies florestais que não só resistem ao fogo como também contribuem para travar o avanço das chamas. E destaca várias espécies: o castanheiro, o sobreiro, mas especialmente o vidoeiro, cuja seiva os russos usam em vodka e xaropes. Onde estiver esta árvore, o fogo não passa. Por isso, há que criar zonas tampão em posições estratégicas no território florestal. Ainda é visível no Marão (entre Cotorinho e Montes) uma mancha destas árvores que sobreviveu a um famoso incêndio que devastou há anos toda a serra. A casca branca dá-lhes um ar distinto, um porte de singular beleza. Não é por acaso que o povo lhes dá o nome de “noivas da floresta”.

in Jornal de Notícias, 8-10-2016

sábado, 17 de setembro de 2016

Sem os jovens, mata-se o futuro


Talvez por ser longo, desesperadamente longo, o período em que o país se viu dominado pelo calvário mediático dos incêndios, notícias houve que, podendo trazer alguma aragem de optimismo, quase se diluíram na vaga deprimente desta já quase assumida fatalidade que é o destino trágico de um país em chamas. Assim foi com Andreia, aluna de mestrado da UTAD. Condoeu-se de uma menina de 14 anos, sua familiar, portadora de doença neuromuscular degenerativa, sem qualquer tipo de mobilidade, incapaz de comunicar, e, com os saberes do seu curso (Eng.ª de Reabilitação), desenvolveu um sistema automático de reconhecimento das expressões faciais que lhe permite interagir com um computador e daí comunicar com o mundo. A universidade reconheceu o carácter inovador deste protótipo, pois, havendo já softwares que reconhecem expressões faciais de pessoas ditas normais, nenhum funciona em situações desta natureza, podendo ser adaptado, caso a caso, conforme as especificidades de cada um.
 
Pela mesma altura, duas jovens da mesma universidade (Helena e Susana), alunas de Psicologia, criaram um projeto inovador (“Dog Stress Device”), que visa prevenir tentativas de suicídio em pessoas com história clínica de elevada ideação suicida, e que passa, basicamente, pela aplicação de um dispositivo eletrónico na coleira de um cão treinado, a coabitar com a pessoa em risco, o qual se assume como mediador na monitorização do comportamento do dono. Uma equipa de psicólogos, munida de um descodificador, poderá então agir nas situações críticas.
 
Apenas dois exemplos. Jovens que põem o seu saber ao serviço do outro. Gestos generosos de quem quer melhorar a sociedade e que sonha com uma oportunidade para o fazer. Sonho, afinal, de tantos jovens portugueses bem formados que, em troca, recebem o quê? Desemprego, estágios atrás de estágios, precaridade sobre precaridade. São jovens cheios de energia, bem preparados, inovadores, que se veem enxotados das oportunidades de trabalho efetivo como se de uma praga se tratasse. Não admira, pois, que o seu desejo seja procurarem o futuro longe do seu país, como o demonstra o recente estudo da rede Universia ao deixar claro que 78% dos alunos planeia emigrar.
 
Grande paradoxo este! O país pobre gasta o que tem (e o que não tem) na formação universitária destes jovens, e, no fim, são os países ricos que ficam com o proveito!

AP
in Jornal de Notícias, 17-9-2016

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A noite só escurece para quem não sabe sonhar


Mário Trindade, atleta de Vila Real, é o modelo do verdadeiro campeão, para quem os sonhos se encarregam de garantir o fulgor de uma primavera renascida, resistentemente luminosa. Atleta premiado, medalhado, recordista, em Portugal e no estrangeiro, sempre soube sublimar as fraquezas e torná-las o motor das suas forças, do seu talento. Conheço-o desde miúdo, vi-o treinar nas pistas da UTAD e sempre apreciei a grande energia que dele irradia, para além de um talento invulgar.
 
Foi, por isso, com um ah de espanto que tanto ele como todos os que o conhecem viram o seu nome retirado da lista de convocados para os Jogos Paraolímpicos Rio 2016. Ele, que havia conseguido alcançar os mínimos para a competição paraolímpica, e tudo investiu nesse sonho, dinheiro, horas e horas, dias, semanas, meses de treino. A pista passou a ser a sua segunda casa, fizesse sol, frio ou chuva. Falta de vaga foi a justificação dada para a recusa. Mas que raio de justificação! Gente fria, insensível, incapaz, foi certamente quem assim decidiu. Resta a certeza de que não serão esses burocratas da capital que lhe travarão o sonho de ser campeão. Esse continua ativo e continuará a guiá-lo.
(AP)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Acompanha o pastor transmontano desde o neolítico


O Cão de Gado Transmontano faz parte da história viva das terras “para cá do Marão” há mais de 10 mil anos. Estudos da UTAD situam a sua origem no neolítico. Como referência ancestral das memórias dos povos que ocuparam este território, enquanto protetor contra a ameaça dos lobos e de outras feras, é também um ícone ativo do património imaterial transmontano.

Apesar da sua grande corpulência, tem um comportamento dócil e reservado. Sempre muito calmo e de olhar sereno, é cauteloso sem ser agressivo, mas também um dos animais mais corajosos na defesa do dono e dos seus bens. Tem uma função a cumprir e cumpre-a com coragem, responsabilidade e lealdade. Um exemplo para muitos humanos. (ap)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Também há campeões assim



Para muita miudagem que atravessou os anos 60 e 70, ele era uma espécie de “Cristiano Ronaldo” dos dias de hoje. A diferença maior estava apenas nos milhões e cifrões que os distanciam. Porque o seu nome, Fraguito, também bailava nos gritos da miudagem, em especial nos recreios da escola, onde disputávamos as “caricas” com o seu rosto e festejávamos os golos que vinham a preto e branco nos ecrãs da TV. Era um prodígio com a bola nos pés. Voava como um gavião sobre o relvado. Foi duas vezes campeão nacional pelo Sporting. Marcou golos decisivos para as vitórias. Foi seis vezes internacional pela Seleção Nacional. Numa delas, há 41 anos, fez parte desse naipe de heróis de Portugal que alcançou a famosa vitória contra a França, humilhando-a em pleno estádio de Colombes, em Paris. Honrou por isso as cores de Portugal. Honrou a Pátria.

Hoje é um discreto funcionário da UTAD, zelador do edifício do Bloco Laboratorial. Humilde, honesto, assíduo, dedicado, gentil, responsável, atencioso. Também há campeões assim. Sem ferraris, sem iates, sem férias em ilhas paradisíacas, sem namoradas descartáveis, sem milhões nas contas bancárias. Honra-me ser seu amigo. 

AP

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Quando nasceu a primeira narrativa do Homem?


Miguel Real, um dos grandes pensadores do nosso tempo, deu a resposta ontem na UTAD à pergunta que está em título. A relação do homem primitivo com o mundo, fundada e mediada pela emoção, mas sobretudo a noção de que a consciência emotiva é uma consciência emergente em estado puro (uma “consciência animal”), colocam a espécie humana sob a inquietação de quatro “fontes do mal”: a carência, a dor física, a dor psíquica e a morte. E é quando essa inquietação deixa de existir que nasce o sorriso e a alegria, mas sempre na contingência de que tudo é precário, ou seja, “tudo o que há, pode deixar de haver”. Assim, ao deslumbramento do dia sucede a angústia da escuridão, uma escuridão que é também potenciadora de todos os medos. Porém, a sublimar essa inquietação do medo, aparece a lua. Terá dito então o homem primitivo (o “Homo erectus”) na sua própria linguagem: “A lua é-nos afeiçoada, é nossa amiga, ela aparece para iluminar-nos”. Aqui residiu, segundo Miguel Real, a primeira narrativa.
(ap)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A UTAD tem boas razões para sentir-se orgulhosa


Este jovem, José Paulo Santos, aluno do mestrado em Ciências da Comunicação na UTAD, é autor do filme documentário “Além da sala de espera”, distinguido, no passado fim de semana, com uma menção honrosa na 8ª Edição do Festival Internacional de Cinema de Turismo ART&TUR. É um filme que retrata a vida singular de dois eremitas alemães, Maria Feliz e o seu companheiro feliz, numa pequena aldeia da montanha próxima de Vila Real. Ao festival concorreram 256 filmes de 54 países. E o Zé Paulo está já nomeado para outros dois festivais internacionais a realizar em novembro: um nos EUA, outro na Índia.
 
A UTAD tem boas razões para sentir-se orgulhosa de alunos assim. E o curso de Ciências da Comunicação, onde tenho o prazer de lecionar, mais ainda.
 

sábado, 6 de junho de 2015

Onde está, afinal, esse “admirável mundo novo”?

 
Mostrou-me há dias, Raul Morais, investigador da UTAD, um robô que construiu com colegas e alunos, apto a entrar nos vinhedos escarpados do Douro e a auxiliar o agricultor nas suas árduas tarefas. Equipado com a eletrónica mais avançada, planeia trajetórias e, numa 1ª fase, entra pelos geios dentro, faz pesquisas sobre as necessidades das vinhas e o homem fará o resto. Numa 2ª fase, já será o robô a substitui-lo em muitas tarefas: pulverização inteligente, corte seletivo de matéria vegetal, entre outras.
 
Descendente que sou dos velhos lavradores que construíram a paisagem do Douro, hoje Património Mundial, que esculpiram os seus vinhedos, dotando-os de uma beleza ímpar, mas trabalhando, como ainda hoje, de sol a sol, numa luta espinhosa e desigual com a terra, não pude deixar de observar se não estará neste admirável modelo da robótica o lado mais esperançoso da profecia de Huxley, que há meio século inquietou a humanidade com o seu “Admirável Mundo Novo”, futurando uma sociedade escravizada pela tecnologia, com pessoas programadas em laboratório, surpreendidas por um rumo que nem sequer idealizaram, como se a tecnologia não fosse feita para o homem, mas o homem tivesse de ser feito para a tecnologia. Um quadro inquietante que, afinal, já aí está, numa geração de “nativos digitais”, dominados por tecnologias que avassalam sem defesa, crianças e jovens moldados pelo uso de tablets, smartphones, androids, iPhones, iPads; mas também nos paradoxos de uma sociedade moderna, em que os anseios de privacidade por vezes obsessiva das famílias esbarram com os prazeres da visibilidade nas redes sociais, expondo viagens íntimas, fotos e nomes dos filhos, e cada vez menos adotam atitudes críticas em relação às tecnologias.
 
Anima-me, por isso, que nesta investigação da UTAD refloresça o outro lado desse admirável mundo. O lavrador do Douro, que noutros tempos tinha ao seu lado filhos e netos, numa cumplicidade incondicional, filhos e netos que se vão esfumando nesta dureza de vida, pois já não se conformam com ela, um dia vê-lo-emos seguir pelos geios do Douro com um companheiro electrónico ao seu lado.
AP
in JORNAL DE NOTÍCIAS, 6-6-2015


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Uma condecoração muito justa!


O Professor Catedrático jubilado da UTAD Dionísio Gonçalves, um grande amigo por quem tenho há muitos anos a maior admiração, foi ontem (14 de abril) condecorado pelo Presidente da República com a Ordem da Instrução Pública, juntamente com diversas personalidades nacionais com carreiras notáveis no ensino superior. O Prof. Dionísio Gonçalves, atual Presidente do Conselho Geral do IPB, e já antes (ao longo de duas décadas) presidente da mesma instituição, foi um dos primeiros doutorados pela UTAD (quando ainda era IUTAD).
Daqui saúdo esta honrosa e muito justa distinção.

[E para quem gosta de recordar, aqui fica a notícia, que eu próprio publiquei... já lá vão 30 anos!]
AP

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Joaquim Lima Pereira: a homenagem que tarda!


Celebra-se hoje o 32º aniversário do Instituto Politécnico de Bragança. Foi seu fundador o Prof. Joaquim Lima Pereira, que tive o privilégio de entrevistar antes de partir de armas e bagagens para Bragança. Era então reitor do IUTAD, antecessor da atual UTAD. Nessa entrevista revelava as linhas centrais do seu pensamento para o que pretendia que fosse o ensino superior em Trás-os-Montes, uma visão estratégica que viu concretizada na UTAD e no IPB. Mas nessa visão incluía, acima de tudo, ideias sólidas, sábias e avançadas, para o desenvolvimento global sustentado de Trás-os-Montes, ainda que os políticos de “meia tigela” que, entretanto, se atravessaram no caminho as não tenham sabido aproveitar. Foi por isso uma figura central para Vila Real e para Bragança. Estas cidades hoje são o que são e muito lho devem.
Ao que sabemos, cinco anos após a sua morte, o seu nome não consta na toponímia em qualquer destas cidades. Porquê? É preferível continuar a enxameá-la com nomes de criaturas fantasmas, umas absolutamente desconhecidas, outras de notoriedade irrelevante?
Alexandre Parafita
in Diário de Trás-os-Montes